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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Doutorado na Alemanha: passo-a-passo para conseguir uma vaga, um orientador e uma bolsa de estudos

Bremen: clima ruim, mas uma boa universidade em uma cidade charmosa

Fazer doutorado na Alemanha pode ser uma grande vantagem, uma vez que o ensino por aqui é gratuito, salvo as poucas universidades privadas do país ou alguns cursos muito específicos. O dinheiro do financiamento que se recebe serve para pagar as despesas de moradia e subsistência. Além disso, para os padrões europeus, a Alemanha (exceto do Sul!) é um país bem barato. Esse post detalha os passos para quem pensa em fazer doutorado por aqui. Por isso, antes de enviar qualquer pergunta, leia atentamente.

É preciso dizer que para os brasileiros ficou ainda mais fácil chegar ao doutorado com as bolsas do programa Ciência sem Fronteiras (CsF). Antes, a seleção toda dependia de um convênio entre Capes/Cnpq/Daad, com chamadas anuais e que, em média, concediam cerca de 60 bolsas de doutorado pleno. Essas bolsas ainda existem e contemplam também áreas que estão fora do CsF.

É possível participar dos dois processos seletivos ao mesmo tempo. Uma coisa é independente da outra. Se a sua área não for diretamente engenharias ou computação, fique atento a uma área do CsF que se chama Indústria Criativa: uma série de projetos de moda, design, comunicação e outras áreas distantes da engenharia encontram abrigo ai e, com isso, podem se encaixar no escopo do programa.

Quanto a língua, é preciso ter proficiência pelo menos em inglês. Obviamente não dá para chegar no país sem se comunicar com o professor e sem ter uma língua de trabalho. As universidades aceitam Toefl ou Ielts, além de outros exames de proficiência. As duas bolsas (Capes/Cnpq/Daad e CsF oferecem curso de alemão por um período de um a seis meses antes do início da bolsa, conforme a necessidade do aluno). Para estudar em alemão, exceto na área de Direito, onde a exigência de língua é maior, é preciso ter o TestDaf ou o DSH2 equivalentes ao avançado (C1). No período do curso de alemão recebe-se moradia (indicada pela escola de alemão), curso e uma ajuda de custo financiada pelo Daad. A bolsa de doutorado propriamente dita inicia depois do curso de alemão.

Os tipos de doutorado

Em primeiro lugar é preciso ainda decidir o que se quer fazer aqui: um doutorado integral (de três a quatro anos) ou sanduíche, que é um ano fora quando já se está matriculado no doutorado em alguma universidade brasileira. Se o doutorado for integral, existem quatro possibilidades. O site do Daad também tem dicas importantes.

Programa de doutorado: são raros na Alemanha. São cursos de doutorado como no Brasil, com cadeiras estruturadas, para os quais deve se fazer a inscrição no processo seletivo diretamente na universidade, observando as exigências, datas e prazos de cada uma. Mas note bem: nunca conheci ninguém que fizesse doutorado assim aqui.

Posição de pesquisador: Para essa você não precisa ter uma bolsa. Trata-se de um contrato de trabalho como assistente de pesquisa em uma universidade, geralmente em algum projeto pré-existente. Nesse período de trabalho, o doutorando desenvolve sua pesquisa em paralelo, geralmente relacionada ao projeto em que trabalha. Muitas universidades europeias oferecem posições assim e é fácil encontrar vagas nesse site, nesse e nesse outro ainda.

Doutorado em empresa: Um professor doutor vinculado a alguma universidade orienta o estudante durante uma pesquisa feita diretamente na indústria, com objetivos práticos relacionados a empresa que remunera o doutorando.

Pesquisador livre (Promotion): É a modalidade mais comum de doutorado por aqui. É um acordo entre o professor e o aluno e as regras são estabelecidas nessa relação. São as vagas mais fáceis de se conseguir e as que funcionam melhor junto com o financiamento das bolsas brasileiras. Segue uma explicação mais detalhada de como funciona o acordo.

Como encontrar uma universidade e um orientador

Escrevo como foi a minha abordagem, mas podem existir outras maneiras: a parceria entre universidades, um professor como contato, etc. Bem, fiz sozinha um projeto inicial do que me interessava trabalhar no doutorado e procurei, na Alemanha toda, professores que pesquisassem o tema. A grande maioria tem o curriculo on-line. Observe sempre que para doutorado tem que ser uma Universität (e não uma Hoschule ou Fachhoschulle, que são técnicas!) e obviamente o professor tem que ser doutor (há professores que não são por aqui).

Depois dessa busca, selecionei doze professores que poderiam me orientar e enviei a eles um email me apresentando, falando da minha ideia de pesquisa (dois parágrafos, não mais! Para ter certeza de que leriam!) e dizendo que não estava procurando bolsa, já que poderia contar com financiamento de bolsa do Brasil. Dos 12, um disse que tava se aposentando, outro sugeriu um colega mais na área e DEZ disseram que aceitariam me orientar e pediram para mandar mais detalhes de projeto, curriculo, minhas notas, etc.

Na sequência, dei uma melhor selecionada pela universidade, pela região que queria morar e então agradeci os demais e escolhi um. Esse professor te da uma carta de aceite: nela ele diz que, caso você consiga a bolsa, ele aceita ser o teu orientador. Isso basta para se inscrever nos editais. Ai é torcer para que o projeto esteja bem feito e que seja aprovado pelo comitê de seleção das bolsas no Brasil.

Já com a bolsa, a matrícula na universidade

O segundo passo é dentro da universidade alemã: o professor vai sugerir ajustes no projeto (ou não!) e vai encaminhar ao PhD comitê da universidade. Esse comitê se reúne três ou quatro vezes ao ano, não mais. Esse comitê avalia o projeto e diz se o aluno pode ou não se matricular, se terá ou não que cursar disciplinas como formação complementar.

Caso seja negado, nada de desespero: é preciso refazer ou ajustar o projeto para a próxima reunião. Isso não é um problema para a bolsa: uma carta do seu professor dizendo que você já está trabalhando é o bastante para que os pagamentos sejam efetuados. Depois da aprovação do comitê, você é autorizado a se matricular como PhD Candidate na universidade (algumas faculdades têm uma modalidade especial de matrícula que é de Perspective PhD Candidate: isso permite a matrícula de quem ainda está fazendo os ajustes no projeto, por exemplo, mas garante benefícios de estudante e visto enquanto ainda está aguardando a aprovação do comitê).

A forma como se vai trabalhar - se o aluno vai ter uma sala na universidade, se vai usar a biblioteca, se vai trabalhar de casa - é definida entre aluno e professor, bem como a periodicidade dos encontros. As regras podem variar um pouco em cada universidade, assim como a lista de documentos exigidos para a matrícula, prazos e afins. Mas em um resumo bem geral é assim que funciona o processo.

Outras bolsas de estudo para brasileiros

Mas as bolsas para doutorado não se resumem a Capes/Cnpq/Daad e CsF. Brasileiros podem se candidatar a uma série de outros financiamentos oferecidos por instituições alemãs e internacionais. Mas ai, nada como usar o bom e velho Google, né! :)



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Turismo seguro: oito dicas simples que descomplicam qualquer viagem pelo mundo

Alvo fácil: bolsa aberta, para trás, em um transporte público lotado

Viajar o mundo tem suas técnicas e muitas delas aprendi a duras penas: errando! Já carreguei malas enormes e cheias de coisas inúteis pensando em “talvez eu queira usar isso ou precise daquilo”. Mas com o tempo e a experiência de ter percorrido mais países do que os dedos permitem contar, algumas coisas muito simples se tornaram regras. Pode até parecer óbvio, mas observar essas regrinhas pode fazer toda a diferença. Por que um calo no pé, uma câmera roubada ou uma indigestão podem transformar qualquer viagem de sonho em pesadelo.

Calçado: O melhor calçado para viajar é um tênis (velho) confortável. Havaianas podem ir na mala para os dias desesperadoramente quentes, mas ainda assim é preciso avaliar. Os destinos europeus geralmente são “limpos”, mas há cidades em que ratos, cães, gatos e toda a sorte de animais vive pelas ruas. Assim, calçados abertos facilitam o contato com excrementos e podem ser uma porta aberta para doenças. Sapatilhas e botas baixas podem ser úteis, mas mesmo um corpo jovem e em forma pode sentir o impacto na coluna e nas articulações depois de dez ou doze horas de caminhada. Quem inventou solados com sistemas de absorção de impacto não sabia o bem que estava fazendo para quem tem a síndrome do pé na estrada.

Água da torneira: Pergunte aos locais sobre a água. Se as pessoas da cidade bebem água da torneira, você pode arriscar também. Mas desconfie de qualquer sinal de hesitação na resposta e prefira água mineral. O problema não está geralmente no tratamento da água, mas nas condições dos canos que fazem a sua distribuição e na (falta de) higiene das caixas de armazenamento. Em Roma, por exemplo, existem fontes de água potável pela cidade inteira. Todo mundo bebe e se refresca nelas sem medo. Então, vá sem medo. Mas pense que, na dúvida, é melhor gastar uns trocados a mais com água e uns a menos com remédios para diarreia.

Remédios: Aliás, leve sempre uma farmacinha junto. Nem sempre é fácil explicar para o vendedor da farmácia que não fala uma palavra de inglês o que se está procurando. Já tentou pedir gaze em grego? Só consegui na terceira tentativa. Na farmacinha é bom ter spray antisséptico, curativos (para os calos!), remédio pra dor de cabeça, um digestivo e um para diarreia. Eu levo sempre omeprazol também, por que a comida mais apimentada de alguns países pode afetar estômagos mais sensíveis. Claro que para as emergências é preciso acionar o seguro de viagem, mas coisinhas simples podem ser resolvidas rapidamente com um pouco de planejamento.

Bolsa: A melhor bolsa para fazer turismo é o modelo carteiro com zíper.  Aquelas com uma alça que atravessa o tronco. Regule a alça um pouco mais curta, de forma que a bolsa fique na altura do ventre, use SEMPRE para frente e aproveite as férias. Isso vale para homens e mulheres. Assim, dá para ficar com as mãos livres – o que garante fotos melhores! – e evitar furtos. De um modo geral, a Europa é segura, mas batedores de carteira estão em todos os lugares onde há aglomeração turística. E nunca, nunca deixe a bolsa aberta nem por um minuto. Mochilas nas costas também podem ser perigosas. Existem vários golpes em que uma pessoa distrai você e a outra rouba objetos da mochila. 

Taxi: Os principais destinos turísticos costumam oferecer uma infraestrutura de transporte eficiente. Usar trens, metrô, ônibus pode ser tão interessante quanto visitar um ponto turístico. É uma forma de ver e entender como as pessoas vivem, é a chance de ter contato com a vida real do lugar. E mais que isso: é uma forma muito eficiente de evitar ser enganado. Porque podem até existir taxistas bacanas no mundo, mas a má fama da categoria tem lá suas razões. Com minha eterna cara de turista (mesmo no Brasil!), sou o alvo preferencial. Evito sempre os taxis, mas quando tenho que usar, fico de olho. Primeiro, sempre vejo o mapa da cidade em casa. Depois, costumo traçar o caminho no Google maps para ter ideia de direção e distância. Depois, pergunto o preço – ou quanto daria, mais ou menos, de A a B. Alguns Apps permitem simular o preço de uma corrida também e dá para perceber se o valor pedido está dentro do esperado. Em alguns casos, vale negociar uma tarifa fechada.  Por fim, quando tenho internet 3G, deixo o taxista ver que estou acompanhando o percurso pelo GPS do celular. Pode parecer paranoia, mas depois de ser enrolada várias vezes, essas táticas de “guerrilha urbana” têm me safado de maiores chateações.

Roupas básicas: Esqueça o modelito da moda, os saltos, os enfeites todos. Roupa de viagem tem que ser prática e confortável. Assim, prefira peças quem combinem entre sim, com cores bem básicas. Uma calça – ou bermuda – geralmente encara mais de um dia de jornada. Uma camiseta por dia tá de bom tamanho. Um casaco leve (conforme a temperatura). Se for viajar no inverno, leve apenas um casaco bom. Ninguém vai reparar que roupa se está usando e é muito comum na Europa as pessoas usarem um mesmo casaco o inverno inteiro.

Moeda local: Depois da implantação do Euro, viajar pela Europa ficou muito mais fácil sem a preocupação de cambiar moedas a cada troca de país. Mas muitos destinos populares no Velho Mundo têm sua moeda própria, embora seja comum encontrar restaurantes, hotéis e mesmo atrações oficiais que aceitem Euro. Mas isso é uma furada. O câmbio desses locais é uma piada e pagar em euro significa, geralmente, pagar 20, 30% mais caro. O ideal é fazer um cálculo do quanto se planeja gastar e fazer o câmbio apenas uma vez, para não pagar muitas taxas. Para quem usa cartões de débito europeus, o saque nos países fora da zona do Euro pode ser até mais barato que a taxa da casa de câmbio. Mas meu preferido mesmo é o Visa Travel Money (não, eles não patrocinam o blog! Ehhe), que pode ser usado como cartão de débito nas máquinas da bandeira Visa e permite saques com taxas justas, em moeda local, no mundo inteiro.

Bateria e cartão extras para a câmera:
Tudo bem que o celular hoje em dia quebra um grande galho e todo mundo acaba tirando muitas fotos de viagem com eles, uma vez que as câmeras têm cada dia mais resolução. Mas eu nunca viajo sem uma câmera na bolsa. Uma não, duas na verdade. Uma maior, com um pouco mais de resolução e uma bem portátil, para “roubar” fotos onde nem sempre é possível sacar a câmera grande. Mas isso é exagero meu. A dica mesmo é investir em duas coisas: um cartão de memória extra e uma (ou duas!) baterias de reserva. Por que em alguns lugares é impossível parar de fotografar. E mesmo que eu saia do hotel com a bateria da câmera carregada, corro o risco de ficar sem ao longo do dia. Assim, sempre tenho uma bateria extra (carregada, claro!!) na bolsa. E outra coisa: esqueça a síndrome do filme, quando a gente tinha que pensar muito antes de apertar o botão. Fotografe muito, faça mais de uma foto da mesma cena, tente diferentes ângulos e regulagens da câmera (mesmo das pequenas!). Quando se faz uma única foto, não dá para chorar depois se ficou tremida ou se a ponta da torre foi cortada. Afinal, não tem como prever se a gente vai ter a chance de voltar ao mesmo destino... 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Turismo internacional: 20 formas de reconhecer o brasileiro chato no exterior (e manter distância dele)


Atenção: Esse é um post de humor. Apesar de ser 100% baseado em fatos reais, é um comentário engraçado sobre o comportamento dos brasileiros no exterior. Aos mal-humorados de plantão, favor parar a leitura aqui e seguir direto para o próximo post do blog. 

Os brasileiros estão ganhando o mundo e é difícil viajar sem esbarrar com conterrâneos por ai. Paris, Roma e Londres já devem ter mais brasileiros do que nativos! Há muita gente legal passeando em busca de cultura, diversão. Esses encontros podem resultar em novas amizades ou em boas risadas mundo a fora. Mas há quem atrapalhe a festa: pessoas inconvenientes que deviam ficar em casa até tirar um diploma de como se comportar longe do país. E antes que alguém me acuse de falta de patriotismo, esse guia é 100% baseado em fatos reais.

Então, ai vai a lista para quem quer desfrutar dos principais destinos turísticos sem ter que conviver com esse tipo de pessoa: um manual para reconhecer os "infelizes". Ai, se der de cara com o tipo, é só escolher um outro restaurante ou uma mesa bem longe.

1 - Brasileiro fala alto de um modo geral. Mas fora de casa o brasileiro chato, fala mais alto ainda. Se anda em grupo, parece que todos têm um megafone na garganta. É só reparar no grupo mais berrão e nem precisa pedir o passaporte.

2 - Aliás, brasileiro chato nem devia precisar de passaporte quando viaja pro exterior. Existe um certo ritual de obrigatoriedade que faz com que todos saiam vestidos iguais. No início da viagem, homens usam camisa da seleção ou de qualquer time de futebol nacional. No segundo dia, camisetas da Tommy Hilfiger e abrigos de moletom da GAP. É patético.

3 - Brasileiros chatos tem um orgulho imenso em sua brasilidade e ostentam isso além da camisa de futebol. Assim, depois de trocarem pela Tommy Hilfiger ou pela "I S2 (Insira aqui qualquer capital da Europa)" ainda vão ser reconhecidos: eles usam bonés com a bandeirinha do Brasil, mochilas com patches de bandeirinha costurados. É só procurar atentamente: em algum lugar vai se encontrar a bandeirinha.

4 - Mulheres brasileiras chatas também têm uniforme. Calça ou camisa de oncinha: ou os dois. Nos pés, sapatos de salto (!??!?!) para caminhar com elegância – só que não – todas as vias barrentas das ruinas de Roma. Superapropriado. Ah, claro, elas estarão sempre com a cara meio emburrada e se queixando (aos berros) das dores nos pés como se o mundo tivesse que abrir alas para seus pezinhos massacrados pela burrice.

5 - Mas brasileiro chato adora exibir seu humor espirituoso em alto e bom som: fazer piadinha de judeus em campo de concentração, fazer bico de pato e sinalzinho de vitória na frente da torre Eifel, escalar o memorial do holocausto, achar que top e minissaia são as melhores opções para entrar no Vaticano.

6 - Brasileiro chato também aparece na foto de todo mundo. Não sabe tirar a foto em um spot disputado e dar dois passos pro lado. Não. Fica conferindo no Ipad se a foto ficou boa em vez de simplesmente dar lugar para outras pessoas. Aliás, eu sempre acho que todo o chato usa tablet como câmera e nem precisa ser brasileiro.

7 - Brasileiros chatos não só param na frente dos pontos turísticos de forma inapropriada como também atrapalham o caminho. O melhor lugar para discutir onde almoçar? No topo da escada rolante. Onde abrir o mapa para ver a direção certa? Na saída do metrô.

8 - Brasileiro quando viaja também fica chato por conta da saudade. Pode ser que coma feijão três vezes por ano em casa, mas se estiver no exterior há três dias, vai passar o tempo se queixando do quanto sente falta de um feijãozinho com arroz.

9 - Na hora de comer, brasileiro chato é vencedor: espera 20 minutos na fila do McDonald’s em Barcelona (sim, tem gente que prefere McDonald’s a provar a culinária local – nem que seja um bocadillo de Ramón!) e na hora de ser atendido começa a pensar no que vai comer. Ai olha para o cardápio na parede como se o restaurante fosse vietnamita e pede a comida pra família inteira, um sem picles, outro sem cebola...

10 - A saudade também transforma o brasileiro chato em um tipo agressivo. Se escuta alguém falando português, já dispara: Oh, que saudade de ouvir a nossa língua. E segue o diálogo entre o residente e o visitante. R: Pois é, há muitos brasileiros por aqui (não importa onde, sempre há). V: Me senti tão em casa quando ouvi você falando. R: Nossa, deve fazer muito tempo que você está longe então. V: Faz sim, já to fora do Brasil há quatro dias e ainda vou ficar mais cinco para conhecer 15 países.

11 - O mesmo brasileiro chato se acha o cara mais esperto do universo. Acha que está certo em não pagar o ticket do transporte público (por que o controle é por amostragem) e não entende o quanto os alemães são "idiotas" por comprarem o ticket se ninguém vai conferir. 

12 - Brasileiro chato espertalhão também some do mapa três quadras antes do fim do freetour só pra não dar uma gorjeta para o guia que passou três horas explicando tudo sobre a cidade.

13 - E mais esperto ainda: brasileiro chato guarda lugar na fila para dez pessoas que se materializam do nada depois de 30 minutos de espera pra comprar o ticket do museu. E claro, cada uma vai pagar separado, com cartão.

14 - Mais o mais chato de todo o brasileiro chato é o orgulho da sua própria ignorância. “Eu já viajei dez vezes pros Estados Unidos e não falo uma palavra de inglês”. “Achei toda a maquiagem que eu queria e comprei cinco bolsas Michael Kors e a vendedora nem falava português”. Dinheiro pro cursinho de inglês não sobra né.

15 - Mas tem brasileiro chato que sabe falar “the book is on the table” e faz isso logo que escuta outros brasileiros na área. Acha que ninguém mais no mundo entende inglês e que ninguém percebe as asneiras que estão sendo ditas na tentativa de esconder que a única língua que sabem falar mesmo é português.

16 - Brasileiro chato é chato até no caminho de volta pra casa. Além das duas malas que leva a bordo – feliz da vida porque a aeromoça não viu e os “idiotas” da cia aérea deixaram passar – carrega meio freeshop em sacolas. Lota o guarda-volumes acima da sua poltrona, acima da do vizinho, acima da de todo mundo. E berra com o cidadão do grupo de excursão que ficou do outro lado da aeronave para que ele venha tirar uma foto com a senhora argentina que acabou de conhecer.

17 - Claro, porque brasileiro chato não anda sozinho. Tem medo do desconhecido universo que se esconde depois do carimbo no passaporte em Guarulhos e tenha 20, 30 ou 60, se comporta como se fosse a excursão da turma pela formatura no ensino médio.

18 - Mas pior que sentar do lado de um brasileiro chato em um avião é sentar na frente dele. Empolgado, o brasileiro chato não se contenta em ver um filminho, como o resto do mundo. Quer explorar toda a tecnologia da aeronave e opta pelos joguinhos eletrônicos em telas que a sensibilidade ao toque não é exatamente uma qualidade. E sim, claro, irritado, começa a “tocar” cada vez mais forte. Um aviso: touchscreen é o nome. Não punchscreen.

19 - E como todo bom chato, de qualquer idioma, passam a noite de papo na “cozinha”, rindo alto, como se as cortinas que separam a área de serviço fossem a prova de som. Só não são mais chatos por que ainda não há sinal de celular nas nuvens.

20 - Mas no fim das contas, acho que o problema não são os brasileiros. Devem ser uma resposta orgânica ao ar estranho que transforma uma grande quantidade de viajantes em chatos de galocha, uma vez que os sintomas vão desaparecendo a medida que os grupos se dispersam depois da Alfândega em aeroportos do Brasil. Bom, a cura chega para quase todos, mas sempre escapa um. Porque brasileiro chato mesmo é aquele que te chama pra ver 938983928312 fotos fora de foco, com a cabeça cortada ou selfies no ipad enquanto ele conta (sobre as compras) da viagem.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Alemanha de A a Z: um guia prático para entender a terra dos castelos, da batata e da cerveja


Um guia prático para entender esse país cheio de regras, peculiaridades e consoantes. Uma coleção de verbetes com experiências, muito achismo e nenhum rigor científico: experiências somadas no cotidiano de um país com uma aura tão indigesta quanto repolho azedo com joelho de porco cozido, mas que se revela um local seguro, prático e até divertido de se viver.

Atenção: a reprodução desse texto ou suas imagens em qualquer outro veículo midiático – incluindo blogs ou sites só é permitida a partir de consulta prévia. Caso queira compartilhar, publique o parágrafo acima e inclua um link para o post original.



Alemanha – O país coleciona ódios e amores na mesma proporção. Bom, não exatamente. A liderança econômica da Alemanha na união europeia coloca o país – e em especial a chanceler Angela Merkel – no centro das críticas pela crise econômica. Não raro a governante é retratada como nazista, embora dentro do país goze de prestígio (demonstrado nas urnas nas últimas eleições). Más línguas dizem que a Alemanha conquistou com a economia e com a criação da EU aquilo que o Nazismo almejava e fracassou. Críticas à parte, é o país de um povo ordeiro e que tenta superar as marcas do passado. Uma economia de índices fortes apesar da crise e um lugar onde se vive com estabilidade e segurança.



Berlin – É capital alemã desde a reunificação, em 1991 (antes era a capital da Alemanha comunista – a DDR e Bonn era da Alemanha “Ocidental”, a BRD) e uma das cidades mais cosmopolitas da Europa. Apesar dos seus 4,4 milhões de habitantes, é um lugar relativamente tranquilo e seguro. O sistema de transporte de Berlin é certamente um dos mais eficientes do mundo – embora quem viva lá não se conforme com os 10 minutos de atraso dos trens que cruzam a região metropolitana. Tem lugares lindos mas, como um todo, não é exatamente o modelo europeu de beleza. Berlin encanta por ser história viva: a guerra, o muro, a divisão das Alemanhas transformam a capital germânica na cidade mais rica em história de todo o país. Imperdível.



Cerveja – A Alemanha pode até não ser o maior consumidor mundial de cerveja (com 143 litros por pessoa a cada ano, tchecos ocupam essa posição, seguidos dos austríacos, com 108). Os alemães estão em terceiro, com a média de 107 litros por pessoa por ano. No Brasil, que ocupa a 17ª posição, são 62. Mas as cervejas produzidas na Alemanha garantem a fama internacional. Existem incontáveis marcas produzidas por 1274 cervejarias registradas. Fora quem faz em casa. Os tipos variam muito, mas para serem chamadas de cerveja, todas devem seguir a lei de pureza na fabricação, a Reinheitsgebot. Somente água, malte, lúpulo e fermento podem ser usados no fabrico. Comparando as cervejas alemãs do tipo Pils com as brasileiras – que são quase sempre dessa categoria – fica fácil diferenciar: as cervejas alemãs são mais “fortes”. Tem um sabor mais marcante de malte e uma variação grande na lupulagem. São servidas um pouco menos geladas que no Brasil para que se possa apreciar o sabor em todas as suas notas.



Domingo – Todo sábado parece que o país está às vésperas de uma guerra, especialmente nos supermercados. No domingo – com raríssimas e recentes exceções nas cidades maiores – NADA abre no país. Não tem mercado, não tem loja, não tem shopping aberto. Padarias fazem plantão em sistema de rodízio, como as farmácias. Cada final de semana é uma que “faz o favor” de abrir em um determinado horário para vender. Mas as portas abertas são por pouco tempo. É melhor planejar o domingo com antecedência, fazer a lista de compras bem completa para não faltar nada.



Educação – O sistema de educação alemão causa estranhamento em quem chega. No final do que seria a quarta série no Brasil, os professores dividem os alunos em três grupos: os mais inteligentes, estudiosos e com boas notas; os intermediários, e os mais “fracos”. Cada grupo segue para uma escola diferente. Os “espertos” vão para o Gymnasium, onde serão preparados para entrar na universidade. Os do meio, passam a frequentar a Real Schule, que acaba mais cedo e conduz, geralmente, a um curso técnico ou a um curso superior do tipo tecnólogo. Já os “burrinhos” são encaminhados para a Hauptschule, onde recebem um ensino elementar e são encaminhados cedo para cursos profissionalizantes em áreas de ocupações menos especializadas: jardineiros, zeladores, padeiros, condutores de ônibus e afins. Isso porquê, na Alemanha, até para assentar tijolos em uma obra é preciso um curso técnico. Geralmente são três anos de preparação para qualquer atividade.



Feiras de Natal – As celebrações de Natal na Alemanha são pura magia. Em todas as cidades são organizados mercados que vendem comidas típicas do inverno e o tradicional vinho quente temperado com especiarias, o Glühwein. O cheiro da bebida se soma com as amêndoas carameladas, a neve e todos os cantos parecem cenário de filme. Sem exagero. É lindo demais. Já o réveillon, Silvester, como se diz aqui, é o oposto disso. Algumas cidades fazem queima de fogos, mas no geral, são apenas as pessoas que levam seus fogos para a beira de um rio, se houver. Alias, os espaços tradicionais são verdadeiras praças de guerra: o cenário é apavorante, com bombas e rojões explodindo por todos os lados. Isso porquê os fogos são proibidos no país o ano inteiro e só podem ser comprados e usados nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. Ou seja: são 48 horas para dar vazão a todo o fetiche bélico de um país inteiro. Além disso, o frio espanta qualquer ânimo. Pode ser divertido passar na rua, mas é preciso ter um programa para depois, porque meia hora depois da virada a multidão já estourou seus fogos, deixou toneladas de lixo para trás e se dispersou. Abaixo de zero, só mesmo com um bar quentinho pra comemorar!



Geração de energia – A Alemanha vive de energia termoelétrica (do carvão) e nuclear, mas está trabalhando duro em um plano ambicioso: mudar sua matriz até 2020. Muito tem sido feito e já se pode escolher comprar energia de fontes renováveis. Placas solares e turbinas eólicas estão espalhadas no país inteiro e isso não sai barato. No entanto, quem vive aqui aceitou pagar o preço de cuidar do meio ambiente. Além da energia, alemães consideram a separação do lixo quase uma religião. Veja o verbete Lixo.



Hauptbahnhof – Cada cidade tem a sua estação central de trem, que interliga os mais distantes recantos do país. A malha ferroviária alemã é de dar inveja. As conexões são geralmente precisas: é normal ter-se apenas três ou quatro minutos para trocar de um trem para o outro. Por isso qualquer atraso é catastrófico. Mas tem pra quem se queixar e as queixas são ouvidas. Mais de 60 minutos de atraso significa receber dinheiro de volta. Quem vive aqui reclamaconstantemente da Deutsche Bahn, mas quem vem de fora geralmente elogia: os serviços são bastante organizados em comparação a outros países, mas se paga bem mais caro por isso. Um cálculo bom (mas não preciso!) é saber que cada hora de trem custa aproximadamente 10 euros quando os tickets são comprados com antecedência. Se comprar na hora, pode ser o dobro disso. Existem muitas formasde economizar e encontrar tickets mais baratos.



Imigrantes – Estatísticas de 2011 apontam que 19,5% da população total alemã (81,75 milhões de pessoas) é imigrante ou descendente de imigrantes.  Mas em muitas cidades a sensação é de que esses números são bem mais altos. Turcos são a larga maioria. Oficialmente, 1,575 milhão no final de 2012. Mas é preciso levar em conta que as novas gerações – filhos e netos dos turcos que imigraram no pós-guerra para trabalhar na reconstrução do país - já são nascidas na Alemanha e, portanto, alemães. Poloneses aparecem em segundo na lista: 532 mil. São seguidos dos italianos (529 mil), gregos (298 mil), croatas (224 mil) e romenos (205 mil). Brasileiros são muito menos, mas ainda assim 34.945 estão registrados no país. Essa mistura cultural pode ser vista no rosto das pessoas, na lojas de todas as nacionalidades, nos bairros de imigrantes. Mas nem tudo são flores e, mesmo com um passaporte alemão na mão, estrangeiro será para sempre estrangeiro.



Joaninha – Elas são símbolos de boa sorte aqui na Alemanha. Mas se você morar perto de um parque ou tiver um jardim grande, podem bem ser um azar! No final da primavera e começo do verão elas surgem aos milhões e não raro você passeia por um jardim e escuta um barulho “crocante” sob os pés... das joaninhas que vai amassando involuntariamente pelo caminho.



Kirche ou Kirsche – Igreja ou cereja? Alemão é mesmo um idioma complicado. Complicadíssimo. Mark Twain já dizia que "A vida é muito curta para aprender alemão", mas aprender o idioma é a principal chave para a integração. Costumo brincar que a universidade pode ser em inglês, mas a vida real segue sendo em alemão mesmo. Fora isso – e de volta a cereja! – a frutinha toma conta dos mercados no verão e faz o inverno todo ter valido a pena.



Lixo – Separar o lixo é o verdadeiro esporte nacional da Alemanha. E é bom fazer isso direito antes que um vizinho carrancudo apareça na porta pra dizer que você separou isso ou aquilo errado. Existem toneis de coleta de lixo reciclado nas casas ou em algum local próximo. Sempre. Então, o negócio é memorizar a cor dos contêineres: azul é para papel; amarelo para embalagens pequenas e metais; marrom é para lixo orgânico e o preto para o que não se pode reciclar. Vidro é separado por cor: há um contêiner para o transparente, outro para o marrom e outro para o verde. Até hoje não sei o que fazer com garrafas azuis e, por via das dúvidas, deixo de decoração em casa.



Mau humor – Eu não diria que os alemães são necessariamente mau humorados. Prefiro dizer que tem um senso de humor peculiar, diferente do brasileiro. É uma questão de costume. Tem gente que acha que sinceridade é grosseria e por isso acha que todo mundo na Alemanha é mal educado. Eu acho a vida mais simples. Se você recebe um convite e não pode ir, diz que não e pronto. Não promete e depois falta. Essa sinceridade quase em excesso é parte da personalidade do país e ajuda a construir a má fama. Claro que tem momentos em que a paciência some, especialmente naquelas temporadas de chuva, quando para sair na rua é obrigatório vestir uma cara azeda. Mas ai vem o sol... ah, o sol. E o humor muda e a vida segue.



Nazismo – Esse é um tema proibido. Nunca, jamais faça qualquer piada sobre o assunto. Não fale sobre a guerra em uma festa. Os alemães carregam até hoje uma culpa e uma vergonha muito grande pelo Nacional Socialismo e o assunto sempre transforma os humores. A questão é tão tabu que beira a paranoia. Por aqui, ter uma bandeira da Alemanha é algo mal visto: só pode na Copa. Ter orgulho do país ou de ser alemão também são valores que remetem ao fascismo. Os neonazistas só contribuem para entornar ainda mais o caldo.



Ordnung – Esta é a palavra que melhor resume a Alemanha. Para tudo existe uma regra, uma norma, uma lei. Para cada coisa que se queira fazer há um uniforme específico e um manual. Para a vida funcionar é preciso seguir todas as regras. Isso mantém o Ordnung, a ordem, traz estabilidade e faz a vida de todo mundo mais fácil. Bom, esse é o pensamento alemão. Nesses anos de Alemanha acabei aprendendo que o Ordung é, na verdade, o antônimo do jeitinho: se no Brasil sempre se acha uma maneira de contornar a situação e levar vantagem dela, aqui a mesma regra vale para todos e não adianta espernear.



Pontualidade – Chegar atrasado é um crime. E deveria ser no mundo todo! Marcar com alguém e fazer a pessoa esperar é o mesmo que determinar que o seu tempo vale mais do que o tempo da outra pessoa. Tirando a empresa de trens, que já foi muito pontual em outros tempos, todas as coisas seguem o ponteiro à risca. Se for se atrasar mais do cinco minutos, é bom mandar uma mensagem ou ligar avisando. Isso vale para o trabalho, para o compromisso com os amigos, para a universidade. Um amigo disse uma vez que a precisão é tão importante para os alemães que deve ser por isso que eles dizem os números de forma invertida: primeiro a unidade e depois a dezena! Só pode!



Qualidade – Se o orgulho de ser alemão é algo negativo para as pessoas, a relação com os produtos é inversa. Regras de controle de qualidade rígidas e consumidores exigentes deixam poucas queixas em relação a qualquer coisa feita no país. Isso vale até mesmo para os supermercados mais baratos – os discounter, tipo Lidl, Netto, Aldi, Norma. Até os produtos de marca branca, vendidos com exclusividade por determinada rede, tem boa qualidade e podem ser comprados sem medo. São muito mais baratos e não decepcionam em geral. Se tiver dúvida, consulte as etiquetas dos testes de qualidade, que são exibidas com orgulho pelas marca. Gut ou Sehr Gut estampados no fundo branco com o nome dos institutos são a certeza de levar pra casa coisas boas e, na maioria das vezes, sem ter que pagar mais caro por isso.



Religião – Dizem que a antiga Alemanha comunista é o lugar mais sem Deus do mundo. Isso por conta dos índices elevados de ateísmo nos estados que antes formavam a DDR. Mas esse fenômeno, que se repete em menor escala na “outra” Alemanha, tem um componente econômico importante: o imposto descontado direto na folha de pagamento para quem professa uma religião. Os valores variam conforme a renda, em uma conta que não sei definir como é feita. Mas chegam perto dos 100 Euros por mês pra quem ganha entre mil e dois mil. Por isso muita gente que pede benção pra avó se declara ateia na Alemanha. Quem paga justifica que o valor é usado para a conservação das igrejas que são verdadeiros museus e que financia muitas ações de caridade e mesmo bolsas estudantis oferecidas pelas organizações religiosas. Quem declarou e se arrepende depois da chegada do primeiro contracheque precisa ir a prefeitura e fazer uma papelada enorme em que “renuncia a fé”.



Salsicha – Existem estimados mil e quinhentos tipos de salsichas na Alemanha e, claro, eu devo conhecer uns 40, chutando alto. Cada cidade tem sua especialidade, seu jeito de preparar, sua receita secreta. Basicamente é assim: tira a tripa de dentro do porco e coloca o porco moído e temperado dentro da tripa. Duas salsichas, no entanto, são facilmente encontradas no país todo. A Bratwurst da Turíngia, que tem entre 30 e 40 cm, uns 3cm de diâmetro e é servida assada em um pão minúsculo com mostarda. A outra é a Currywurst, o prato típico de Berlin. A tenda do Curry 36, que fica na capital, é considerada por muitos a melhor, mas é possível achar boas opções na Alemanha inteira. Lembra (bem de longe!) a salsicha de cachorro-quente do Brasil, assada na grelha, cortada em rodelas e servida com um catchup temperado e curry em pó no topo. A descrição pode não ser convidativa, mas uma visita ao país não está completa sem provar a iguaria.



Teimosia – A minha cidade, Blumenau, em Santa Catarina, foi fundada por alemães e ainda abriga muitos descendentes. Por lá a gente usa um ditado mais ou menos assim: “Alemão não é teimoso. Teimoso é quem tenta discutir com alemão”. Bom, de algum lugar isso saiu. Eu já cai na besteira de discutir ou tentar argumentar algumas vezes por aqui e, depois de alguns anos de sofrimento, fica a dica: nem comece.



Universidade – A Alemanha tem internacionalizado suas universidades cada vez mais. Depois do tratado de Bolonha, especialmente. Com o fim dos cursos superiores chamados de Diplom (mais extensos que um bacharelado no Brasil e já com a equivalência do título de mestrado), passaram a pipocar mestrados internacionais no país. Ou seja: cursos em inglês gratuitos em todas as áreas, embora os bacharelados sejam em alemão (com raríssimas exceções). O ensino superior na Alemnha é gratuito. São poucas as faculdades privadas e é possível escapar delas com boas opções públicas. O que se paga por aqui é uma taxa de matrícula semestral – entre 150 e 300 euros, conforme a cidade – que já inclui o ticket para o transporte local. Então, para quem planeja arriscar um voo solo no exterior para uma especialização, a Alemanha é o caminho mais fácil, já que não é preciso entrar na briga por bolsas de estudo.



Verão – Dias que amanhecem as 3h30 e anoitecem depois das 22h. O mês mais aguardado do ano, sem dúvidas. Sim, o mês: porque o verão por aqui não é exatamente uma estação inteira. Sair de casa com os braços de fora e nem pensar em levar um casaquinho (mesmo que leve) é raridade. E nesses dias de “raridade”, os 30 graus parecem ser 40. As casas, as cidades, os transportes: nada épreparado para o calor. Em alguns Estados, quando os termômetros passam dos 30 graus as aulas são canceladas. Mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Para quem trabalha, o jeito é driblar a massa quente com ventiladores e esperar. A única certeza é que o calor dura muito pouco.



Xenofobia – Esse é um assunto sério no país. A xenofobia existe sim e é um problema grave. E não é apenas contra um grupo étnico distinto: é contra todo mundo que não é alemão. Antes que eu seja execrada, quero dizer que sim, existe uma grande maioria de alemães que convive perfeitamente com um país internacionalizado. Mas se você é estrangeiro, mesmo que fale a língua e seja loiro e de olhos azuis vai enfrentar problemas (em maior ou menor escala) em algum momento. Isso vale para empregos, para amigos, para a simpatia no atendimento, para resolver os problemas. Mas vale muito na hora de alugar casa: como estrangeiro, mesmo tendo emprego, grana e afins, é sempre mais difícil conseguir um apartamento. Uma vez que os imóveis aqui não são de quem chega primeiro – ocorre sempre um tipo de entrevista e todo mundo vai arrumado ver casa – os alemães acabam sempre tendo a preferência.



Zelador – O zelador do prédio será o seu melhor amigo aqui na Alemanha. É quem arruma a torneira com vazamento, o chuveiro que tem cal (sim, porque a água é muito alcalina e vai entupindo tudo com o tempo). Se você morar em um condomínio estudantil, esses serviços costumam estar incluídos. Se não, leia com atenção o contrato. Tive um problema sério com isso. Apareceu uma mancha de mofo na minha parede na época em que vivia em Berlin em um apartamento térreo – e isso é uma coisa séria e que precisa ser resolvida o quanto antes – e a administradora do prédio disse que o zelador passaria lá para resolver. Eu disse que não precisava, que eu mesma faria. Já tinha aprendido com o zelador do prédio anterior que a única coisa que resolve esse problema é um spray anti mofo que vende nas lojas de material de construção, para uso profissional. Os do mercado não valem nada. Enfim: o homem foi lá, jogou o spray, esperou três minutos, secou com um pano e foi embora em menos de dez minutos. Veio a conta: 65 euros.



... – Essa é a primeira “amostra grátis” do Alemanha de A a Z. A ideia é continuar escrevendo sobre os mais diferentes aspectos do país. Por isso, se gostou, comente. Se não gostou, comente também. Sugestões de novos verbetes são sempre bem vindas. É só deixar um recado.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Deutsche Welle: há vagas para jornalistas formados em estágios pagos


ATENÇÃO

O texto deste post refere-se única e exclusivamente ao processo seletivo promovido pela Redação de Língua Portuguesa para a África e não tem qualquer relação com outras redações (Leia os comentários no PS ao fim do texto, por favor!).

Sede em Bonn: estruturas modernas abrigam redações em 30 idiomas*

A Deutsche Welle (DW, agora!) é responsável pela imagem da Alemanha no mundo todo e hoje produz conteúdos em 30 línguas diferentes, inclusive português. Não é à toa que a emissora se entitula: A voz da Alemanha. Aliás, só de português, são duas redações: para o Brasil e para a África, esta em que estou trabalhando por um período de três meses. A experiência tem sido muito interessante e melhor: jornalistas de qualquer canto do Brasil ou de países lusófonos podem ter a mesma oportunidade. Esta é a razão desse post, uma vez que já contei como vimparar aqui em Bonn. Importante: as inscrições estão abertas e o site oficial do programa é este aqui!!! A Glória Sousa, jornalista portuguesa da DW (e minha colega de apartamento também!) escreveu um pouco mais sobre a Deutsche Welle nesse post aqui. Aliás, é do post dela que roubei a foto ai de cima!

Existem, na verdade, dois tipos de estágio por aqui na Redação de Língua Portuguesa para a África: um para estudantes (mas para esse, é preciso estar matriulado em alguma instituição de ensino da Europa e, além disso, ter visto para a Alemanha ou ser cidadão de um país membro da EU), outro para quem já terminou. Nesta para jornalistas formados, as regras são mais amenas e aumentam as chances de fazer parte da equipe. São selecionados anualmente quatro jornalistas e cada um passa três meses por aqui. É tudo feito com muita antecedência: as inscrições terminam no fim de junho, a resposta sai, geralmente, em setembro e, o primeiro candidato (os selecionados definem qual o período de disponibilidade dentro dos espaços oferecidos) chega apenas em janeiro. Ou seja, é tudo sem pressa e sem atropelos. Da tempo de conversar com o chefe no Brasil e pedir licença ou mesmo de deixar um aviso prévio e organizar a viagem com muita calma. Confesso que, mesmo que se eu tivesse que deixar um trabalho por conta dessa experiência, não teria pensado duas vezes!

Vale dizer que a equipe (que não da pra saber antes, mas eu entrego o segredo!) é uma motivação a parte: nosso editor chefe é alemão, mas fala português com uma fluência invejável. Depois, temos mais um editor do Cabo Verde (a gentileza em pessoa!) e colegas brasileiros, angolanos, do Moçambique, portugueses e, quem sabe de outros cantos. São todos de uma simpatia ímpar e a sensação é de acolhimento: só isso já valeria a experiência.

O foco da redação é a África lusófona: uma chance, infelizmente, de percebermos na pele o quão imensa é a ignorância dos brasileiros quanto aos assuntos africanos. Me pergunto em que momento foi, na elaboração dos currículos escolares, que passamos a achar que a África é uma coisa só e que as ex-colônias de Portugal passaram a simples menções em nossos livros dos anos do ensino fundamental. A cada dia me envergonho do pouco que sei – e do pouco que os brasileiros sabem –, mas aprendo o como somos parecidos dos dois lados do Atlântico. E as semelhanças vão muito além da cor da pele, da religiosidade ou dos ritmos marcados por tambores.  Em uma vida toda não saberia metade do que sabem as pessoas com quem tenho convivido aqui: mas todos tem a paciência e a graça de perdoar essa falha cultural (mesmo que seja imperdoável!) e me explicar, com conhecimento de causa, que o ”Vem dançar Com Tudo” da novela (ou mesmo o Kuduro, do Latino) podem ser qualquer coisa, menos kuduro. Só pra citar um exemplo. Esta tem sido a chance de corrigir – ao menos um pouco – essa falha cultural.

O fazer do jornalismo – entrevistar, reportar, escrever, construir textos – é o mesmo em qualquer redação pautada pela ética. Mudam os softwares usados para tratar sons ou publicar artigos, mas para isso cada um que chega aqui é treinado e logo se ajusta. O bacana é ter a chance de conversar com pessoas no mundo todo e fazer entrevistas falando português lusitano, angolano e até de Macao. Também em inglês ou alemão (para quem domina, já que não é necessariamente obrigatório): a preocupação de marcar conversas levando em consideração o fuso horário e de traduzir as falas para que ganhem uma voz em português depois. Eu já havia feito de tudo um pouco em 18 anos de jornalismo – jornal, rádio, tv, internet, assessoria, tradução – e, para mim, foi a grande novidade. Adorei.

To contando a experiência para motivar mais gente a mandar a candidatura. As inscrições terminam sempre no fim de junho, mas é preciso ficar atento já que esta é a data que vale para a chegada do material, não para o carimbo no correio. E são necessárias umas duas semanas ao menos para que tudo atravesse o oceano e chegue bonitinho aqui, na mesa do chefe. Vale dizer que os alemães são bastante severos com as datas: então, nada de esperar para amanhã.

Quem já trabalhou em rádio ou TV tem mais chances. Falar alemão ajuda, mas um bom nível de inglês faz toda a diferença também. É preciso preencher um questionário (bem simples) da própria DW e juntar alguns documentos na inscrição: currículo em inglês ou alemão com os dados completos e corretos de contato (uma sugestão é usar omodelo europeu de CVs), cópia do diploma de jornalismo traduzido para o inglês ou alemão (não precisa ser juramentada: você mesmo pode traduzir e mandar anexada) e exemplos de trabalhos. Vamos a essa parte em detalhes: separe algumas coisas legais que você já fez (qualidade, não quantidade!). Matérias de rádio, tv, textos de jornal: de preferência algum trabalho onde seja possível ouvir sua voz (já que aqui você vai trabalhar com rádio, não esqueça!). Grave tudo em um CD, DVD, cartão de memória ou fita cassete: só não aceitam por aqui sinais de fumaça!

Olha, a aplicação oficial não pede uma carta de motivação, mas eu mandei uma e deu certo. Me chamaram! Então, não custa colocar em uma página (ou duas, no máximo) o porquê você quer trabalhar na Deutsche Welle. Tem umas dicas nesse post que são para mestrado, mas é só adaptar os propósitos.  Então, é só imprimir a papelada, fazer uma capinha bonita pro CD (sempre ajuda, né!), fazer figa, e mandar tudo pro editor chefe aqui:

Deutsche Welle
Portugiesisches Programm
Johannes Beck
Kurt-Schumacher-Str. 3
53113 Bonn -  Alemanha

Pra fechar, digo e repito: o estágio é muito bacana. Não é sempre que se tem a chance de fazer parte de uma das maiores estruturas internacionais de imprensa! Vale a pena tentar! :)  

PS (07/08/2012) :
Neste post, três coisas precisam ficar bem claras.

Primeiro: a Deutsche Welle produz conteúdos em 30 idiomas. Isso quer dizer que são 30 departamentos diferentes, independentes, embora da mesma empresa. Cada um tem sua política de funcionários e estágios. Que fique claro: a redação brasileira é uma coisa e a redação de Português para a África é outra diferente. As redações são física e administrativamente separadas. Isso quer dizer que a redação da Espanha, da Macedônia, da China ou a do Brasil, por exemplo, têm políticas próprias, critérios pessoais e vagas de estágio em diferentes programas (que variam em duração, benefícios e afazeres!).  O texto deste post refere-se única e exclusivamente ao processo seletivo promovido pela Redação de Língua Portuguesa para a África e nada além disso. Não se trata de um padrão, de uma regra geral: é um post que repete todas as informações disponíveis em uma página pública, aberta, apenas acrescido de comentários com a experiência que tive no processo.

Segundo: recebi diversos e-maisl pedindo dicas sobre o estágio. Esse post são as dicas. Não há nada além do que está escrito aqui que eu possa dizer. As perguntas também estão todas respondidas no site do estágio da Redação de Língua Portuguesa paraa África. É só ler com atenção e fazer exatamente como está escrito por lá. Assim como eu, dezenas de outros jornalistas já fizeram esse estágio e nenhum deles tem qualquer influência ou participação no processo seletivo. O post é a dica de uma oportunidade bacana, não uma oferta de uma agência de empregos.

Terceiro: Redação de Língua Portuguesa para a África costuma oferecer essa chamada anualmente. Que fique claro: costuma. Não faço ideia se vão oferecer no próximo ano ou no outro, ou no outro. É preciso pesquisar no site oficial da redação e verificar. Essa é uma pergunta que não posso responder.


* Foto publicada originalmente no blog Histórias de Bonn, nesse post aqui.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Como fazer uma boa carta de recomendação acadêmica


Muitos cursos de mestrado no exterior exigem cartas de recomendação de professores e empregadores. Além do histórico escolar, claro, elas são decisivas na escolha do candidato e, para isso, devem destacar seus pontos fortes. Quando solicitei as primeiras indicações aos professores, o conteúdo veio superficial ou incompleto. Então, mais uma vez, salva pelo Google e por exemplos de cartas espalhadas pela rede.

Encontrei um roteiro, mas não lembro onde e nem achei novamente pra citar a fonte (se alguém souber, providencio o crédito inicial). Com base nele, encaixei as informações solicitadas pelas universidades da Europa e divido o resultado para facilitar a vida de quem está planejando fazer mestrado no exterior. A primeira frase, já em inglês, é o destinatário padrão (o nosso “a quem possa interessar”).


To whom it may concern

O propósito desta carta é recomendar Fulano de tal como candidato (a) ao curso de mestrado Tal tal tal.

* Descrever de forma clara o perfil e o potencial do candidato. Cada adjetivo usado como habilidade do candidato deve ser justificado
Exemplo: Interesse pela pesquisa científica, apresentando conteúdos apurados em seus trabalhos acadêmicos no decorrer de todo o curso.

* Desde quando e em que circunstâncias conheceu o candidato.

Comparando a candidata a outros alunos e profissionais com quem tive contato nos últimos anos, quanto suas aptidão para estudos e pesquisas acadêmicas, (porque a candidata deve ser escolhida em detrimento de outros aplicantes).

Destaco ainda que o(a) candidato(a) apresenta

Exemplos:
Elevada capacidade intelectual
Alta motivação para estudos avançados
Capacidade de concentração aguçada para trabalhos individuais, ao mesmo tempo em que revela grande iniciativa, desempenho e liderança em atividades de equipe.
Tem facilidade de expressão escrita e oral
Em seu histórico acadêmico, sempre mostrou-se assídua e perseverante
Respeitosa e cativante nos relacionamentos com colegas e superiores


(Assinatura)
NOME COMPLETO
Titulação acadêmica /Cargo
Instituição
ENDEREÇO
TELEFONES: ramais de acesso rápido (+ 55 XX ????????)
E-MAIL para contato

PARA:
NOME DA INSTITUIÇÃO
FACULDADE / CENTRO DE CURSO
CURSO
COORDENADOR DE CURSO


Dica de viagem: Muitos professores podem encontrar dificuldades em elaborar a carta de recomendação em inglês. Ofereça ajuda sem medo de parecer impertinente: os meus, sempre aceitaram. Mande para eles o roteiro, de forma educada, como sugestão para facilitar a vida e peça que enviem a carta para você em português. Traduza a carta de forma fidedigna, mas não tenha medo de adaptar expressões idiomáticas e de buscar sinônimos técnicos mais adequados. Então, envie novamente o material para que seu professor revise e encaminhe via e-mail ao curso que solicita ou imprima, assine e carimbe para enviar para você. Para evitar atrasos, você pode pedir que eles digitalizem a carta depois de assinada e carimbada: dá tempo para mandar na application digital enquanto o correio faz a entrega do original (recurso que foi útil na greve dos Correios!).

Herzliche Grüβe

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

De volta à nave-mãe

O nome desse blog é uma brincadeira… Sou de Blumenau, cidade catarinense fundada por imigrantes alemães em 1850. E entre os atuais 300 mil habitantes, sou mais uma descendente que ainda carrega a influência genética daqueles que cruzaram o oceano em busca de uma vida melhor e construíram uma cidade próspera.


Bom... em Blumenau, a Alemanha tornou-se, como passar dos anos, uma referência quase encantada: ainda se fala alemão nas casas e tudo o que vem da Alemanha é considerado melhor. Então, voltar à nave mãe é fazer o caminho inverso daqueles primeiros 17 imigrantes liderados por Hermann Bruno Otto Blumenau.


As primeiras postagens vão ser com pressa: sinônimo de quem não fez o que deveria ter feito no tempo certo. Mas são uma tentativa de “ensinar o caminho das pedras” pra quem também almeja um lugarzinho ao sol – ou na neve!! :P – do outro lado do oceano.


Dica de viagem:
Na foto que ilustra este post de estréia, o "castelinho" no centro de Blumenau, SC. Trata-se de um dos prédios mais fotografados da cidade. Foi construído pela família Schadrack na década de 70 para abrigar uma loja de departamentos (a Moellmann). O prédio é inspirado (quase uma réplica) na prefeitura da cidade alemã de
Michelstadt, uma hora ao sul de Frankfurt am Main)e atualmente, foi todo restaurado e abriga a loja de departamentos Havan.


Herzliche Grüβe!

de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel