de volta à nave mãe: home
Home Home by Ivana Ebel Facebook Twitter E-Mail

menu

Estudar fora Sobre a Alemanha Viagens & turismo
Nonsense Receitas Jornalismo
Mostrando postagens com marcador Muro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Muro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

9 de Novembro: a queda do Muro de Berlin e uma Alemanha ainda dividida


Queda do Muro: alemães tomam conta da "terra de ninguém"*

Há exatos 23 anos, em 9 de novembro de 1989, caia o muro de Berlin e a Alemanha voltava a ser um só país. Ao menos nas fronteiras e nos papéis. O muro, construído em 1961, separava a Berlin ocidental – uma ilha capitalista no coração da Alemanha comunista (a Deutsche Demokratische Republik, ou simplesmente DDR). Já escrevi sobre a história do muro aqui. Vale dizer que, na época, o que ocorreu não foi uma fusão de dois países e sim a incorporação dos ex-estados comunistas à Alemanha economicamente forte.

O 9 de novembro não é exatamente comemorado pelos alemães e, na maioria das cidades, passa em branco. A celebração da união dos dois países é em 3 de outubro, data da unificação oficial da Alemanha. A queda do muro foi a primeira abertura de fronteiras, permitindo que Ossies (da DDR) e Wessies (da Alemanha capitalista -  BRD, a Bundesrepublik Deutschland) pudessem circular sem mais restrições. Isso porque, o 9 de novembro tem uma mácula: a noite de 9 para 10 de novembro de 1938, ainda antes do início da Segunda Guerra Mundial, ficou conhecida como a “Noite dos Cristais”.

Foi nesta madrugada que a perseguição contra os judeus – que culminaria com o holocausto promovido pelos nazistas – ganhou corpo nas ruas. Sinagogas em todo o país foram incendiadas e estabelecimentos comerciais de judeus foram saqueados. Mais de 100 pessoas morreram nesta noite em que os destinos do país mudaram completamente.

Coincidência ou não, outro 9 de novembro marcou o calendário germânico: desta vez, em 1918, quando caia Wilhem II, o último imperador alemão, rei da Prússia. O período que se seguiu – a chamada República de Weimar – marcou os poucos anos de paz experimentados pelo país entre as duas grandes guerras (Hitler começou a demonstrar sua força já em 1923 e a democracia foi perdendo espaço para um regime totalitarista, consolidado 10 anos depois).

Viradas as páginas cheias de marcas de sangue, a Alemanha é hoje o país mais poderoso da Europa e acolhe, com seu jeito meio carrancudo, milhares de estrangeiros, como eu, que por motivos diversos acabam por chamar a “Vaterland” de casa. No entanto, uma olhada para dentro das fronteiras dessa força europeia não revela exatamente uma unidade.

A diversidade cultural é grande. Norte e Sul são completamente diferentes. Um gosta de Grünkohl, o outro não vive sem Sauerkraut. Mas a diferença é ainda maior entre Leste e Oeste. Embora o fim das fronteiras tenha assegurado a todos o direito de ir e vir, não se pode generalizar gostos ou comportamentos. O Oeste é mais caro, mais desenvolvido. No Leste, os sorrisos brotam mais facilmente.

Tive a oportunidade de viver nos dois lados e ainda em Berlin, onde as diferenças estão até hoje nas fachadas e é fácil saber em qual das duas Berlin se está apenas de olhar em volta. Em Weimar, coração verde do país – e onde o muro parece ter caído muito tempo depois – as marcas da DDR ainda são mais fortes: nos conjuntos habitacionais de paredes muito finas, nas roupas que as senhoras ainda usam para trabalhar em casa, nos produtos de marcas muito específicas no supermercado, nas sinaleiras com o Ampelmännchen mas, especialmente no discurso de quem tem saudades do tempo em que se podia comer em um restaurante por apenas um Marco.

* Foto de Sue Ream, originalmente publicada aqui, licenciada pelas normas do Creative Commons

segunda-feira, 26 de março de 2012

Berlin temática: Nazismo, holocausto e a 2ª Guerra Mundial marcam roteiro pela cidade


Nazismo e holocausto ainda são – e sempre vão ser – um tema espinhoso para a Alemanha e para qualquer alemão. Não é um tema sobre o qual se possa fazer piada: e isso os brasileiros precisam aprender de uma vez por todas. É um daqueles assuntos proibidos em festas, conversas ou qualquer situação, a não ser com quem se tenha muita, muita intimidade mesmo.  E para Berlin, essa regra vale ainda com mais ênfase. Por aqui, as lembranças dos anos em que o terceiro Reich comandou a Alemanha são ainda mais evidentes: seja na arquitetura característica dos anos de Nacional Socialismo ainda presente pelas ruas importantes da cidade, seja pelos memoriais e museus que fazem parte do roteiro obrigatório de quem visita a capital alemã.

Esse post é para falar dessas atrações mas também para fazer um desabafo. Um xingamento, quase. É para todos os “alemães” do Vale do Itajaí (e de outros rincões colonizados no Brasil e no mundo) saberem o quão sem tamanho é o ridículo de achar que ser alemão é ser nazista. E pior: de achar que isso é uma coisa bacana. Quero escrever aqui com todas as letras: quem pensa assim é ignorante, otário, mal informado e sobretudo babaca, muito babaca. Mais ainda quem sai aos quatro ventos propagando um revisionismo que nega o holocausto: esses deveriam ser presos.  O que aconteceu na Alemanha durante a Segunda Guerra mundial foi muito sério e muito grave e as marcas estão em cada um que aqui vive e logo são percebidas por quem adota o país como lar.

Eu só não entendo por que, entre tantas parcerias e “missões” que os nobres políticos catarinenses fazem aqui na Alemanha, nenhuma delas tratou de recursos para um projeto educacional  que levasse informação clara e detalhada sobre os regimes totalitaristas para dentro da sala de aula: eu posso apostar que não faltariam instituições interessadas em apoiar a ideia.

Bom, opiniões à parte, que esse post seja mais do que um guia de turismo: que possa servir para levar informações e inspiração para quem planeja visitar Berlin. Então, sem mais delongas, vamos à lista temática do que há para ver na cidade. Existem outros locais, museus e afins. Essa é uma lista de sugestões entre o que há de mais significativo.

Memorial dos Judeus Mortos na Europa – Vir para Berlin e não visitar o memorial é como ir para Roma e não ver o papa. Os 2711 blocos de pedra, inaugurados em 2004, já configuram uma das mais tradicionais imagens de Berlin. Ficam bem próximos do Brandenburg Tor e podem ser visitados a qualquer hora. O centro de informação, porém, tem horários específicos conforme a época do ano. Trata-se de uma espécie de museu e que a trajetória da perseguição aos judeus é contada em murais e fotos. Depoimentos, fragmentos de cartas e postais e vídeos complementam o espaço, em uma tocante narrativa sobre o terror do holocausto. No fim da visita, é possível consultar a base de dados do memorial em busca de nomes de judeus mortos durante o período da guerra.

Lápides: Memorial aos Judeus relembra os mortos durante a 2ª Guerra Mundial

Cartões e cartas: histórias de despedidas e desespero estão narradas em fragmentos reais

Crueldade: fotos mostram os horrores do período da guerra

Memorial aos Homossexuais – Em frente ao Memorial dos Judeus Mortos na Europa, já dentro do Tiergarten, há mais uma lápide, similar às que formam o complexo que relembra o massacre. Desta vez, trata-se de uma homenagem aos homossexuais, também perseguidos pelo regime nacional socialista. Em uma das pontas da lápide há uma pequena janela de vidro, pela qual fica à mostra um monitor que exibe beijos de casais gays.

Memória: dentro da estrutura, vídeo mostra beijos de casais gays

Topografia do Terror – Trata-se de um centro de documentação que, em sua área externa, mostra os restos das paredes e os fundamentos do que já foi o quartel-general da SS e da Gestapo, as forças policiais do regime nazista. Um pedaço do muro de Berlin ainda está no local. O espaço tem bastante foco nas ações repressoras coordenadas por Heinrich Himmler, um dos principais personagens da perseguição aos judeus e outras minorias. A história contada no espaço complementa a do Memorial dos Judeus Mortos na Europa: o centro de documentação mostra as engrenagens da máquina de matar construída pelos Nazistas e como ela operava.

Documentação: porões do espaço que já foi sede da SS serve hoje como memorial

Marcante: um trecho do muro foi preservado e pode ser visitado

Bunker de Hitler – Esse não é um ponto turístico e nem poderia ser diferente. Não há espaço na Alemanha para qualquer lugar que possa se tornar ponto de culto para neo-nazis de plantão. O lugar onde ficava a casamata onde Hitler, sua família e outros oficiais do nazismo tiveram seu fim foi inundado, aterrado e hoje abriga um estacionamento. Fica ao lado do Memorial dos Judeus Mortos na Europa (na Gertrud-Kolmar-Str) e apenas uma placa – colocada pelos moradores vizinhos – conta a história do local e mostra a planta dos subterrâneos da fortaleza.

Estacionamento: não há referência ao bunker em guias de turismo sobre Berlin

Campo de Concentração de Sachsenhausen – Esta é, provavelmente, a visita mais triste que se pode fazer em Berlin. O campo de concentração, que fica nos arredores da cidade (cerca de 35 minutos de trem), foi o primeiro a ser construído e passou a funcionar já em 1936, primeiro como prisão e, depois, como local de matança. Cerca de 200 mil pessoas passara por lá. Os galpões onde os judeus eram alojados de maneira sub-humana, os barracões de enfermaria – onde eram conduzidas experiências com os prisioneiros, a área de fuzilamento e os fornos, onde eram queimados os milhares de corpos, ainda estão no local. A dimensão do espaço é superlativa e o horror é ainda maior quando se imagina que Sachsenhausen foi um dos menores campos. Com o fim da guerra, o campo de Sachsenhausen foi tomado pelos russos e transformado em uma prisão militar. A visita leva ao menos três horas (a partir da chegada no campo) e por isso é bom conferir os horários de funcionamento antes de fazer o deslocamento. 

Portões abertos: visitantes ainda encontram o lema "O trabalho liberta"


 Fornos: estruturas eram usadas para cremar os corpos dos judeus mortos a tiros ou gás

Galpões: eram dezenas de galpões imensos, repletos de beliches

Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche  - A igreja, que fica no início da luxuosa avenida Kurfürstendamm é um dos cartões postais da cidade e marco presente da destruição provocada na Segunda Guerra Mundial. Junto a estrutura severamente danificada, foi construída uma nova igreja e um memorial, embora a torre semidestruída tenha sido mantida. Atualmente, a torre passa por uma reforma e está envolta em tapumes: mas ela não será reconstruída. Apenas restaurada para que permaneça da forma como ficou após os bombardeios sofridos em 1943.

Em reforma: tapumes brancos cobrem a torre atingida por bombardeios 

Museu dos Judeus – Aberto em 2001, o museu conta a história de 2000 anos de presença judaica em Berlin. A história é contada de forma a revelar o porquê as perseguições começaram e mostra ainda como viviam essas pessoas antes da guerra. O museu está na lista dos melhores da cidade.

Centro Anne Frank – Embora Anne Frank nunca tenha colocado os pés na cidade, uma exposição contando sua história foi montada em 1994 para marcar os 50 anos da liberação dos prisioneiros do Nacional Socialismo. O material produzido acabou se transformando em uma exibição permanente.

Casa da Conferência de Wannsee – Um importante capítulo na história da Segunda Guerra Mundial foi escrito em  20 de janeiro de 1942, quando os mais graduados oficiais nazistas se reuniram em uma casa no bairro balneário de Wannsee, em Berlin, para dar encaminhamento ao que ficou conhecido como “a solução final” para os judeus. Neste encontro, a Conferência de Wannsee, não houve discussão sob se as vidas seriam preservadas ou como os prisioneiros seriam tratados: essa já era uma decisão tomada e o foco do encontro era em como exterminar aqueles que os nazistas consideravam uma sub-raça (Untermensch). A casa onde foi feita esta reunião foi transformada em um memorial e pode ser visitada gratuitamente.

Mansão: casa onde foi realizada a Conferência de Wannsee virou um memorial*


Arquitetura nazista – Passear por Berlin é, cruzar, em suas esquinas, com prédios que remontam ao III Reich, construídos em um estilo particular: inspirados no classicismo Romano, porém com linhas sóbrias e retas, muitas vezes chamado de “Severe deco”. Uma vez percebida a identidade das fachadas, fica fácil reconhecer as estruturas e duas das mais representativas construções são, sem dúvida, o prédio do Ministério Federal das Finanças (durante o III Reich, era o Reichsluftfahrtministerium - Ministério da Aeronáutica) e o Estádio Olímpico de Berlin. Em outros, as fachadas ainda trazem suásticas dissimuladas em arabescos decorativos ou, por vezes, a águia que carregava o símbolo nazista não foi apagada, como na fachada do ministério das finanças do bairro de Charlottenburg.

Ministério das finanças: arquitetura sóbria remonta ao regime fascista alemão

Charlottenburg: a águia nazista não foi apagada da fachada do ministério das finanças

Estádio Olímpico: linhas retas e concreto marcam o estilo da obra inaugurada em 1936

* Foto de Clemensfranz, publicada originalmente aqui, licenciada conforme o Creative Commons

sexta-feira, 16 de março de 2012

Pepinos Spreewald e a ostalgie: produtos que são a marca registrada da DDR


Existe um termo curioso que aprendi quando cheguei aqui na Alemanha, mas que em 3 anos e meio ainda não tinha feito muito sentido pra mim: Ostalgie, que é um neologismo que mistura nostalgia e “Ost”, de Ostdeutschland, a antiga Alemanha comunista. O termo se refere a costumes, modo de viver, mas também a produtos que as pessoas consumiam naquela época em que o pais eram dois. E mesmo passados 21 anos da reunificação (3 de outubro de 1990), há quem ainda prefira ter nos armários de casa os produtos que eram vendidos nos mercados controlados pelo governo nos tempos de comunismo. Existem lojas especializadas só em produtos da época.

Ostalgie: brinquedos, utensílios e outros ítens de um mercado da DDR

No ano passado eu participei de um sorteio no Blog da Mel (que eu recomendo demais!!) e ganhei um kit muito bacana de produtos da antiga DDR que acompanhava o livro “ParaísoSem Bananas”, da  historiadora e escritora Neusa Arnold-Cortez (tá tudo contadinho nesse post aqui). Agora, morando em Berlin, essa coisa toda das duas Alemanhas é muito mais presente e mesmo nos supermercados se nota a diferença: as prateleiras têm muitas coisas que nunca via em Bremen. Recentemente, quando estive em Leipzig, percebi ainda mais itens dessa lista. Mostardas Bautzner de todos os sabores, o mesmo com o Russisch Brott, um doce bemmmm doce que fica no meio termo entre biscoito e suspiro, vendido em forma de letrinhas.

Damenkittel: modelito das donas de casa da Alemanha comunista*

Em uma loja popular da Alemanha (a Woolworth, mas pode chamar de Wooly) vi até mesmo uns vestidos coloridos e de um material duvidável  que custei a entender: em uma visita ao Museu da DDR descobri que eram, na verdade, uma espécie de guarda-pó, peça central do vestuário feminino para o trabalho doméstico oferecidos pelas lojas estatais chamado Damenkittel.  Fiquei com vontade de comprar um só pelo valor histórico da peça, mas com essa vida de mambembe, não sei se vale ficar arrastando mais um pedaço de pano mundo a fora.

Spreewald: para quem viveu na DDR, gostinho de saudade

Mas tem outro item que se enquadra na ostalgie que eu acabei comprando. Na verdade, esse post era só pra falar disso e acabei esticando a conversa, como sempre. :) Trata-se do pepino em conserva Spreewald, que levam o nome da região onde são produzidos. Eles ficaram famosos com o sucesso do filme Adeus Lenin (Goodbye Lenin!, de 2003).  Em uma cena bem clássica (no vídeo abaixo, a partir de 42 segundos),  o personagem Alexander'Alex' Kerner  (interpretado por DanielBrühl), vai ao supermercado em busca do tal pepino, o favorito de sua mãe doente. Sem encontrar, acaba buscando alternativas para repor a iguaria e não permitir que sua mãe perceba que o muro caiu.



Bom, já formam spoilers o bastante pra um post só. Quem não viu o filme, precisa resolver isso o quanto antes. Pra quem já viu, vale dizer que a mãe da história, ChristianeKerner (interpretada por Katrin Saß) tinha razão em ser fã dos pepinos: suaves e ao mesmo tempo levemente picantes, entraram na lista dos meus favoritos. Por hora, tem sabor de Alemanha. Mas creio que um dia, quando estiver de volta ao Brasil, também vão ter para mim um gostinho de saudade.

*A foto foi tirada de um anuncio no e-bay, que você encontra nesse link.
de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel