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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Doutorado na Alemanha: passo-a-passo para conseguir uma vaga, um orientador e uma bolsa de estudos

Bremen: clima ruim, mas uma boa universidade em uma cidade charmosa

Fazer doutorado na Alemanha pode ser uma grande vantagem, uma vez que o ensino por aqui é gratuito, salvo as poucas universidades privadas do país ou alguns cursos muito específicos. O dinheiro do financiamento que se recebe serve para pagar as despesas de moradia e subsistência. Além disso, para os padrões europeus, a Alemanha (exceto do Sul!) é um país bem barato. Esse post detalha os passos para quem pensa em fazer doutorado por aqui. Por isso, antes de enviar qualquer pergunta, leia atentamente.

É preciso dizer que para os brasileiros ficou ainda mais fácil chegar ao doutorado com as bolsas do programa Ciência sem Fronteiras (CsF). Antes, a seleção toda dependia de um convênio entre Capes/Cnpq/Daad, com chamadas anuais e que, em média, concediam cerca de 60 bolsas de doutorado pleno. Essas bolsas ainda existem e contemplam também áreas que estão fora do CsF.

É possível participar dos dois processos seletivos ao mesmo tempo. Uma coisa é independente da outra. Se a sua área não for diretamente engenharias ou computação, fique atento a uma área do CsF que se chama Indústria Criativa: uma série de projetos de moda, design, comunicação e outras áreas distantes da engenharia encontram abrigo ai e, com isso, podem se encaixar no escopo do programa.

Quanto a língua, é preciso ter proficiência pelo menos em inglês. Obviamente não dá para chegar no país sem se comunicar com o professor e sem ter uma língua de trabalho. As universidades aceitam Toefl ou Ielts, além de outros exames de proficiência. As duas bolsas (Capes/Cnpq/Daad e CsF oferecem curso de alemão por um período de um a seis meses antes do início da bolsa, conforme a necessidade do aluno). Para estudar em alemão, exceto na área de Direito, onde a exigência de língua é maior, é preciso ter o TestDaf ou o DSH2 equivalentes ao avançado (C1). No período do curso de alemão recebe-se moradia (indicada pela escola de alemão), curso e uma ajuda de custo financiada pelo Daad. A bolsa de doutorado propriamente dita inicia depois do curso de alemão.

Os tipos de doutorado

Em primeiro lugar é preciso ainda decidir o que se quer fazer aqui: um doutorado integral (de três a quatro anos) ou sanduíche, que é um ano fora quando já se está matriculado no doutorado em alguma universidade brasileira. Se o doutorado for integral, existem quatro possibilidades. O site do Daad também tem dicas importantes.

Programa de doutorado: são raros na Alemanha. São cursos de doutorado como no Brasil, com cadeiras estruturadas, para os quais deve se fazer a inscrição no processo seletivo diretamente na universidade, observando as exigências, datas e prazos de cada uma. Mas note bem: nunca conheci ninguém que fizesse doutorado assim aqui.

Posição de pesquisador: Para essa você não precisa ter uma bolsa. Trata-se de um contrato de trabalho como assistente de pesquisa em uma universidade, geralmente em algum projeto pré-existente. Nesse período de trabalho, o doutorando desenvolve sua pesquisa em paralelo, geralmente relacionada ao projeto em que trabalha. Muitas universidades europeias oferecem posições assim e é fácil encontrar vagas nesse site, nesse e nesse outro ainda.

Doutorado em empresa: Um professor doutor vinculado a alguma universidade orienta o estudante durante uma pesquisa feita diretamente na indústria, com objetivos práticos relacionados a empresa que remunera o doutorando.

Pesquisador livre (Promotion): É a modalidade mais comum de doutorado por aqui. É um acordo entre o professor e o aluno e as regras são estabelecidas nessa relação. São as vagas mais fáceis de se conseguir e as que funcionam melhor junto com o financiamento das bolsas brasileiras. Segue uma explicação mais detalhada de como funciona o acordo.

Como encontrar uma universidade e um orientador

Escrevo como foi a minha abordagem, mas podem existir outras maneiras: a parceria entre universidades, um professor como contato, etc. Bem, fiz sozinha um projeto inicial do que me interessava trabalhar no doutorado e procurei, na Alemanha toda, professores que pesquisassem o tema. A grande maioria tem o curriculo on-line. Observe sempre que para doutorado tem que ser uma Universität (e não uma Hoschule ou Fachhoschulle, que são técnicas!) e obviamente o professor tem que ser doutor (há professores que não são por aqui).

Depois dessa busca, selecionei doze professores que poderiam me orientar e enviei a eles um email me apresentando, falando da minha ideia de pesquisa (dois parágrafos, não mais! Para ter certeza de que leriam!) e dizendo que não estava procurando bolsa, já que poderia contar com financiamento de bolsa do Brasil. Dos 12, um disse que tava se aposentando, outro sugeriu um colega mais na área e DEZ disseram que aceitariam me orientar e pediram para mandar mais detalhes de projeto, curriculo, minhas notas, etc.

Na sequência, dei uma melhor selecionada pela universidade, pela região que queria morar e então agradeci os demais e escolhi um. Esse professor te da uma carta de aceite: nela ele diz que, caso você consiga a bolsa, ele aceita ser o teu orientador. Isso basta para se inscrever nos editais. Ai é torcer para que o projeto esteja bem feito e que seja aprovado pelo comitê de seleção das bolsas no Brasil.

Já com a bolsa, a matrícula na universidade

O segundo passo é dentro da universidade alemã: o professor vai sugerir ajustes no projeto (ou não!) e vai encaminhar ao PhD comitê da universidade. Esse comitê se reúne três ou quatro vezes ao ano, não mais. Esse comitê avalia o projeto e diz se o aluno pode ou não se matricular, se terá ou não que cursar disciplinas como formação complementar.

Caso seja negado, nada de desespero: é preciso refazer ou ajustar o projeto para a próxima reunião. Isso não é um problema para a bolsa: uma carta do seu professor dizendo que você já está trabalhando é o bastante para que os pagamentos sejam efetuados. Depois da aprovação do comitê, você é autorizado a se matricular como PhD Candidate na universidade (algumas faculdades têm uma modalidade especial de matrícula que é de Perspective PhD Candidate: isso permite a matrícula de quem ainda está fazendo os ajustes no projeto, por exemplo, mas garante benefícios de estudante e visto enquanto ainda está aguardando a aprovação do comitê).

A forma como se vai trabalhar - se o aluno vai ter uma sala na universidade, se vai usar a biblioteca, se vai trabalhar de casa - é definida entre aluno e professor, bem como a periodicidade dos encontros. As regras podem variar um pouco em cada universidade, assim como a lista de documentos exigidos para a matrícula, prazos e afins. Mas em um resumo bem geral é assim que funciona o processo.

Outras bolsas de estudo para brasileiros

Mas as bolsas para doutorado não se resumem a Capes/Cnpq/Daad e CsF. Brasileiros podem se candidatar a uma série de outros financiamentos oferecidos por instituições alemãs e internacionais. Mas ai, nada como usar o bom e velho Google, né! :)



terça-feira, 1 de abril de 2014

Cinco coisas irritantes que os brasileiros fazem no supermercado e que você não vai ver na Alemanha


Largar carrinhos nas vagas do estacionamento – Os carrinhos são largados por todos os cantos, forçando o motorista a sair do carro para fazer espaço. A medida para acabar com isso é simples: por aqui, para retirar o carrinho é preciso colocar uma moeda ou uma ficha plástica (brinde oferecido por algumas marcas). É preciso devolver o carrinho para receber a moeda de volta. Assim, todo mundo se encarrega de colocar no exato lugar que pegou. Simples, né?!?!

Estacionar em vagas de idosos e deficientes – Isso não é só no supermercado. É geral. Eu sempre prometo que vou fazer um cartão xingando o sujeito e não faço. Mas como todo mundo deve pensar o mesmo que eu – fica indignado e não faz nada – a coisa fica por isso mesmo. E pior: tem cidadão que ainda liga o pisca alerta do carro. É para alertar o mundo do tamanho da babaquice do motorista? Só pode.

Não empacotar as próprias compras – Essa é provavelmente a coisa mais irritante que acontece em um supermercado brasileiro, lotado de uma classe média ridícula, acostumada a subserviência (essa espécie de escravidão aceita culturalmente e que deveria envergonhar o país). Não sei o que é pior: a caixa se virado do avesso para colocar tudo em 1394819891 sacolinhas (que sim,deveriam ser cobradas!!!) ou o mercado contratar mais uma pessoa, geralmente um “menor aprendiz” (aprendiz do quê? Da manutenção do status quo da subserviência?) para fazer isso. Na Alemanha a coisa é extrema: você compra, coloca as coisas em uma esteira enorme, separada por plaquinhas entre um cliente e o próximo, passa no caixa, coloca tudo de volta no seu carrinho o mais rápido que puder (e nem assim isso vai ser rápido o suficiente) e depois, em um balcão ao lado, empacota calmamente nas sacolinhas que trouxe de casa ou nas que comprou. Assim, uma fila gigante no caixa não significa uma hora esperando. Diferente do Brasil, que qualquer volume que ultrapasse um cesto quer dizer abolir o almoço e planejar apenas a janta. Sim, demora: muito.

Terminar de fazer as compras quando já está pagando – O mundo precisa parar porque o senhor fulano esqueceu que a mulher pediu pra ele comprar farinha de rosca. Enquanto ele busca, as pessoas da fila espiam as fofocas da novela na revista, falam sobre o tempo, jogam Candy Crush. Ai o fulano volta, coloca a farinha de rosca na esteira e lembra que esqueceu dos ovos. Sorri pra caixa e vai buscar. Essa falta de noção me irrita profundamente. Primeiro: faz uma lista antes de sair de casa. Depois, se esqueceu, paga tudo, leva no carro e volta pra buscar o que faltou: Ah, isso vai me fazer perder tempo!! Sim, vai. Mas você vai perder o SEU tempo, não o meu.


Não controlar os filhos – Já vi muito alemão com crianças no mercado, embora geralmente os pequenos não participem dessa tarefa. Não sei qual é o acordo dos pais com os pequenos rebentos, mas nunca vi nenhuma criança aos berros com um pacote de bala da Monster High na mão. De um modo geral as crianças são mais bem educadas por aqui: ao menos fora de casa, raramente vi qualquer escândalo infantil, coisa comum em qualquer espaço público no Brasil. Muitos supermercados por aqui oferecem carrinhos de compras para as crianças: que espertinhos! Os pequenos adoram as versões coloridas de seus carrinhos e, em contrapartida, não passam por cima do pé de ninguém e menos ainda esbarram nas estantes. Todo mundo fica feliz. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Para copiar da Alemanha: medidas simples (e quase sem custo) que podem transformar o transporte coletivo em cidades brasileiras

Em Erfurt: bondes encontram espaço mesmo em ruas estreitas e históricas

Vivo há quase seis anos na Alemanha e por aqui nunca tive carro (nem carteira de motorista) e vivo feliz e satisfeita em relação ao transporte. Estive no Brasil na semana passada a trabalho (especificamente em Blumenau, SC) e, nesses dias, usei o transporte público em algumas ocasiões. Assim, me dou a o direito não de comparar, mas de observar alguns pontos simples que poderiam fazer o transporte de Blumenau (e de outras cidades do Brasil) muito melhor. Não estou falando de investimentos faraônicos: só de um pouco de organização.
  • As paradas de ônibus deveriam ter um nome, simples assim. Dessa forma, os transportes deveriam ser mapeados como o metrô (as cidades alemãs fazem isso e uso o mapa de Brauwnschweig – cidade onde morreu o Dr. Blumenau, fundador da cidade, para ilustrar). Só assim, não teria ficado fazendo um monte de perguntas para saber que ônibus passa onde e como vou de A a B.
Eficaz: sistema de ônibus pode ser mapeado como o metrô

  • Os nomes das paradas permite que sejam incluídas em um mapa digital e, com isso, quem não sabe o nome da parada de ônibus poderia simplesmente colocar o endereço de partida e o de chegada em um site e receber a rota de ônibus que deve seguir para chegar lá. Esse exemplo da imagem é do site de transportes de Berlin. Simulei a pesquisa a partir de dois endereços: do Parlamento Alemão (Platz der Republik 1) até a Universidade Técnica de Berlin (Straße des 17. Juni 135). O site verificou qual a parada de transportes públicos mais perto das minhas opções e indicou o caminho (incluindo mapas do trajeto a ser percorrido a pé desde a minha localização até o local onde desejo ir). Em tempos de Google maps não é nada do outro mundo.
Planejador: site ajuda a definir as rotas e fornece até mapas
  • As paradas de ônibus deveriam ter informações básicas: que linhas passam por elas, o mapa do transporte, uma tabela com o horário que o ônibus deve passar em cada uma delas. O quadro mostra uma linha de Bremen: nela consta o horário em que o Bonde 8 (mas é a mesma coisa para os ônibus), vai passar pela parada que se chama Duckwitzstr., de segunda a sexta, no sábado e nos domingos e feriados. Em baixo, está a descrição da linha. A parte anterior mostra de onde o trem veio. Em vermelho, a parada onde se esta. Depois as paradas seguintes, com a previsão de quantos minutos se vai levar para chegar até elas e, claro, em que direção o veículo está seguindo: assim ninguém pega o trem ou ônibus para o lado errado. 
Em Bremen: quadro informativo com horários e trajeto

  • A medida acima acabaria com a sensação de que todos os ônibus estão participando de um rali. Fiquei assustada com a velocidade excessiva em lugares sabidamente perigosos, como a curva do Cemitério no Progresso, por exemplo. Definir o horário previsto para cada ponto de ônibus evita que o motorista meta o pé na tábua para chegar antes. Claro que atrasos acontecem, mas a correria é muito mais perigosa. Assim, caso não tivesse que parar em um ponto, o motorista teria que controlar a velocidade para não passar adiantado no seguinte. Pode parecer chato no começo, mas isso assegura que ninguém vai chegar na hora marcada e ver a placa traseira do ônibus saindo do ponto. No fim das contas, confere mais confiabilidade ao sistema. Eu só posso crer que em Blumenau não seja assim porque quem cuida do transporte não conhece essas alternativas: não existe outra justificativa.
  • As estações de pré-embarque do Centro da cidade (modelo que tenta imitar o transporte de Curitiba – que já foi bom no século passado!) são a coisa mais ridícula do universo. Parecem gaiolas com pássaros selvagens recém capturados, onde todos ficam se debatendo. Quem sai do ônibus tem que empurrar para o lado quem esta engaiolado na espera de entrar no veículo. É patético. A coisa toda seria muito mais simples – e barata – se o sistema de leitura dos cartões de pagamento de passagem - que já contém um chip – fizessem também a leitura de uma marca temporizada. Ou seja: a pessoa passa na catraca e aquela passagem continua valendo por 90 minutos (ou 120, ou quantos a prefeitura julgar adequado), sempre na mesma direção (centro-bairros ou bairro-centro, por exemplo). Para os turistas (os raros que usam transporte coletivo!), poderiam ser vendidos cartões temporários nos postos de informação turística ou nos terminais. Em Florianópolis já funciona assim: ou seja, o exemplo está na porta.
  • Alguns corredores de ônibus já funcionam na cidade e acho que devem ser ampliados. Quem não viaja no conforto do ar condicionado do seu carro deve ter o direito de fazer o caminho mais rapidamente. Isso poderia atrair novos usuários: se o ônibus chega antes, por que ir de carro?
  • Estacionamentos próximos aos terminais com desconto para quem usa o transporte coletivo. Assim, é possível ir de carro até um terminal, estacionar e seguir o resto da viagem em direção as áreas mais centrais de ônibus. O mesmo vale para bicicletas: um local coberto e seguro onde possam ser deixadas. Funciona que é uma beleza aqui na Alemanha. Eu mesma fazia isso: deixava a bicicleta trancadinha no ponto e, quando voltava a noite depois do trabalho, não precisava caminhar sozinha por ruas não muito iluminadas (embora por aqui isso não represente um risco...).

É claro que as melhorias nos ônibus devem ir além. Modelos mais baixos e que se reclinem para facilitar o embarque de pessoas idosas seriam absolutamente convenientes. Não entendo porque os ônibus brasileiros tem uma altura de monster car. Com modelos mais baixos, as rampas para acesso a cadeirantes não precisam ser mecanismos hidráulicos complexos. Só uma rampa que pode ser aberta manualmente (uma prancha de madeira) e colocada até a parada resolve. Por aqui é assim: alguns ônibus mais modernos têm rampas automáticas, acionadas com um botão pelo motorista. Mas todos os outros tem essas rampas simples, que tornam o transporte acessível a todos.

Nem vou entrar no mérito do ar-condicionado. É absurdo que essa não seja uma exigência para todos os novos veículos incluídos na frota a partir da década de 1920. Bancos mais confortáveis não seriam má ideia, mas como prioridade, pregaria uma medida nos espaços públicos. Já passou da hora da proibição de fumar nos terminais, exceto em pequenas áreas específicas, marcadas no chão e com lixeiras para as infinitas bitucas que fazem o mundo mais feio. Porque mesmo em espaços abertos, os não-fumantes devem ser protegidos. E ninguém merece aqueles que dão uma última tragada já com o pé na porta e depois despejam a fumaça imunda já dentro do transporte.


Em uma visão mais utópica eu sempre me pego pensando na rua XV de Novembro de Blumenau – e tantas outras ruas de comércio importantes do Brasil - como um calçadão, talvez com o espaço compartilhado por bondes elétricos. Mas sei que isso está longe ainda. O que o brasileiro precisa entender é que vale a pena pensar no país como os países desenvolvidos pensam e que a cultura do carro é arcaica e burra. E pra fechar, que os comerciantes saibam que o que eles pensam hoje – que os clientes não irão mais as suas lojas se não puderem parar com o carro na porta – é a mais pura mentira: os holandeses que o digam. 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Dicas de convivência: franqueza alemã pode parecer grosseria, mas torna a vida mais fácil

Falso pudor: no Brasil, perguntar o salário desqualifica o candidato ao emprego

Já ouvi muita gente dizendo que alemão é mal humorado, grosso e carrancudo. Pode até ser algumas vezes, mas no geral, o que acontece é um choque cultural e a franqueza acaba sendo interpretada como rispidez. Vou simplificar a história. Escrevo esse post do Brasil, onde estou a trabalho, e confesso que já estava um tanto desacostumada a “malemolência” daqui e por isso o estranhamento começou cedo: já no café da manhã, lendo o jornal fresquinho.

Passei os olhos pelas páginas de classificados de emprego e veio o primeiro choque – fruto de muitos anos longe do Brasil: nenhum dos anúncios dizia de quanto era o salário. Isso me lembrou da hipocrisia local: é um pecado sem tamanho estar mais interessado no salário do que no trabalho a ser feito! Como assim? Eu gosto da minha profissão – amo ser jornalista, na verdade! – mas não teria o menor pudor em passar meus dias organizando e programando minha próxima viagem a um destino paradisíaco se dinheiro desse em árvore.

Eu trabalho pura e simplesmente porque preciso de dinheiro pra viver e mesmo assim, no Brasil, parece um crime querer saber a perspectiva salarial antes de decidir se me candidato ou não para uma vaga. Na Alemanha, se o salário – em valor anual bruto – não estiver especificado, virá um código de referência (especialmente em cargos do serviço público), dizendo quanto se vai ganhar: 70% do valor de referência XYWSX ou salário referência JKDCFKL. A renda líquida vai depender se a pessoa é solteira ou casada (quem casa paga menos!), em que categoria de imposto está incluída, quanto decidiu contribuir para a previdência, o tipo de plano de saúde (caro e obrigatório!) e por ai vai. Para não ser surpreendido, o ideal é calcular em média entre 30%  e 40% de desconto sobre o valor bruto.

Há ainda empresas que oferecem vagas em uma categoria salarial chamada 400 Euros Basis, em que quase não há descontos e o que varia é o valor da hora. Assim, a pessoa sabe o quanto vai ganhar e negocia o valor que receberá por hora: ou seja, o quanto ela vai trabalhar para ganhar os 400 euros por mês. Como esse tipo de emprego costuma ser bem maleável – pode-se fazer algumas horas na segunda de manhã, outras três na terça à tarde, folga na quarta e trabalha depois mais duas na quinta, por exemplo – é uma opção bem comum entre os estudantes, já que pode ser adequada ao calendário de aulas. Tudo com muita clareza.

A impossível arte de dizer não

Dizer não é outro tabu no Brasil. Tanto que muitas vezes deixo de perguntar o que quero só pra não constranger meu interlocutor. Um diálogo absolutamente normal na Alemanha: “Podes me dar uma carona? – Não, tenho um outro compromisso hoje”. Tudo normal, direto, sem culpas ou rodeios. No Brasil, eu jamais pediria: a pessoa vai ficar sem graça de dizer que não, talvez desvie o caminho para me dar a tal da carona e depois comente em casa o quão folgada fui em fazer o pedido.

A questão da negativa também vale para qualquer convite. Vim fazer uma série de reportagens no Brasil, todas previamente definidas e marcadas, com uma agenda apertada. As pessoas me ligaram oferecendo outras histórias – muitas vezes igualmente interessantes, mas fora do meu escopo e agenda. Agradeci e disse que não poderia: que ofensa! Brasileiros preferem ouvir que vou tentar ver se encaixo o compromisso na agenda, mesmo sabendo que isso não vai acontecer. O não ofende.

No entanto, o que me ofende muito mais é o inverso de dizer não. Já convidei amigos para um café, que me responderam sorridentes que sim, mas que não apareceram. Na Alemanha, a ofensa de “dar o cano” é incalculável, já a negativa é honesta, prática, evita falsas expectativas e facilita a vida de todo mundo.

Mas afinal de contas, tenho uma “grosseria” preferida. Para dizer não no Brasil, é preciso ter um arsenal de desculpas: todas tão mirabolantes que no fim sempre penso em escrever um livro sobre a aventura da pessoa. E entre os “sisudos”, é tão mais simples: obrigada, mas já tenho um outro compromisso nesse dia. E mesmo na hora de ir: Tchau, tenho um compromisso agora. Assim, sem qualquer adendo, sem qualquer informação adicional.

Creio que a franqueza gera confiança e a certeza de que um não é tão honesto quanto um sim. Por isso, quando conhecer um alemão, nunca se despeça dizendo: “A gente se vê! Eu te ligo! Vamos marcar um churrasquinho uma hora dessas”. Ele certamente vai pegar a agenda para anotar seu telefone, avisar quando vai ligar e verificar se estará livre para essa noite de carnes e cervejas. E pode ter certeza: mesmo que ela seja daqui a um mês, a pessoa vai estar lá e vai chegar na hora certa. Isso se chama respeito e não grosseria.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Alemanha de A a Z: um guia prático para entender a terra dos castelos, da batata e da cerveja


Um guia prático para entender esse país cheio de regras, peculiaridades e consoantes. Uma coleção de verbetes com experiências, muito achismo e nenhum rigor científico: experiências somadas no cotidiano de um país com uma aura tão indigesta quanto repolho azedo com joelho de porco cozido, mas que se revela um local seguro, prático e até divertido de se viver.

Atenção: a reprodução desse texto ou suas imagens em qualquer outro veículo midiático – incluindo blogs ou sites só é permitida a partir de consulta prévia. Caso queira compartilhar, publique o parágrafo acima e inclua um link para o post original.



Alemanha – O país coleciona ódios e amores na mesma proporção. Bom, não exatamente. A liderança econômica da Alemanha na união europeia coloca o país – e em especial a chanceler Angela Merkel – no centro das críticas pela crise econômica. Não raro a governante é retratada como nazista, embora dentro do país goze de prestígio (demonstrado nas urnas nas últimas eleições). Más línguas dizem que a Alemanha conquistou com a economia e com a criação da EU aquilo que o Nazismo almejava e fracassou. Críticas à parte, é o país de um povo ordeiro e que tenta superar as marcas do passado. Uma economia de índices fortes apesar da crise e um lugar onde se vive com estabilidade e segurança.



Berlin – É capital alemã desde a reunificação, em 1991 (antes era a capital da Alemanha comunista – a DDR e Bonn era da Alemanha “Ocidental”, a BRD) e uma das cidades mais cosmopolitas da Europa. Apesar dos seus 4,4 milhões de habitantes, é um lugar relativamente tranquilo e seguro. O sistema de transporte de Berlin é certamente um dos mais eficientes do mundo – embora quem viva lá não se conforme com os 10 minutos de atraso dos trens que cruzam a região metropolitana. Tem lugares lindos mas, como um todo, não é exatamente o modelo europeu de beleza. Berlin encanta por ser história viva: a guerra, o muro, a divisão das Alemanhas transformam a capital germânica na cidade mais rica em história de todo o país. Imperdível.



Cerveja – A Alemanha pode até não ser o maior consumidor mundial de cerveja (com 143 litros por pessoa a cada ano, tchecos ocupam essa posição, seguidos dos austríacos, com 108). Os alemães estão em terceiro, com a média de 107 litros por pessoa por ano. No Brasil, que ocupa a 17ª posição, são 62. Mas as cervejas produzidas na Alemanha garantem a fama internacional. Existem incontáveis marcas produzidas por 1274 cervejarias registradas. Fora quem faz em casa. Os tipos variam muito, mas para serem chamadas de cerveja, todas devem seguir a lei de pureza na fabricação, a Reinheitsgebot. Somente água, malte, lúpulo e fermento podem ser usados no fabrico. Comparando as cervejas alemãs do tipo Pils com as brasileiras – que são quase sempre dessa categoria – fica fácil diferenciar: as cervejas alemãs são mais “fortes”. Tem um sabor mais marcante de malte e uma variação grande na lupulagem. São servidas um pouco menos geladas que no Brasil para que se possa apreciar o sabor em todas as suas notas.



Domingo – Todo sábado parece que o país está às vésperas de uma guerra, especialmente nos supermercados. No domingo – com raríssimas e recentes exceções nas cidades maiores – NADA abre no país. Não tem mercado, não tem loja, não tem shopping aberto. Padarias fazem plantão em sistema de rodízio, como as farmácias. Cada final de semana é uma que “faz o favor” de abrir em um determinado horário para vender. Mas as portas abertas são por pouco tempo. É melhor planejar o domingo com antecedência, fazer a lista de compras bem completa para não faltar nada.



Educação – O sistema de educação alemão causa estranhamento em quem chega. No final do que seria a quarta série no Brasil, os professores dividem os alunos em três grupos: os mais inteligentes, estudiosos e com boas notas; os intermediários, e os mais “fracos”. Cada grupo segue para uma escola diferente. Os “espertos” vão para o Gymnasium, onde serão preparados para entrar na universidade. Os do meio, passam a frequentar a Real Schule, que acaba mais cedo e conduz, geralmente, a um curso técnico ou a um curso superior do tipo tecnólogo. Já os “burrinhos” são encaminhados para a Hauptschule, onde recebem um ensino elementar e são encaminhados cedo para cursos profissionalizantes em áreas de ocupações menos especializadas: jardineiros, zeladores, padeiros, condutores de ônibus e afins. Isso porquê, na Alemanha, até para assentar tijolos em uma obra é preciso um curso técnico. Geralmente são três anos de preparação para qualquer atividade.



Feiras de Natal – As celebrações de Natal na Alemanha são pura magia. Em todas as cidades são organizados mercados que vendem comidas típicas do inverno e o tradicional vinho quente temperado com especiarias, o Glühwein. O cheiro da bebida se soma com as amêndoas carameladas, a neve e todos os cantos parecem cenário de filme. Sem exagero. É lindo demais. Já o réveillon, Silvester, como se diz aqui, é o oposto disso. Algumas cidades fazem queima de fogos, mas no geral, são apenas as pessoas que levam seus fogos para a beira de um rio, se houver. Alias, os espaços tradicionais são verdadeiras praças de guerra: o cenário é apavorante, com bombas e rojões explodindo por todos os lados. Isso porquê os fogos são proibidos no país o ano inteiro e só podem ser comprados e usados nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. Ou seja: são 48 horas para dar vazão a todo o fetiche bélico de um país inteiro. Além disso, o frio espanta qualquer ânimo. Pode ser divertido passar na rua, mas é preciso ter um programa para depois, porque meia hora depois da virada a multidão já estourou seus fogos, deixou toneladas de lixo para trás e se dispersou. Abaixo de zero, só mesmo com um bar quentinho pra comemorar!



Geração de energia – A Alemanha vive de energia termoelétrica (do carvão) e nuclear, mas está trabalhando duro em um plano ambicioso: mudar sua matriz até 2020. Muito tem sido feito e já se pode escolher comprar energia de fontes renováveis. Placas solares e turbinas eólicas estão espalhadas no país inteiro e isso não sai barato. No entanto, quem vive aqui aceitou pagar o preço de cuidar do meio ambiente. Além da energia, alemães consideram a separação do lixo quase uma religião. Veja o verbete Lixo.



Hauptbahnhof – Cada cidade tem a sua estação central de trem, que interliga os mais distantes recantos do país. A malha ferroviária alemã é de dar inveja. As conexões são geralmente precisas: é normal ter-se apenas três ou quatro minutos para trocar de um trem para o outro. Por isso qualquer atraso é catastrófico. Mas tem pra quem se queixar e as queixas são ouvidas. Mais de 60 minutos de atraso significa receber dinheiro de volta. Quem vive aqui reclamaconstantemente da Deutsche Bahn, mas quem vem de fora geralmente elogia: os serviços são bastante organizados em comparação a outros países, mas se paga bem mais caro por isso. Um cálculo bom (mas não preciso!) é saber que cada hora de trem custa aproximadamente 10 euros quando os tickets são comprados com antecedência. Se comprar na hora, pode ser o dobro disso. Existem muitas formasde economizar e encontrar tickets mais baratos.



Imigrantes – Estatísticas de 2011 apontam que 19,5% da população total alemã (81,75 milhões de pessoas) é imigrante ou descendente de imigrantes.  Mas em muitas cidades a sensação é de que esses números são bem mais altos. Turcos são a larga maioria. Oficialmente, 1,575 milhão no final de 2012. Mas é preciso levar em conta que as novas gerações – filhos e netos dos turcos que imigraram no pós-guerra para trabalhar na reconstrução do país - já são nascidas na Alemanha e, portanto, alemães. Poloneses aparecem em segundo na lista: 532 mil. São seguidos dos italianos (529 mil), gregos (298 mil), croatas (224 mil) e romenos (205 mil). Brasileiros são muito menos, mas ainda assim 34.945 estão registrados no país. Essa mistura cultural pode ser vista no rosto das pessoas, na lojas de todas as nacionalidades, nos bairros de imigrantes. Mas nem tudo são flores e, mesmo com um passaporte alemão na mão, estrangeiro será para sempre estrangeiro.



Joaninha – Elas são símbolos de boa sorte aqui na Alemanha. Mas se você morar perto de um parque ou tiver um jardim grande, podem bem ser um azar! No final da primavera e começo do verão elas surgem aos milhões e não raro você passeia por um jardim e escuta um barulho “crocante” sob os pés... das joaninhas que vai amassando involuntariamente pelo caminho.



Kirche ou Kirsche – Igreja ou cereja? Alemão é mesmo um idioma complicado. Complicadíssimo. Mark Twain já dizia que "A vida é muito curta para aprender alemão", mas aprender o idioma é a principal chave para a integração. Costumo brincar que a universidade pode ser em inglês, mas a vida real segue sendo em alemão mesmo. Fora isso – e de volta a cereja! – a frutinha toma conta dos mercados no verão e faz o inverno todo ter valido a pena.



Lixo – Separar o lixo é o verdadeiro esporte nacional da Alemanha. E é bom fazer isso direito antes que um vizinho carrancudo apareça na porta pra dizer que você separou isso ou aquilo errado. Existem toneis de coleta de lixo reciclado nas casas ou em algum local próximo. Sempre. Então, o negócio é memorizar a cor dos contêineres: azul é para papel; amarelo para embalagens pequenas e metais; marrom é para lixo orgânico e o preto para o que não se pode reciclar. Vidro é separado por cor: há um contêiner para o transparente, outro para o marrom e outro para o verde. Até hoje não sei o que fazer com garrafas azuis e, por via das dúvidas, deixo de decoração em casa.



Mau humor – Eu não diria que os alemães são necessariamente mau humorados. Prefiro dizer que tem um senso de humor peculiar, diferente do brasileiro. É uma questão de costume. Tem gente que acha que sinceridade é grosseria e por isso acha que todo mundo na Alemanha é mal educado. Eu acho a vida mais simples. Se você recebe um convite e não pode ir, diz que não e pronto. Não promete e depois falta. Essa sinceridade quase em excesso é parte da personalidade do país e ajuda a construir a má fama. Claro que tem momentos em que a paciência some, especialmente naquelas temporadas de chuva, quando para sair na rua é obrigatório vestir uma cara azeda. Mas ai vem o sol... ah, o sol. E o humor muda e a vida segue.



Nazismo – Esse é um tema proibido. Nunca, jamais faça qualquer piada sobre o assunto. Não fale sobre a guerra em uma festa. Os alemães carregam até hoje uma culpa e uma vergonha muito grande pelo Nacional Socialismo e o assunto sempre transforma os humores. A questão é tão tabu que beira a paranoia. Por aqui, ter uma bandeira da Alemanha é algo mal visto: só pode na Copa. Ter orgulho do país ou de ser alemão também são valores que remetem ao fascismo. Os neonazistas só contribuem para entornar ainda mais o caldo.



Ordnung – Esta é a palavra que melhor resume a Alemanha. Para tudo existe uma regra, uma norma, uma lei. Para cada coisa que se queira fazer há um uniforme específico e um manual. Para a vida funcionar é preciso seguir todas as regras. Isso mantém o Ordnung, a ordem, traz estabilidade e faz a vida de todo mundo mais fácil. Bom, esse é o pensamento alemão. Nesses anos de Alemanha acabei aprendendo que o Ordung é, na verdade, o antônimo do jeitinho: se no Brasil sempre se acha uma maneira de contornar a situação e levar vantagem dela, aqui a mesma regra vale para todos e não adianta espernear.



Pontualidade – Chegar atrasado é um crime. E deveria ser no mundo todo! Marcar com alguém e fazer a pessoa esperar é o mesmo que determinar que o seu tempo vale mais do que o tempo da outra pessoa. Tirando a empresa de trens, que já foi muito pontual em outros tempos, todas as coisas seguem o ponteiro à risca. Se for se atrasar mais do cinco minutos, é bom mandar uma mensagem ou ligar avisando. Isso vale para o trabalho, para o compromisso com os amigos, para a universidade. Um amigo disse uma vez que a precisão é tão importante para os alemães que deve ser por isso que eles dizem os números de forma invertida: primeiro a unidade e depois a dezena! Só pode!



Qualidade – Se o orgulho de ser alemão é algo negativo para as pessoas, a relação com os produtos é inversa. Regras de controle de qualidade rígidas e consumidores exigentes deixam poucas queixas em relação a qualquer coisa feita no país. Isso vale até mesmo para os supermercados mais baratos – os discounter, tipo Lidl, Netto, Aldi, Norma. Até os produtos de marca branca, vendidos com exclusividade por determinada rede, tem boa qualidade e podem ser comprados sem medo. São muito mais baratos e não decepcionam em geral. Se tiver dúvida, consulte as etiquetas dos testes de qualidade, que são exibidas com orgulho pelas marca. Gut ou Sehr Gut estampados no fundo branco com o nome dos institutos são a certeza de levar pra casa coisas boas e, na maioria das vezes, sem ter que pagar mais caro por isso.



Religião – Dizem que a antiga Alemanha comunista é o lugar mais sem Deus do mundo. Isso por conta dos índices elevados de ateísmo nos estados que antes formavam a DDR. Mas esse fenômeno, que se repete em menor escala na “outra” Alemanha, tem um componente econômico importante: o imposto descontado direto na folha de pagamento para quem professa uma religião. Os valores variam conforme a renda, em uma conta que não sei definir como é feita. Mas chegam perto dos 100 Euros por mês pra quem ganha entre mil e dois mil. Por isso muita gente que pede benção pra avó se declara ateia na Alemanha. Quem paga justifica que o valor é usado para a conservação das igrejas que são verdadeiros museus e que financia muitas ações de caridade e mesmo bolsas estudantis oferecidas pelas organizações religiosas. Quem declarou e se arrepende depois da chegada do primeiro contracheque precisa ir a prefeitura e fazer uma papelada enorme em que “renuncia a fé”.



Salsicha – Existem estimados mil e quinhentos tipos de salsichas na Alemanha e, claro, eu devo conhecer uns 40, chutando alto. Cada cidade tem sua especialidade, seu jeito de preparar, sua receita secreta. Basicamente é assim: tira a tripa de dentro do porco e coloca o porco moído e temperado dentro da tripa. Duas salsichas, no entanto, são facilmente encontradas no país todo. A Bratwurst da Turíngia, que tem entre 30 e 40 cm, uns 3cm de diâmetro e é servida assada em um pão minúsculo com mostarda. A outra é a Currywurst, o prato típico de Berlin. A tenda do Curry 36, que fica na capital, é considerada por muitos a melhor, mas é possível achar boas opções na Alemanha inteira. Lembra (bem de longe!) a salsicha de cachorro-quente do Brasil, assada na grelha, cortada em rodelas e servida com um catchup temperado e curry em pó no topo. A descrição pode não ser convidativa, mas uma visita ao país não está completa sem provar a iguaria.



Teimosia – A minha cidade, Blumenau, em Santa Catarina, foi fundada por alemães e ainda abriga muitos descendentes. Por lá a gente usa um ditado mais ou menos assim: “Alemão não é teimoso. Teimoso é quem tenta discutir com alemão”. Bom, de algum lugar isso saiu. Eu já cai na besteira de discutir ou tentar argumentar algumas vezes por aqui e, depois de alguns anos de sofrimento, fica a dica: nem comece.



Universidade – A Alemanha tem internacionalizado suas universidades cada vez mais. Depois do tratado de Bolonha, especialmente. Com o fim dos cursos superiores chamados de Diplom (mais extensos que um bacharelado no Brasil e já com a equivalência do título de mestrado), passaram a pipocar mestrados internacionais no país. Ou seja: cursos em inglês gratuitos em todas as áreas, embora os bacharelados sejam em alemão (com raríssimas exceções). O ensino superior na Alemnha é gratuito. São poucas as faculdades privadas e é possível escapar delas com boas opções públicas. O que se paga por aqui é uma taxa de matrícula semestral – entre 150 e 300 euros, conforme a cidade – que já inclui o ticket para o transporte local. Então, para quem planeja arriscar um voo solo no exterior para uma especialização, a Alemanha é o caminho mais fácil, já que não é preciso entrar na briga por bolsas de estudo.



Verão – Dias que amanhecem as 3h30 e anoitecem depois das 22h. O mês mais aguardado do ano, sem dúvidas. Sim, o mês: porque o verão por aqui não é exatamente uma estação inteira. Sair de casa com os braços de fora e nem pensar em levar um casaquinho (mesmo que leve) é raridade. E nesses dias de “raridade”, os 30 graus parecem ser 40. As casas, as cidades, os transportes: nada épreparado para o calor. Em alguns Estados, quando os termômetros passam dos 30 graus as aulas são canceladas. Mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Para quem trabalha, o jeito é driblar a massa quente com ventiladores e esperar. A única certeza é que o calor dura muito pouco.



Xenofobia – Esse é um assunto sério no país. A xenofobia existe sim e é um problema grave. E não é apenas contra um grupo étnico distinto: é contra todo mundo que não é alemão. Antes que eu seja execrada, quero dizer que sim, existe uma grande maioria de alemães que convive perfeitamente com um país internacionalizado. Mas se você é estrangeiro, mesmo que fale a língua e seja loiro e de olhos azuis vai enfrentar problemas (em maior ou menor escala) em algum momento. Isso vale para empregos, para amigos, para a simpatia no atendimento, para resolver os problemas. Mas vale muito na hora de alugar casa: como estrangeiro, mesmo tendo emprego, grana e afins, é sempre mais difícil conseguir um apartamento. Uma vez que os imóveis aqui não são de quem chega primeiro – ocorre sempre um tipo de entrevista e todo mundo vai arrumado ver casa – os alemães acabam sempre tendo a preferência.



Zelador – O zelador do prédio será o seu melhor amigo aqui na Alemanha. É quem arruma a torneira com vazamento, o chuveiro que tem cal (sim, porque a água é muito alcalina e vai entupindo tudo com o tempo). Se você morar em um condomínio estudantil, esses serviços costumam estar incluídos. Se não, leia com atenção o contrato. Tive um problema sério com isso. Apareceu uma mancha de mofo na minha parede na época em que vivia em Berlin em um apartamento térreo – e isso é uma coisa séria e que precisa ser resolvida o quanto antes – e a administradora do prédio disse que o zelador passaria lá para resolver. Eu disse que não precisava, que eu mesma faria. Já tinha aprendido com o zelador do prédio anterior que a única coisa que resolve esse problema é um spray anti mofo que vende nas lojas de material de construção, para uso profissional. Os do mercado não valem nada. Enfim: o homem foi lá, jogou o spray, esperou três minutos, secou com um pano e foi embora em menos de dez minutos. Veio a conta: 65 euros.



... – Essa é a primeira “amostra grátis” do Alemanha de A a Z. A ideia é continuar escrevendo sobre os mais diferentes aspectos do país. Por isso, se gostou, comente. Se não gostou, comente também. Sugestões de novos verbetes são sempre bem vindas. É só deixar um recado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Pelo fim das sacolas plásticas: o Brasil pode virar “gente grande”!


Com tantas outras causas maiores para discutir, o Brasil está indignado com a política de os supermercados não distribuírem mais sacolas plásticas. Confesso que esperava bom senso de muita gente que está reclamando sobre o assunto. A minha timeline do Facebook está povoada de objeções de todos os tipos.  Fala-se desde teorias da conspiração de indústrias de plástico para faturar mais até a sugestão absurda de exigir que os mercados – que já teriam embutido o preço das embalagens nas mercadorias – distribuam sacolas de papel no lugar das plásticas. Eu acho que as coisas no Brasil custam caras, muito caras, mas esta última ideia é, de todas, a coisa mais absurda que já li: parar de oferecer plástico por uma questão ambiental e ai cortar um montão de árvores para oferecer os sacos de papel... Até agora, todos os argumentos contrários ao fim das famigeradas sacolinhas que eu li foram o resumo de uma visão meio simplista.

Campanha pedindo sacolas de papel: uma das coisas mais absurdas que li recentemente

Aqui na Alemanha faz muitos anos que todo mundo paga pelas sacolas plásticas, paga-se também pelas garrafas pet (e é caro! Em média, 25 centavos de euro por cada vasilhame, mas se recebe o dinheiro de volta com a devolução os "cascos"). Essas duas medidas simples tornam o volume de lixo é muito menor e a diferença é visível por toda a parte: não há lagos e rios cheios de garrafas ou sacolinhas jogadas com um punhado de lixo nos barrancos.  

Por aqui, cada sacola custa entre 10 e 25 centavos de euro, dependendo do tamanho e da qualidade. Existem as especiais também (e mais caras): de papel, especiais para conservar alimentos frios e as reutilizáveis, de algodão cru, vendidas no caixa de todo e qualquer mercadinho.  A maior diferença é que você passa a usar as sacolas com mais parcimônia: no Brasil, o empacotador (nem vou entrar na celeuma de discutir sobre isso!) coloca duas ou três sacolas, uma dentro da outra, para que o cliente leve até a porta do carro, estacionado no pátio do mercado, meia dúzia de coisas, que por sua vez já estão dentro de outros sacos (como as frutas) ou embalagens.

Há quem defenda que essas sacolinhas são reaproveitadas para armazenar o lixo doméstico, mas eu discordo desse argumento com uma simples observação. Todo mundo no Brasil tem em casa muito mais sacolinhas do que precisa para usar no lixeiro, além de jogar a maioria delas fora porque rasgaram no caminho, molharam... Além disso, na verdade, a maioria das pessoas já compra sacos de lixo (e coloca dentro de uma sacolinha pra levar o saco com os sacos para casa!) e coloca o lixo nas sacolinhas e as sacolinhas no saco. São raros os que não fazem assim.

Só pra completar: na Suíça, o morador paga uma verdadeira fortuna pelos sacos de lixo comum e recebe de graça os sacos (de cores diferentes) para os reciclados. O lixo comum só é recolhido pelo serviço de limpeza quando armazenado nos sacos que tem o logo da cidade. Sabe por quê? A taxa de cobrança de lixo está embutida do preço dos sacos de lixo não reciclado: quanto mais você produz, mais paga. Se reciclar, produz muito menos e paga bem menos. Mas claro que o Brasil ainda esta a anos-luz de alcançar uma situação como essa. Mas o exemplo não deixa de ser válido.

Voltando ao tema principal desse post.  Eu sou completamente a favor da cobrança pelas sacolinhas: é uma mudança cultural e por isso encontra tanta resistência. Mas no fim das contas, quando se aprende a conviver com as novas regras, as melhorias são evidentes.  É uma mostra de que o Brasil está amadurecendo e só posso ver com bons olhos tal prática. E digo mais: tomara que passem a cobrar pelo "casco" dos PET também. Assim todo mundo devolveria no mercado, o percentual de reciclagem seria muito próximo de 100% e todos saem ganhando.

O que mais me deixa chateada em ver os comentários esbravejando contra o fim das sacolas é a falta de compreensão quanto ao entendimento da essência da medida. A ideia não é fazer ninguém pagar duas vezes - e nem um complô de indústria alguma: o ponto básico é desestimular o uso de sacolas. Parece que as pessoas não entendem é que ninguém precisa pagar por elas: é só levar as suas sacolas ecológicas de casa e pronto. E neste caso, aposto que vai ter muita instituição social, clube de mães e tudo o mais vendendo sacolas ecológicas de todos os tipos, cores e tamanhos. Eu uso as mesmas há 3 anos e meio aqui. E uso todas as vezes que vou ao mercado. Simples assim: não cai nenhum dedo, não falta sacola em casa (já que compro sacos – bem baratos! – do tamanho ideal para cada necessidade ou uso as sacolas que por ventura aparecem dando bobeira, já que as lojas, livrarias e tantos outros estabelecimentos continuam fornecendo sacolinhas o suficiente para suprir a demanda da casa!).

Uma coisa precisa ficar clara e é exatamente isso que as pessoas parecem não enxergar ou não querer entender:  as mesmas pessoas  que publicam quadrinhos de “salvem os animais” ou se julgam politicamente corretas. Fica dito:  a cobrança das sacolas deve ser encarada não como um pagamento duplo, mas como um tipo de "multa" para quem não levou as suas próprias sacolas... Trata-se de uma mudança de atitude e não há razão para questionar algo tão positivo.  

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Lá e cá: impressões sobre um Brasil que poderia ser melhor

Já estou instalada em Berlin e até já recebi visita. De certa forma, isso significa estar em casa e adiciona mais uma linha ao meu repertório de não saber mais onde é meu lugar. Considerando apenas as primeiras impressões, diria que meu lugar é nesta cidade grande e cinzenta, mas ao mesmo tempo acolhedora. Mas as primeiras impressões são perigosas e esse post é pra falar exatamente disso: das primeiras impressões que tive, mas não aqui e sim quando cheguei no Brasil.

Já falei aqui das diferenças entre um e outro país e as vantagens de cada um deles. Mas preciso adicionar alguns itens que ficaram de fora da lista, esquecidos na época pelos três anos que fiquei longe dos trópicos ou pelo romantismo que nos invade com a distância. Vamos a eles, então. E depois disso, prometo que não falo mais de Brasil e volto a dedicar esse espaço às aventuras pela Nave Mãe.

Em primeiro lugar é preciso que seja dito: o Brasil é um país extremamente barulhento. Nos meus primeiros dias achei que ia ficar maluca e, volta e meia, precisava correr para o quarto, fechar a porta e ficar cinco minutos em silêncio. A regra brasileira é: você chega em casa e liga a televisão, de preferência em um volume ensurdecedor e então começa a conversar com as pessoas que estão em volta em um volume ainda mais alto. Some isso a mães aos berros com crianças, carros buzinando, ônibus com motores a diesel que parecem turbinas de avião e os malditos carros de som com propaganda até mesmo nas ruas mais pacatas e longe do centro da cidade.


Vamos somar a essa lista o problema dos brasileiros com o relógio: alô, pontualidade mandou lembranças! Eu entendo que tem trânsito, que o ônibus não funciona direito... mas eu não entendo você marcar as 10 e a pessoa chegar as 10h45 achando que está tudo perfeitamente em ordem. SMS, telefone? Oi! Ou marca mais tarde de uma vez... Meu tempo vale tanto quanto o seu! E nesse item tem ainda algo pior: a pessoa telefona, marca o compromisso – que pode ser o de ir na sua casa, sair ou uma festa –, confirma e não aparece. Alo???

Tem também quem aparece demais. Aparece sem avisar. E pode me chamar de chata a essa altura do post: se estiver sem paciência, agradeço a leitura até esse ponto e convido para voltar no próximo post, já que vou reclamar mais um pouco por aqui. Neste período de férias eu trabalhei em um jornal de Blumenau, o Santa, como colunista, durante a Oktoberfest (você pode ler as colunas aqui), mas produzia meu material de casa. Assim, mesmo em casa, eu estava trabalhando (como sempre fiz aqui na Alemanha) e, para a grande maioria do mundo, estar em casa é folga: a pessoa chega na sua casa para fazer uma visitinha espontânea e não se dá ao trabalho de perguntar se você pode recebê-la naquele momento. Quer me visitar de surpresa? Hmmmm... tá, ok. Mas liga 10 minutos antes e pergunta se eu tô de saída ou com rolos na cabeça. Juro que vou fazer o possível pra receber quem eu gosto e ainda passar um café fresco pra tomar com o visitante.

E tem a última reclamação. O Brasil é um país caro, caríssimo. Alguém pode me explicar a barbaridade que são os preços de tudo e qualquer coisa nas lojas e no supermercado? Fora as frutas (hmmm, que delícia) e a carne bovina, tudo é muito mais barato na Alemanha, mesmo em tempos de Euro carinho. Produtos da cesta básica, material de limpeza, leite, queijo, enfim... tudo. Fiquei chocada com os preços.

Além disso, paga-se muito caro e a qualidade é pouca. A diferença maior entre qualquer coisa que encontro aqui na Alemanha e no Brasil está na qualidade. E isso vale para bens duráveis ou de consumo. Vale também para os serviços, as obras, a educação. Os dois mundos não são tão diferentes, mas o diabo mora nos detalhes. Não se trata de falar mal do Brasil o post inteiro (tá, eu acho que fiz isso!), mas de mencionar as sutilezas e as lapidadas que fariam dessa terra rica, linda e cheia de alegria um lugar ainda melhor pra se viver.

E que fique claro: estou feliz e empolgada com essa Berlin cheia de encantos, mas já estou morrendo de saudades do Brasil.

Ps.: A foto que ilustra o post foi "emprestada" daqui.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Acorda lobinho!!!!!!!

O lobinho já acordou. Vamos deixar que ele descanse em paz agora, neh! :)

Afinal, não quero ser eu a "a PISTOLEIRA que destruiu a tua vida"



Fica a moral da história: Nunca deixe de ler um release até o final!!! ehheehhehehehe
de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel