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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Opinião: Uma piscina com uma suástica é uma piscina de dejetos

Na parede da universidade: neonazistas são denunciados publicamente na Alemanha

Embora algumas pessoas tenham me questionado, não tinha escrito até agora sobre os achados fascistas do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, porque acho que o que se deve pensar sobre o assunto é obvio. Já escrevi sobre isso várias vezes aqui no blog: sobre neonazistas nas ruas de Weimar, sobre os rastros do nazismo em Berlim e sobre os sinais para identificar neonazistas.

Mas essa notícia de hoje, de que um homem de 93 anos que trabalhou por dois meses como voluntário em Auschwitz será julgado, ajuda a ilustrar e deixa claro o que a Alemanha pensa do nazismo: ele não é tolerado. Não importa quanto tempo faz que a SS marchou pelas ruas da capital alemã, esse é sim um assunto espinhoso no país e sempre será. Porque o nazismo é uma vergonha que o povo alemão vai carregar (e tem que!) pra sempre. Não existe nada de bom, nenhum exemplo que pode ser tirado de um regime que matou 6 milhões de pessoas. A não ser a lição de que isso nunca pode ser repetir, por nada.

Por isso qualquer pessoa que simpatiza, mesmo que vagamente com o nazismo, é um idiota. E quem tem uma piscina com uma suástica no fundo, mesmo que seja para seu uso privado e “secreto” é um sociopata. Quem defende que a suástica é um símbolo zen, muito anterior ao nazismo não é ingênuo: ou é burro ou é mal-intencionado. É como dizer que, no Brasil, uma estrela não representa o PT ou tucano não simboliza o PSDB porque existem muito antes dos partidos. Quem defende que a privacidade do cidadão foi violada, devia saber como a Alemanha trata seus fascistas modernos: com cartazes pelas ruas, expondo suas caras e suas vidas. Porque a comunidade tem o direito de saber quem são essas pessoas. Mesma razão pela qual o partido NPD (sabidamente nazi!) existe: para que se possa acompanhar, controlar, coibir e desencorajar qualquer engajamento popular a causa.

Pra mim, só existe uma coisa pior que o nazismo: o neonazismo. Porque o nazismo, quando começou, lá em 1933, até se pode alegar que não tinha intensões claras de matar (embora eu não compartilhe essa impressão) e que por isso teve tanto seguidores. O neonazismo não: as pessoas sabem claramente o esgoto moral onde estão se enfiando e fazem questão de chafurdar na m. Neonazismo não tem desculpa: é falha de caráter, desvio moral e, sobretudo é crime e assim é tratado aqui na Alemanha. Se o país que foi responsável – e paga caro por isso até hoje, financeira e moralmente – combate veementemente sua extrema direita, a agressão contra estrangeiros, a discriminação e a xenofobia, só lunáticos pensam que “é um exagero se importar com algo que aconteceu há tanto tempo”.

Minhas idas e vindas aqui na Alemanha me permitiram saber que o sobrenome que carrego esteve nos dois lados da guerra. Há muitos Ebel na lista de soldados alemães que serviram o Reich. Há tantos outros na lista de mortos nos campos de concentração que já visitei (e todo mundo deveria visitar para saber de verdade o que eram!). Essa dicotomia genética, a cor dos meus olhos e do meu cabelo, no entanto, nunca foi razão para que eu sequer deitasse um segundo pensamento pela causa ariana, porque qualquer pessoa com consciência moral o bastante para diferenciar o certo do errado não pode aceitar nenhuma simpatia por qualquer palavra nacional socialista. E a piscina com a suástica pode estar cheia de água, mas não vejo nada além de um tanque de excrementos: igualzinho a quem concorda que essa é uma ideia aceitável. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Desafio do turismo sem viajar: para aprender a ver o mundo é preciso conhecer a própria vizinhança

Novos olhares: viajar pode ser simplesmente olhar pra fora da janela

Viajar é quase um vício. Quanto mais se anda por aí, mais se percebe a imensidão do mundo. Quem gosta de viajar passa o caminho de volta inteiro planejando a próxima viagem. Existe uma expressão em alemão que eu gosto muito e que define esse sentimento: Wanderlust. Wander, em alemão, é caminhar, fazer uma trilha, bater perna por ai. Lust é vontade, ânsia por alguma coisa. Juntando tudo, é quase como um desejo de sair por ai, sem rumo certo, sem saber o que vem pela frente. É um desejo forte de ver o mundo. 

Mas viajar não significa ir longe e nem ter muito dinheiro. Viajar é, sobretudo, uma questão de olhares e por isso queria lançar o desafio de ser turista por um dia em sua própria cidade, aproveitando para celebrar o Dia Mundial do Turismo (27 de setembro).

É simples assim: escolha um dia de folga. Um domingo, de lojas fechadas, ruas tranquilas. Coloque um calçado bem confortável, pegue a máquina fotográfica e saia para turistar pelas ruas do Centro, onde se passa todos os dias. A ideia é olhar e ver. Ver com a alma e depois compartilhar com os amigos o que se viu: em blog, no Facebook, no Istagram. Que tal usar a hashtag #TurismoSemViajar e #DeVoltaANaveMãe!??!

Desde que viemos morar na Alemanha essa tem sido uma tarefa bem comum em todas as cidades que moramos. Quando recebemos visita, fazemos os passeios turísticos da cidade. Vamos às ruas principais, aos museus, à prefeitura: e sempre me sinto feliz em fazer isso, porque sempre vejo uma coisa que não tinha visto antes.

Claro que em algumas cidades há mais coisas para ver do que em outras, mas a ideia do desafio é olhar a própria cidade com o olhar de turista. Antes de sair, de uma lida no site de turismo da cidade. Espie a Wikitravel. Vale até comprar um guia turístico ou imprimir as páginas com explicações sobre os prédios históricos, os monumentos, aquelas estátuas que a gente sempre passa na frente e nunca vê.  Passe o dia caminhando, curtindo, como se fosse uma cidade nova. Sem pressa e deixando que os olhos vejam aquilo que nunca tem tempo de ver.

Faço isso sempre aqui em Weimar. Tento passar por ruas diferentes, mesmo que isso adicione 200 metros a mais no meu caminho. E sempre encontro surpresas. Mas turistei também na última vez que fui a Blumenau, minha cidade natal. Claro que tem muito a ser feito – ver a cidade com os olhos de turista permite entender que imagem os visitantes levam dela. Mas mais do que isso: é sentir o prazer de viajar sem ter que pegar um avião.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Páscoa na Alemanha: o mito da tradição (alemã?!?!?) das casquinhas de ovos recheadas com amendoim açucarado


Tudo pronto: Na Alemanha, mas do jeito que se faz no Sul do Brasil

Páscoa no Sul do Brasil – ao menos em Blumenau e região! – é sinônimo de casquinhas de ovos decoradas recheadas com amendoim confeitado. Sempre ouvi que se tratava de uma tradição alemã e há quase seis anos na Alemanha nunca encontrei nada parecido. Bem, em partes. Eu explico já.

Na Páscoa por aqui os ovos somem do mercado. Mas não os túneis de ovos de chocolate comuns no Brasil: esses não existem mesmo. Falo dos ovos normais, aqueles de caixinha – que aqui vem 10 e não 12! Na véspera do feriado de Páscoa é melhor se precaver: eles desaparecem das estantes. São levados pra casa, cozidos, pintados e escondidos pelos jardins na manhã de domingo. Já falei por aqui dessa tradição.

Só no Brasil: túneis de ovos são coisas impensáveis na Páscoa alemã

Claro que existem chocolates no mercado. Este ano encontrei até uns ovos grandinhos – como os número 15 do Brasil, mais ou menos. Mas no geral, as pessoas presenteiam ovinhos, pintinhos de chocolate, coelhinhos e ovelhinhas. Sem exagero. Adultos, muitas vezes, trocam pequenos presentes. Mas nada de casquinhas decoradas com amendoim.

As casquinhas decoradas, quase todas de plástico em épocas de Made in China, aparecem aos montes, mas para decorar as tradicionais árvores de páscoa: Osterbaum. Muitas pessoas montam no jardim: decoram alguma árvore ainda seca por conta do fim do inverno com as casquinhas coloridas. Outras compram galhos com pequenos brotos e colocam em um vaso, onde são penduradas as casquinhas coloridas.

Osterbaum: árvores do quintal ainda sem folhas são decoradas

Variedade: É só escolher o galho favorito e montar a árvore em casa

Nas ruas: um vaso qualquer vira decoração de Páscoa

Assim como a árvore de Natal, a decoração é colocada cedo. É terminar o Carnaval que os coelhinhos estão à venda. Dessa forma, os galhos são comprados quase secos, apenas com os brotinhos verdes, e florescem dentro de casa com o passar dos dias. Com isso, levam a primavera para os lares e preparam o clima de renovação da Páscoa.

Bom, aqui em casa não tem nada disso. Não somos religiosos, mas adoro datas festivas e tradições familiares. Assim, festejo a páscoa mais ou menos como fazia na minha infância: com as casquinhas recheadas de amêndoas doces.

Tradição

Em uma pesquisada descobri que a tradição é atribuída aos húngaros. Na época da quaresma, as plantas não eram regadas e no dia de Páscoa os pretendentes apareciam para regá-las, recitando poesias. A rega, porém, não tinha nada a ver com flores: eram as moças que acabavam molhadas, quando os homens lançam gotas de água com ramos de plantas. E as casquinhas? Bem, nos dias antes da rega, as moças decoravam casca de ovos que enchiam de doces para entregar aos seus pretendentes no dia de Páscoa.

Especulo que seja essa troca cultural toda da época do antigo império Austro-Húngaro que tenha feito a tradição chegar ao dia de hoje do Sul do Brasil. Perguntando para amigos e parentes, descobri que tanto famílias alemãs quanto italianas tem o hábito. Deve ter sido uma tataratataratataravó comum que foi regada e frutificou a tradição.

Este ano decidi decorar casquinhas de plástico e achei em uma feirinha de Páscoa uma técnica bem interessante. Compra-se uns plásticos, envelopa-se a casquinha,coloca-se na água quente e tchammm: tá pronto. Bom, quase. As casquinhas vem com um gancho para pendurar na árvore, mas nada que um estilete afiado não resolva.

Simples: é só colocar na água quente que o plástico adere à casquinha

Achar o amendoim foi outra empreitada. Como moro em uma cidade muito pequena (Weimar), não existem mercados asiáticos que vendem amendoim cru, mas com a casquinha vermelha ainda. Bati pé na cidade toda e ouvi em muitas lojas: Não, agora não é época de amêndoas confeitadas. Bom, não para os alemães, né! Mais uma prova de que rechear casquinhas de ovos não tem nada a ver com o país. Por aqui esses confeitos são típicos dos mercados de Natal.

No fim de muito bater perna, tive que me contentar com um amendoim já torrado, mas sem sal, que vende no setor de salgadinhos e snacks do Rewe. Foi o melhor que encontrei. Preparei a receita como a do Natal, mas no lugar da canela coloquei raspas da casca de um limão. Ficou bem gostoso.

E, pra não deixar qualquer dúvida de que rechear casquinhas de ovos com amendoim não tem nada a ver com a Alemanha, mergulhei em mais uma pesquisa e o mais perto que encontrei foi isso: casquinhas de ovos usadas como formas para pequenos bolinhos que serão saboreados no domingo. No fim das contas, a única coisa em comum é o nível de glicemia do domingo: no Brasil ou na Alemanha, Páscoa é sempre um dia bem doce!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Para copiar da Alemanha: medidas simples (e quase sem custo) que podem transformar o transporte coletivo em cidades brasileiras

Em Erfurt: bondes encontram espaço mesmo em ruas estreitas e históricas

Vivo há quase seis anos na Alemanha e por aqui nunca tive carro (nem carteira de motorista) e vivo feliz e satisfeita em relação ao transporte. Estive no Brasil na semana passada a trabalho (especificamente em Blumenau, SC) e, nesses dias, usei o transporte público em algumas ocasiões. Assim, me dou a o direito não de comparar, mas de observar alguns pontos simples que poderiam fazer o transporte de Blumenau (e de outras cidades do Brasil) muito melhor. Não estou falando de investimentos faraônicos: só de um pouco de organização.
  • As paradas de ônibus deveriam ter um nome, simples assim. Dessa forma, os transportes deveriam ser mapeados como o metrô (as cidades alemãs fazem isso e uso o mapa de Brauwnschweig – cidade onde morreu o Dr. Blumenau, fundador da cidade, para ilustrar). Só assim, não teria ficado fazendo um monte de perguntas para saber que ônibus passa onde e como vou de A a B.
Eficaz: sistema de ônibus pode ser mapeado como o metrô

  • Os nomes das paradas permite que sejam incluídas em um mapa digital e, com isso, quem não sabe o nome da parada de ônibus poderia simplesmente colocar o endereço de partida e o de chegada em um site e receber a rota de ônibus que deve seguir para chegar lá. Esse exemplo da imagem é do site de transportes de Berlin. Simulei a pesquisa a partir de dois endereços: do Parlamento Alemão (Platz der Republik 1) até a Universidade Técnica de Berlin (Straße des 17. Juni 135). O site verificou qual a parada de transportes públicos mais perto das minhas opções e indicou o caminho (incluindo mapas do trajeto a ser percorrido a pé desde a minha localização até o local onde desejo ir). Em tempos de Google maps não é nada do outro mundo.
Planejador: site ajuda a definir as rotas e fornece até mapas
  • As paradas de ônibus deveriam ter informações básicas: que linhas passam por elas, o mapa do transporte, uma tabela com o horário que o ônibus deve passar em cada uma delas. O quadro mostra uma linha de Bremen: nela consta o horário em que o Bonde 8 (mas é a mesma coisa para os ônibus), vai passar pela parada que se chama Duckwitzstr., de segunda a sexta, no sábado e nos domingos e feriados. Em baixo, está a descrição da linha. A parte anterior mostra de onde o trem veio. Em vermelho, a parada onde se esta. Depois as paradas seguintes, com a previsão de quantos minutos se vai levar para chegar até elas e, claro, em que direção o veículo está seguindo: assim ninguém pega o trem ou ônibus para o lado errado. 
Em Bremen: quadro informativo com horários e trajeto

  • A medida acima acabaria com a sensação de que todos os ônibus estão participando de um rali. Fiquei assustada com a velocidade excessiva em lugares sabidamente perigosos, como a curva do Cemitério no Progresso, por exemplo. Definir o horário previsto para cada ponto de ônibus evita que o motorista meta o pé na tábua para chegar antes. Claro que atrasos acontecem, mas a correria é muito mais perigosa. Assim, caso não tivesse que parar em um ponto, o motorista teria que controlar a velocidade para não passar adiantado no seguinte. Pode parecer chato no começo, mas isso assegura que ninguém vai chegar na hora marcada e ver a placa traseira do ônibus saindo do ponto. No fim das contas, confere mais confiabilidade ao sistema. Eu só posso crer que em Blumenau não seja assim porque quem cuida do transporte não conhece essas alternativas: não existe outra justificativa.
  • As estações de pré-embarque do Centro da cidade (modelo que tenta imitar o transporte de Curitiba – que já foi bom no século passado!) são a coisa mais ridícula do universo. Parecem gaiolas com pássaros selvagens recém capturados, onde todos ficam se debatendo. Quem sai do ônibus tem que empurrar para o lado quem esta engaiolado na espera de entrar no veículo. É patético. A coisa toda seria muito mais simples – e barata – se o sistema de leitura dos cartões de pagamento de passagem - que já contém um chip – fizessem também a leitura de uma marca temporizada. Ou seja: a pessoa passa na catraca e aquela passagem continua valendo por 90 minutos (ou 120, ou quantos a prefeitura julgar adequado), sempre na mesma direção (centro-bairros ou bairro-centro, por exemplo). Para os turistas (os raros que usam transporte coletivo!), poderiam ser vendidos cartões temporários nos postos de informação turística ou nos terminais. Em Florianópolis já funciona assim: ou seja, o exemplo está na porta.
  • Alguns corredores de ônibus já funcionam na cidade e acho que devem ser ampliados. Quem não viaja no conforto do ar condicionado do seu carro deve ter o direito de fazer o caminho mais rapidamente. Isso poderia atrair novos usuários: se o ônibus chega antes, por que ir de carro?
  • Estacionamentos próximos aos terminais com desconto para quem usa o transporte coletivo. Assim, é possível ir de carro até um terminal, estacionar e seguir o resto da viagem em direção as áreas mais centrais de ônibus. O mesmo vale para bicicletas: um local coberto e seguro onde possam ser deixadas. Funciona que é uma beleza aqui na Alemanha. Eu mesma fazia isso: deixava a bicicleta trancadinha no ponto e, quando voltava a noite depois do trabalho, não precisava caminhar sozinha por ruas não muito iluminadas (embora por aqui isso não represente um risco...).

É claro que as melhorias nos ônibus devem ir além. Modelos mais baixos e que se reclinem para facilitar o embarque de pessoas idosas seriam absolutamente convenientes. Não entendo porque os ônibus brasileiros tem uma altura de monster car. Com modelos mais baixos, as rampas para acesso a cadeirantes não precisam ser mecanismos hidráulicos complexos. Só uma rampa que pode ser aberta manualmente (uma prancha de madeira) e colocada até a parada resolve. Por aqui é assim: alguns ônibus mais modernos têm rampas automáticas, acionadas com um botão pelo motorista. Mas todos os outros tem essas rampas simples, que tornam o transporte acessível a todos.

Nem vou entrar no mérito do ar-condicionado. É absurdo que essa não seja uma exigência para todos os novos veículos incluídos na frota a partir da década de 1920. Bancos mais confortáveis não seriam má ideia, mas como prioridade, pregaria uma medida nos espaços públicos. Já passou da hora da proibição de fumar nos terminais, exceto em pequenas áreas específicas, marcadas no chão e com lixeiras para as infinitas bitucas que fazem o mundo mais feio. Porque mesmo em espaços abertos, os não-fumantes devem ser protegidos. E ninguém merece aqueles que dão uma última tragada já com o pé na porta e depois despejam a fumaça imunda já dentro do transporte.


Em uma visão mais utópica eu sempre me pego pensando na rua XV de Novembro de Blumenau – e tantas outras ruas de comércio importantes do Brasil - como um calçadão, talvez com o espaço compartilhado por bondes elétricos. Mas sei que isso está longe ainda. O que o brasileiro precisa entender é que vale a pena pensar no país como os países desenvolvidos pensam e que a cultura do carro é arcaica e burra. E pra fechar, que os comerciantes saibam que o que eles pensam hoje – que os clientes não irão mais as suas lojas se não puderem parar com o carro na porta – é a mais pura mentira: os holandeses que o digam. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Alemanha de A a Z: um guia prático para entender a terra dos castelos, da batata e da cerveja


Um guia prático para entender esse país cheio de regras, peculiaridades e consoantes. Uma coleção de verbetes com experiências, muito achismo e nenhum rigor científico: experiências somadas no cotidiano de um país com uma aura tão indigesta quanto repolho azedo com joelho de porco cozido, mas que se revela um local seguro, prático e até divertido de se viver.

Atenção: a reprodução desse texto ou suas imagens em qualquer outro veículo midiático – incluindo blogs ou sites só é permitida a partir de consulta prévia. Caso queira compartilhar, publique o parágrafo acima e inclua um link para o post original.



Alemanha – O país coleciona ódios e amores na mesma proporção. Bom, não exatamente. A liderança econômica da Alemanha na união europeia coloca o país – e em especial a chanceler Angela Merkel – no centro das críticas pela crise econômica. Não raro a governante é retratada como nazista, embora dentro do país goze de prestígio (demonstrado nas urnas nas últimas eleições). Más línguas dizem que a Alemanha conquistou com a economia e com a criação da EU aquilo que o Nazismo almejava e fracassou. Críticas à parte, é o país de um povo ordeiro e que tenta superar as marcas do passado. Uma economia de índices fortes apesar da crise e um lugar onde se vive com estabilidade e segurança.



Berlin – É capital alemã desde a reunificação, em 1991 (antes era a capital da Alemanha comunista – a DDR e Bonn era da Alemanha “Ocidental”, a BRD) e uma das cidades mais cosmopolitas da Europa. Apesar dos seus 4,4 milhões de habitantes, é um lugar relativamente tranquilo e seguro. O sistema de transporte de Berlin é certamente um dos mais eficientes do mundo – embora quem viva lá não se conforme com os 10 minutos de atraso dos trens que cruzam a região metropolitana. Tem lugares lindos mas, como um todo, não é exatamente o modelo europeu de beleza. Berlin encanta por ser história viva: a guerra, o muro, a divisão das Alemanhas transformam a capital germânica na cidade mais rica em história de todo o país. Imperdível.



Cerveja – A Alemanha pode até não ser o maior consumidor mundial de cerveja (com 143 litros por pessoa a cada ano, tchecos ocupam essa posição, seguidos dos austríacos, com 108). Os alemães estão em terceiro, com a média de 107 litros por pessoa por ano. No Brasil, que ocupa a 17ª posição, são 62. Mas as cervejas produzidas na Alemanha garantem a fama internacional. Existem incontáveis marcas produzidas por 1274 cervejarias registradas. Fora quem faz em casa. Os tipos variam muito, mas para serem chamadas de cerveja, todas devem seguir a lei de pureza na fabricação, a Reinheitsgebot. Somente água, malte, lúpulo e fermento podem ser usados no fabrico. Comparando as cervejas alemãs do tipo Pils com as brasileiras – que são quase sempre dessa categoria – fica fácil diferenciar: as cervejas alemãs são mais “fortes”. Tem um sabor mais marcante de malte e uma variação grande na lupulagem. São servidas um pouco menos geladas que no Brasil para que se possa apreciar o sabor em todas as suas notas.



Domingo – Todo sábado parece que o país está às vésperas de uma guerra, especialmente nos supermercados. No domingo – com raríssimas e recentes exceções nas cidades maiores – NADA abre no país. Não tem mercado, não tem loja, não tem shopping aberto. Padarias fazem plantão em sistema de rodízio, como as farmácias. Cada final de semana é uma que “faz o favor” de abrir em um determinado horário para vender. Mas as portas abertas são por pouco tempo. É melhor planejar o domingo com antecedência, fazer a lista de compras bem completa para não faltar nada.



Educação – O sistema de educação alemão causa estranhamento em quem chega. No final do que seria a quarta série no Brasil, os professores dividem os alunos em três grupos: os mais inteligentes, estudiosos e com boas notas; os intermediários, e os mais “fracos”. Cada grupo segue para uma escola diferente. Os “espertos” vão para o Gymnasium, onde serão preparados para entrar na universidade. Os do meio, passam a frequentar a Real Schule, que acaba mais cedo e conduz, geralmente, a um curso técnico ou a um curso superior do tipo tecnólogo. Já os “burrinhos” são encaminhados para a Hauptschule, onde recebem um ensino elementar e são encaminhados cedo para cursos profissionalizantes em áreas de ocupações menos especializadas: jardineiros, zeladores, padeiros, condutores de ônibus e afins. Isso porquê, na Alemanha, até para assentar tijolos em uma obra é preciso um curso técnico. Geralmente são três anos de preparação para qualquer atividade.



Feiras de Natal – As celebrações de Natal na Alemanha são pura magia. Em todas as cidades são organizados mercados que vendem comidas típicas do inverno e o tradicional vinho quente temperado com especiarias, o Glühwein. O cheiro da bebida se soma com as amêndoas carameladas, a neve e todos os cantos parecem cenário de filme. Sem exagero. É lindo demais. Já o réveillon, Silvester, como se diz aqui, é o oposto disso. Algumas cidades fazem queima de fogos, mas no geral, são apenas as pessoas que levam seus fogos para a beira de um rio, se houver. Alias, os espaços tradicionais são verdadeiras praças de guerra: o cenário é apavorante, com bombas e rojões explodindo por todos os lados. Isso porquê os fogos são proibidos no país o ano inteiro e só podem ser comprados e usados nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. Ou seja: são 48 horas para dar vazão a todo o fetiche bélico de um país inteiro. Além disso, o frio espanta qualquer ânimo. Pode ser divertido passar na rua, mas é preciso ter um programa para depois, porque meia hora depois da virada a multidão já estourou seus fogos, deixou toneladas de lixo para trás e se dispersou. Abaixo de zero, só mesmo com um bar quentinho pra comemorar!



Geração de energia – A Alemanha vive de energia termoelétrica (do carvão) e nuclear, mas está trabalhando duro em um plano ambicioso: mudar sua matriz até 2020. Muito tem sido feito e já se pode escolher comprar energia de fontes renováveis. Placas solares e turbinas eólicas estão espalhadas no país inteiro e isso não sai barato. No entanto, quem vive aqui aceitou pagar o preço de cuidar do meio ambiente. Além da energia, alemães consideram a separação do lixo quase uma religião. Veja o verbete Lixo.



Hauptbahnhof – Cada cidade tem a sua estação central de trem, que interliga os mais distantes recantos do país. A malha ferroviária alemã é de dar inveja. As conexões são geralmente precisas: é normal ter-se apenas três ou quatro minutos para trocar de um trem para o outro. Por isso qualquer atraso é catastrófico. Mas tem pra quem se queixar e as queixas são ouvidas. Mais de 60 minutos de atraso significa receber dinheiro de volta. Quem vive aqui reclamaconstantemente da Deutsche Bahn, mas quem vem de fora geralmente elogia: os serviços são bastante organizados em comparação a outros países, mas se paga bem mais caro por isso. Um cálculo bom (mas não preciso!) é saber que cada hora de trem custa aproximadamente 10 euros quando os tickets são comprados com antecedência. Se comprar na hora, pode ser o dobro disso. Existem muitas formasde economizar e encontrar tickets mais baratos.



Imigrantes – Estatísticas de 2011 apontam que 19,5% da população total alemã (81,75 milhões de pessoas) é imigrante ou descendente de imigrantes.  Mas em muitas cidades a sensação é de que esses números são bem mais altos. Turcos são a larga maioria. Oficialmente, 1,575 milhão no final de 2012. Mas é preciso levar em conta que as novas gerações – filhos e netos dos turcos que imigraram no pós-guerra para trabalhar na reconstrução do país - já são nascidas na Alemanha e, portanto, alemães. Poloneses aparecem em segundo na lista: 532 mil. São seguidos dos italianos (529 mil), gregos (298 mil), croatas (224 mil) e romenos (205 mil). Brasileiros são muito menos, mas ainda assim 34.945 estão registrados no país. Essa mistura cultural pode ser vista no rosto das pessoas, na lojas de todas as nacionalidades, nos bairros de imigrantes. Mas nem tudo são flores e, mesmo com um passaporte alemão na mão, estrangeiro será para sempre estrangeiro.



Joaninha – Elas são símbolos de boa sorte aqui na Alemanha. Mas se você morar perto de um parque ou tiver um jardim grande, podem bem ser um azar! No final da primavera e começo do verão elas surgem aos milhões e não raro você passeia por um jardim e escuta um barulho “crocante” sob os pés... das joaninhas que vai amassando involuntariamente pelo caminho.



Kirche ou Kirsche – Igreja ou cereja? Alemão é mesmo um idioma complicado. Complicadíssimo. Mark Twain já dizia que "A vida é muito curta para aprender alemão", mas aprender o idioma é a principal chave para a integração. Costumo brincar que a universidade pode ser em inglês, mas a vida real segue sendo em alemão mesmo. Fora isso – e de volta a cereja! – a frutinha toma conta dos mercados no verão e faz o inverno todo ter valido a pena.



Lixo – Separar o lixo é o verdadeiro esporte nacional da Alemanha. E é bom fazer isso direito antes que um vizinho carrancudo apareça na porta pra dizer que você separou isso ou aquilo errado. Existem toneis de coleta de lixo reciclado nas casas ou em algum local próximo. Sempre. Então, o negócio é memorizar a cor dos contêineres: azul é para papel; amarelo para embalagens pequenas e metais; marrom é para lixo orgânico e o preto para o que não se pode reciclar. Vidro é separado por cor: há um contêiner para o transparente, outro para o marrom e outro para o verde. Até hoje não sei o que fazer com garrafas azuis e, por via das dúvidas, deixo de decoração em casa.



Mau humor – Eu não diria que os alemães são necessariamente mau humorados. Prefiro dizer que tem um senso de humor peculiar, diferente do brasileiro. É uma questão de costume. Tem gente que acha que sinceridade é grosseria e por isso acha que todo mundo na Alemanha é mal educado. Eu acho a vida mais simples. Se você recebe um convite e não pode ir, diz que não e pronto. Não promete e depois falta. Essa sinceridade quase em excesso é parte da personalidade do país e ajuda a construir a má fama. Claro que tem momentos em que a paciência some, especialmente naquelas temporadas de chuva, quando para sair na rua é obrigatório vestir uma cara azeda. Mas ai vem o sol... ah, o sol. E o humor muda e a vida segue.



Nazismo – Esse é um tema proibido. Nunca, jamais faça qualquer piada sobre o assunto. Não fale sobre a guerra em uma festa. Os alemães carregam até hoje uma culpa e uma vergonha muito grande pelo Nacional Socialismo e o assunto sempre transforma os humores. A questão é tão tabu que beira a paranoia. Por aqui, ter uma bandeira da Alemanha é algo mal visto: só pode na Copa. Ter orgulho do país ou de ser alemão também são valores que remetem ao fascismo. Os neonazistas só contribuem para entornar ainda mais o caldo.



Ordnung – Esta é a palavra que melhor resume a Alemanha. Para tudo existe uma regra, uma norma, uma lei. Para cada coisa que se queira fazer há um uniforme específico e um manual. Para a vida funcionar é preciso seguir todas as regras. Isso mantém o Ordnung, a ordem, traz estabilidade e faz a vida de todo mundo mais fácil. Bom, esse é o pensamento alemão. Nesses anos de Alemanha acabei aprendendo que o Ordung é, na verdade, o antônimo do jeitinho: se no Brasil sempre se acha uma maneira de contornar a situação e levar vantagem dela, aqui a mesma regra vale para todos e não adianta espernear.



Pontualidade – Chegar atrasado é um crime. E deveria ser no mundo todo! Marcar com alguém e fazer a pessoa esperar é o mesmo que determinar que o seu tempo vale mais do que o tempo da outra pessoa. Tirando a empresa de trens, que já foi muito pontual em outros tempos, todas as coisas seguem o ponteiro à risca. Se for se atrasar mais do cinco minutos, é bom mandar uma mensagem ou ligar avisando. Isso vale para o trabalho, para o compromisso com os amigos, para a universidade. Um amigo disse uma vez que a precisão é tão importante para os alemães que deve ser por isso que eles dizem os números de forma invertida: primeiro a unidade e depois a dezena! Só pode!



Qualidade – Se o orgulho de ser alemão é algo negativo para as pessoas, a relação com os produtos é inversa. Regras de controle de qualidade rígidas e consumidores exigentes deixam poucas queixas em relação a qualquer coisa feita no país. Isso vale até mesmo para os supermercados mais baratos – os discounter, tipo Lidl, Netto, Aldi, Norma. Até os produtos de marca branca, vendidos com exclusividade por determinada rede, tem boa qualidade e podem ser comprados sem medo. São muito mais baratos e não decepcionam em geral. Se tiver dúvida, consulte as etiquetas dos testes de qualidade, que são exibidas com orgulho pelas marca. Gut ou Sehr Gut estampados no fundo branco com o nome dos institutos são a certeza de levar pra casa coisas boas e, na maioria das vezes, sem ter que pagar mais caro por isso.



Religião – Dizem que a antiga Alemanha comunista é o lugar mais sem Deus do mundo. Isso por conta dos índices elevados de ateísmo nos estados que antes formavam a DDR. Mas esse fenômeno, que se repete em menor escala na “outra” Alemanha, tem um componente econômico importante: o imposto descontado direto na folha de pagamento para quem professa uma religião. Os valores variam conforme a renda, em uma conta que não sei definir como é feita. Mas chegam perto dos 100 Euros por mês pra quem ganha entre mil e dois mil. Por isso muita gente que pede benção pra avó se declara ateia na Alemanha. Quem paga justifica que o valor é usado para a conservação das igrejas que são verdadeiros museus e que financia muitas ações de caridade e mesmo bolsas estudantis oferecidas pelas organizações religiosas. Quem declarou e se arrepende depois da chegada do primeiro contracheque precisa ir a prefeitura e fazer uma papelada enorme em que “renuncia a fé”.



Salsicha – Existem estimados mil e quinhentos tipos de salsichas na Alemanha e, claro, eu devo conhecer uns 40, chutando alto. Cada cidade tem sua especialidade, seu jeito de preparar, sua receita secreta. Basicamente é assim: tira a tripa de dentro do porco e coloca o porco moído e temperado dentro da tripa. Duas salsichas, no entanto, são facilmente encontradas no país todo. A Bratwurst da Turíngia, que tem entre 30 e 40 cm, uns 3cm de diâmetro e é servida assada em um pão minúsculo com mostarda. A outra é a Currywurst, o prato típico de Berlin. A tenda do Curry 36, que fica na capital, é considerada por muitos a melhor, mas é possível achar boas opções na Alemanha inteira. Lembra (bem de longe!) a salsicha de cachorro-quente do Brasil, assada na grelha, cortada em rodelas e servida com um catchup temperado e curry em pó no topo. A descrição pode não ser convidativa, mas uma visita ao país não está completa sem provar a iguaria.



Teimosia – A minha cidade, Blumenau, em Santa Catarina, foi fundada por alemães e ainda abriga muitos descendentes. Por lá a gente usa um ditado mais ou menos assim: “Alemão não é teimoso. Teimoso é quem tenta discutir com alemão”. Bom, de algum lugar isso saiu. Eu já cai na besteira de discutir ou tentar argumentar algumas vezes por aqui e, depois de alguns anos de sofrimento, fica a dica: nem comece.



Universidade – A Alemanha tem internacionalizado suas universidades cada vez mais. Depois do tratado de Bolonha, especialmente. Com o fim dos cursos superiores chamados de Diplom (mais extensos que um bacharelado no Brasil e já com a equivalência do título de mestrado), passaram a pipocar mestrados internacionais no país. Ou seja: cursos em inglês gratuitos em todas as áreas, embora os bacharelados sejam em alemão (com raríssimas exceções). O ensino superior na Alemnha é gratuito. São poucas as faculdades privadas e é possível escapar delas com boas opções públicas. O que se paga por aqui é uma taxa de matrícula semestral – entre 150 e 300 euros, conforme a cidade – que já inclui o ticket para o transporte local. Então, para quem planeja arriscar um voo solo no exterior para uma especialização, a Alemanha é o caminho mais fácil, já que não é preciso entrar na briga por bolsas de estudo.



Verão – Dias que amanhecem as 3h30 e anoitecem depois das 22h. O mês mais aguardado do ano, sem dúvidas. Sim, o mês: porque o verão por aqui não é exatamente uma estação inteira. Sair de casa com os braços de fora e nem pensar em levar um casaquinho (mesmo que leve) é raridade. E nesses dias de “raridade”, os 30 graus parecem ser 40. As casas, as cidades, os transportes: nada épreparado para o calor. Em alguns Estados, quando os termômetros passam dos 30 graus as aulas são canceladas. Mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Para quem trabalha, o jeito é driblar a massa quente com ventiladores e esperar. A única certeza é que o calor dura muito pouco.



Xenofobia – Esse é um assunto sério no país. A xenofobia existe sim e é um problema grave. E não é apenas contra um grupo étnico distinto: é contra todo mundo que não é alemão. Antes que eu seja execrada, quero dizer que sim, existe uma grande maioria de alemães que convive perfeitamente com um país internacionalizado. Mas se você é estrangeiro, mesmo que fale a língua e seja loiro e de olhos azuis vai enfrentar problemas (em maior ou menor escala) em algum momento. Isso vale para empregos, para amigos, para a simpatia no atendimento, para resolver os problemas. Mas vale muito na hora de alugar casa: como estrangeiro, mesmo tendo emprego, grana e afins, é sempre mais difícil conseguir um apartamento. Uma vez que os imóveis aqui não são de quem chega primeiro – ocorre sempre um tipo de entrevista e todo mundo vai arrumado ver casa – os alemães acabam sempre tendo a preferência.



Zelador – O zelador do prédio será o seu melhor amigo aqui na Alemanha. É quem arruma a torneira com vazamento, o chuveiro que tem cal (sim, porque a água é muito alcalina e vai entupindo tudo com o tempo). Se você morar em um condomínio estudantil, esses serviços costumam estar incluídos. Se não, leia com atenção o contrato. Tive um problema sério com isso. Apareceu uma mancha de mofo na minha parede na época em que vivia em Berlin em um apartamento térreo – e isso é uma coisa séria e que precisa ser resolvida o quanto antes – e a administradora do prédio disse que o zelador passaria lá para resolver. Eu disse que não precisava, que eu mesma faria. Já tinha aprendido com o zelador do prédio anterior que a única coisa que resolve esse problema é um spray anti mofo que vende nas lojas de material de construção, para uso profissional. Os do mercado não valem nada. Enfim: o homem foi lá, jogou o spray, esperou três minutos, secou com um pano e foi embora em menos de dez minutos. Veio a conta: 65 euros.



... – Essa é a primeira “amostra grátis” do Alemanha de A a Z. A ideia é continuar escrevendo sobre os mais diferentes aspectos do país. Por isso, se gostou, comente. Se não gostou, comente também. Sugestões de novos verbetes são sempre bem vindas. É só deixar um recado.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Coisas pra aprender com a Alemanha: Blumenau só não tem praia porque não quer


Eu sou de Blumenau (SC). Quem conhece a cidade sabe que o centro é cortado por um rio, o Itajaí-Açu. O mesmo que algumas vezes transborda e coloca a cidade nas manchetes do Brasil e do mundo, sofrendo com as enchentes. E quem conhece Blumenau também sabe que na cidade faz muito, muito calor: esta semana mesmo a sensação térmica chegou aos 49 graus. A soma das duas coisas apareceu hoje de forma criativa na timeline do meu Facebook: fotos em que o rio foi substituído pela praia, tornando real por instantes o desejo de todos os blumenauenses de nascimento e coração:  ter a areia pertinho e a água para refrescar em um dia quente.



Não sei quem fez a montagem. Se souberem, avisem para que possa dar o devido crédito das fotos (heis que o Tiago Salm escreveu em 13.06.2016 dizendo que ele é o autor das fotos! Crédito dado!!!). O fato é que essa montagem tornou inevitáveis algumas comparações. Embora viva atualmente em Berlin, morei por mais de três anos em Bremen, uma cidade de pouco mais de 500 mil habitantes que, em muitos aspectos se parece com Blumenau. E eu diria que o principal deles é o rio Weser que corta a paisagem bem no centro, trazendo certa semelhança à paisagem.  Mas iria além: diria que Blumenau tem muito a aprender com Bremen em vários aspectos e um deles é exatamente em como transformar seu desejo em realidade.

Bremen: a cidade é cortada pelo rio Weser

A grande diferença entre o rio Weser e o rio Itajaí-Açú é que o rio de Bremen é limpo e não recebe esgoto doméstico e industrial de milhares de habitantes. As águas não são cristalinas, mas isso pouco importa. Bremen fez do rio a sua praia e em vários pontos da margem – incluindo no centro da cidade, como desejam os blumenauenses – existem praias de areia onde, no verão, os alemães instalam suas cadeiras, armam o guarda-sol e aproveitam para nadar e brincar na água. A cidade tem ainda lagos que cumprem a mesma função:  tem espaços cercados para as crianças brincarem, áreas reservadas a nudistas e tudo o que se pode esperar do litoral. Menos vendedores ambulantes, que por aqui não existem mesmo.

Mas tem barraquinha de sorvete, banheiros públicos (limpos!), restaurantes na orla, salva-vidas, espaço pra quem quer fazer um churrasquinho (que por aqui é bem visto e não tem nada de farofagem). Tem ainda estacionamento para os carros, espaço para caminhadas e para as bicicletas: é um espaço democrático onde se pode ir de jeans, biquíni ou roupa nenhuma.  Bremen fica longe do mar, mas é uma cidade com praias. E não é a única na Alemanha. Em Munique, até se pode surfar. Em Berlin, as praias são movimentadas como essa e podem-se alugar casas para a temporada. E em nenhum desses lugares a água salgada se faz presente. 

Espia só alguns dos espaços de Bremen:



O que se pode aprender com isso? Que a montagem feita para anunciar um sonho impossível não é tão impossível assim: é provável que a praia não tenha ondas. É provável que os espaços tenham mais gramados do que areia. E a Ponta Aguda vai continuar a existir! :) Mas é possível que Blumenau tenha suas praias também e transforme os rios das mazelas em praça de lazer. Se eu acredito que isso possa acontecer? Não sei se vou viver tanto para ver, mas certamente vou ficar com a imagem na cabeça e certa de que isso será uma prova cabal do desenvolvimento sustentável da cidade e da recuperação ambiental de todo o rio, da fonte à foz.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Dia de São Nicolau na Alemanha: eu também quero um presente!

Dia especial: São Nicolau e Knecht Ruprecht visitam as crianças alemãs*

Eu me esqueci de pendurar uma meia ontem a noite e, por isso, acordei sem presente hoje. Essa é a tradição aqui na Alemanha. No dia 6 de dezembro, as crianças que deixaram suas meias ganham presentes de São Nicolau (Heiligen Nikolaus): brinquedinhos, doces e, em tempos mais antigos, tangerinas. É um dia bem bacana e esperado por aqui. Nas cidades menores, inclusive, é dia de pedir doces de casa em casa (o costume de fazer isso no Halloween já foi importado por aqui também, mas o São Nicolau é realmente alemão).

Mas os doces não saem de graça não! As crianças precisam mostrar algum dote artístico para os visitantes a fim de conquistar suas prendas. Em geral, ou cantam ou recitam um versinho. No primeiro ano que passei na Alemanha, trabalhei por uns meses em um estúdio fotográfico e, perto do fim do expediente, começaram a chegar os pequenos – de tocas de Papai Noel, tiaras com orelhas de rena e afins – fazendo suas breves apresentações em troca de balas. Até decorei um versinho:

‎"Ich bin ein armer Kater,
habe keinen Vater,
habe keine Mutter,
gib mir etwas Futter."


(Eu sou um pobre gato, não tenho pai,
não tenho mãe, me de algo para comer).

Andei pesquisando um pouco sobre essa data festiva e achei alguns relatos curiosos, embora nenhuma fonte “oficial” que eu possa citar aqui. Mas para registro, dizem que em tempos antigos, as crianças eram presenteadas com ovos, bacon, bebidas alcóolicas e frutas. Bom, os tempos mudaram. Na minha infância, em Blumenau, lembro bem que todo ano, em 6 de dezembro, passava um Papai Noel pela rua distribuindo balas e passávamos o dia de olho no portão pra não perder a chegada do visitante ilustre.

Por aqui, também acontecem visitas, mas nos jardins de infância: Kindergarten. Mas esqueça o Papai Noel modelo Coca-cola. Quem faz a peregrinação é o bispo Nikolaus, com uma túnica vermelha e uma mitra na cabeça, acompanhado de seu ajudante Knecht Ruprecht, um barbudo de túnica marrom e com um cajado feito de varetas. Tradicionalmente é ele que pergunta às crianças se elas sabem rezar. Se souberem, ganham algum presente do saco que carrega: tangerinas, amendoins, doces ou pão de mel (Lebkuchen). Se não souberem, ganham umas varetadas :).

Nunca vi o tal do Knecht Ruprecht, mas acho bacana ver a figura do São Nicolau em uma forma menos “industrializada”, por assim dizer. Vale dizer que, por aqui, essa é a única aparição importante do Papai Noel. Até mesmo na decoração natalina ele não tem muito destaque (ao menos não como no Brasil, onde é a figura principal da festa). O pinheiro, as luzinhas, bonecos de neve, quebra-nozes, renas e o Räuchermann são muito mais frequentes. Mas o centro da festa é mesmo a figura do Menino Jesus e as representações do presépio (Krippenfiguren). Aliás, por aqui, é o Menino Jesus (Christkind) quem dá os presentes de Natal.

Bom, de qualquer forma vou deixar umas balinhas preparadas e, caso alguém passe por aqui pedindo doces, eu conto a história aqui no blog :)!!!

* A foto que ilustra o post, é de Böhringer, publicada originalmente aqui, licenciada de acordo com as normas do Creative Commons

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pequenos detalhes que poderiam fazer Blumenau mais interessante para o turista


A saída de Blumenau foi corrida, assim como são todas as viagens... ainda mais aquelas em que se parte para vários anos. Mas enfim, aqui estou em Berlin (com n, como é o nome da cidade em alemão), como já falei no post anterior. Este, então, é o post derradeiro sobre Blumenau: fiquei devendo as impressões sobre visitar a cidade como turista. Recapitulando: Recebi uma amiga muito querida – a Rebecca – que mora em Hamburg e está fazendo um intercâmbio na USP. Saímos com a missão de conhecer a cidade. Empunhei a máquina fotográfica em plena Oktoberfest e parti. Ai vão algumas impressões, seguindo o nosso roteiro de visita.

No Museu da Família Colonial o atendimento foi muito simpático, mas a visita guiada pelo museu é uma decoreba bem chata. A explicação começa com algo do tipo: essa era a casa de fulana de tal, parente não sei das quantas do Dr. Blumenau. Ok, eu sei quem é o Dr. Blumenau (o fundador da cidade, pra quem não sabe): mas acredito que a maioria dos visitantes não faz a menor ideia de quem seja. Tem que falar isso: dizer quem era, como a cidade começou e por ai vai. Falta essa introdução. A segunda casa, recém agregada ao patrimônio, se parece muito com o que já foi visto na primeira. A terceira casa da visitação – com elementos da cultura local – é a pior: seria interessante que fossem montadas exposições temporárias um pouco mais criativas ou mesmo que o espaço fosse remodelado para abrigar o já tão discutido Museu dos Clubes de Caça e Tiro.

Várias coisas poderiam ser melhores neste museu: a entrada poderia até ser mais cara, mas o visitante deveria receber um impresso bonito sobre o museu e sobre a história da cidade, com sugestões para continuar a visita. Além disso, acho que o Vapor Blumenau deveria ser colocado no lugar onde foi a casa do Dr. Blumenau, completando o espaço. Também seria muito bacana se a cidade fizesse uma parceria com os museus da imigração de Hamburg e Bremerhaven (já dei essa sugestão pra um monte de político, mas parece que as agendas de visita à Alemanha são sempre muito ocupadas!) e agregasse ao Museu da Família Colonial as bases de dados sobre a imigração alemã. Seria bem bacana visitar o espaço e poder pesquisar sobre a história de sua própria família: um chamariz para os próprios blumenauenses.

O fim da visita é no Cemitério dos Gatos: fofo, mas confesso que fiquei com medo de ser assaltada lá no meio do mato, onde não há qualquer tipo de vigilância ou proteção. Deveria ser cercado. De lá, por “acidente”, saímos nos fundos da Fundação Cultural de Blumenau: não havia qualquer placa indicando isso e nem sugerindo as exposições do local. Encontramos uma porta aberta com a Rede Feminina de Combate ao Câncer mostrando seu trabalho: ponto para as mulheres de rosa.

Cemitério dos gatos: Bonitinho, mas a sensação é de insegurança

Do outro lado da rua visitamos o (decepcionante) museu da Cerveja. Sou completamente a favor da cobrança de ingressos que contribua com a profissionalização do espaço. Neste caso, tecnologia daria conta: separar as áreas com divisórias, oferecer um guia em áudio e terminar a visita em uma lojinha com as cervejas locais, camisetas, bonés, porta-copos e todas as tralhas que turista ama e não acha em lugar algum. Há um mini auditório por lá, com uma televisão mostrando qualquer coisa que ninguém tem paciência pra ver: por que não montar a loja nesse lugar? E, durante as festas, para quem paga uns reais a mais, por que não uma degustação de algumas bebidas locais? Eu pagaria feliz e sairia recomendando aos amigos. Do jeito que está agora, não tem qualquer razão de ser.

Museu da Cerveja: Falta profissionalizar a visita, oferecer degustação e vender produtos locais

O Mausoléu Dr. Blumenau nem merece a visita. É um espaço morto. Entramos e saímos sem nem merecer o olhar do responsável, entretido com um jogo de futebol em uma tevê sob a mesa. Quem são as pessoas que estão lá? Quando o espaço foi construído? Mais uma fez faltou um folheto bacana contando tudo isso. Além do mais, por que não aproveitar o espaço para uma exposição de fotos antigas/atuais de Blumenau? Ou como existem em várias prefeituras da Alemanha, que tal algumas maquetes bem bacanas da cidade em diferentes épocas? Aposto que o curso de Arquitetura da Furb seria parceiro em uma empreitada dessas.


Mausoléu Dr. Blumenau: maquetes, como as que as prefeituras alemãs possuem, seriam uma forma interessante de atrair mais público ao espaço

Seguindo pela rua XV, pouca informação está disponível. E ai, vale mais uma vez copiar a Alemanha – esta proposta cheguei a mandar por escrito para um montão de gente... e nada, mais uma vez. Poderia ser como Hannover: por lá, foi pintada uma linha vermelha no chão (literalmente), com números em cada ponto de interesse. Nos centros de informação turística vende-se um livreto, em várias línguas, com a mesma numeração da rua, explicando o que é cada coisa. É tão simples que parece bobo: mas funciona perfeitamente bem e funcionaria também para Blumenau. Com isso, todas as fachadas de casas históricas que estão cuidadosamente espelhadas no leito da Rua XV seriam notadas.

Linha vermelha: Em Hannover, uma linha guia os visitantes, que acompanham o trajeto com um livreto

Nesse passeio turístico, fui contando o que sabia e no fim foi bem divertido. Mas se fossemos realmente duas turistas, o pouco que levaríamos da cidade seriam fotos de suas fachadas e a farra etílica pelo centro. Nada mais. Blumenau é um destino turístico interessante, mas completamente despreparado para se exibir aos seus visitantes. Uma pena. Com investimentos pequenos – que dependem mais da boa vontade do que de dinheiro – poderia se tornar mais acolhedora e mais Rebeccas sairiam bem impressionadas e felizes depois de percorrer os poucos metros tão cheios de história (negligenciada)...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Tchüss Blumenau, Bye-bye Brasil!

No último final de semana da Oktoberfest eu me senti mais turista do que nunca. Recebi uma amiga da Alemanha por três dias e, com isso, fui experimentar a cidade com os olhos de turista. Isso valendo para tudo: desde os museus às fotos das casinhas na rua XV. Essa experiência merece um post completo e detalhado sobre cada ponto que visitamos, mas vou deixar essas linhas para assim que estiver novamente instalada na Alemanha. Parto em poucos dias e fim de semana já terei trocado o calor cada vez mais forte de Blumenau pelos dias curtos e gelados de Berlin.

Vai ser uma mudança e tanto: acredito que voltar a Alemanha depois de quase dois meses no Brasil deve provocar um novo encantamento, um novo choque, novos pontos de vista. Além disso, mudo de cidade: deixo a simpática Bremen para trás e começo vida nova na fervilhante Berlin, onde tudo começa do zero mais uma vez. Reconhecer a vizinhança, descobrir o melhor Dönner Kebab da cidade e mesmo refazer a rotina. Mas isso me deixa feliz. O maridónnn já me espera por lá e isso torna tudo mais fácil e agradável. É hora de matar as saudades dele, dos amigos, da Alemanha em si... mas de começar a acostumar o coração com as saudades do que fica, mais uma vez, por aqui: a família, os amigos de muitos anos, as ruas de Blumenau, as praias de Floripa, onde me dividi nessas semanas intensas. Vou feliz e triste, mas de certa forma acostumada e sabendo que nunca mais vou ter tudo o que amo em um mesmo lugar.

Mas não queria me despedir de Blumenau sem ao menos um registro, uma homenagem e uma prova do meu amor por essa que, definitivamente, deve ser a cidade mais alemã do mundo ;). Então, nessa minha experiência de turista na própria terra natal, fui ver muitos dos desfiles da Oktoberfest, mas o último, com direito a almofadinha pra sentar na calçada, pipoca e chope distribuído durante o cortejo. Coloco aqui algumas fotos tiradas da beira da rua – não do ângulo das câmeras profissionais dos meus talentosos colegas do Santa e de outros fotógrafos – , mas com os olhos de turista e visitante dessa festa linda e feliz. Só coloco algumas aqui no post: planejo fazer um álbum com as demais, mas é uma forma de dizer: Obrigada, Blumenau, por dias tão alegres!!!





de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel