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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Doutorado na Alemanha: passo-a-passo para conseguir uma vaga, um orientador e uma bolsa de estudos

Bremen: clima ruim, mas uma boa universidade em uma cidade charmosa

Fazer doutorado na Alemanha pode ser uma grande vantagem, uma vez que o ensino por aqui é gratuito, salvo as poucas universidades privadas do país ou alguns cursos muito específicos. O dinheiro do financiamento que se recebe serve para pagar as despesas de moradia e subsistência. Além disso, para os padrões europeus, a Alemanha (exceto do Sul!) é um país bem barato. Esse post detalha os passos para quem pensa em fazer doutorado por aqui. Por isso, antes de enviar qualquer pergunta, leia atentamente.

É preciso dizer que para os brasileiros ficou ainda mais fácil chegar ao doutorado com as bolsas do programa Ciência sem Fronteiras (CsF). Antes, a seleção toda dependia de um convênio entre Capes/Cnpq/Daad, com chamadas anuais e que, em média, concediam cerca de 60 bolsas de doutorado pleno. Essas bolsas ainda existem e contemplam também áreas que estão fora do CsF.

É possível participar dos dois processos seletivos ao mesmo tempo. Uma coisa é independente da outra. Se a sua área não for diretamente engenharias ou computação, fique atento a uma área do CsF que se chama Indústria Criativa: uma série de projetos de moda, design, comunicação e outras áreas distantes da engenharia encontram abrigo ai e, com isso, podem se encaixar no escopo do programa.

Quanto a língua, é preciso ter proficiência pelo menos em inglês. Obviamente não dá para chegar no país sem se comunicar com o professor e sem ter uma língua de trabalho. As universidades aceitam Toefl ou Ielts, além de outros exames de proficiência. As duas bolsas (Capes/Cnpq/Daad e CsF oferecem curso de alemão por um período de um a seis meses antes do início da bolsa, conforme a necessidade do aluno). Para estudar em alemão, exceto na área de Direito, onde a exigência de língua é maior, é preciso ter o TestDaf ou o DSH2 equivalentes ao avançado (C1). No período do curso de alemão recebe-se moradia (indicada pela escola de alemão), curso e uma ajuda de custo financiada pelo Daad. A bolsa de doutorado propriamente dita inicia depois do curso de alemão.

Os tipos de doutorado

Em primeiro lugar é preciso ainda decidir o que se quer fazer aqui: um doutorado integral (de três a quatro anos) ou sanduíche, que é um ano fora quando já se está matriculado no doutorado em alguma universidade brasileira. Se o doutorado for integral, existem quatro possibilidades. O site do Daad também tem dicas importantes.

Programa de doutorado: são raros na Alemanha. São cursos de doutorado como no Brasil, com cadeiras estruturadas, para os quais deve se fazer a inscrição no processo seletivo diretamente na universidade, observando as exigências, datas e prazos de cada uma. Mas note bem: nunca conheci ninguém que fizesse doutorado assim aqui.

Posição de pesquisador: Para essa você não precisa ter uma bolsa. Trata-se de um contrato de trabalho como assistente de pesquisa em uma universidade, geralmente em algum projeto pré-existente. Nesse período de trabalho, o doutorando desenvolve sua pesquisa em paralelo, geralmente relacionada ao projeto em que trabalha. Muitas universidades europeias oferecem posições assim e é fácil encontrar vagas nesse site, nesse e nesse outro ainda.

Doutorado em empresa: Um professor doutor vinculado a alguma universidade orienta o estudante durante uma pesquisa feita diretamente na indústria, com objetivos práticos relacionados a empresa que remunera o doutorando.

Pesquisador livre (Promotion): É a modalidade mais comum de doutorado por aqui. É um acordo entre o professor e o aluno e as regras são estabelecidas nessa relação. São as vagas mais fáceis de se conseguir e as que funcionam melhor junto com o financiamento das bolsas brasileiras. Segue uma explicação mais detalhada de como funciona o acordo.

Como encontrar uma universidade e um orientador

Escrevo como foi a minha abordagem, mas podem existir outras maneiras: a parceria entre universidades, um professor como contato, etc. Bem, fiz sozinha um projeto inicial do que me interessava trabalhar no doutorado e procurei, na Alemanha toda, professores que pesquisassem o tema. A grande maioria tem o curriculo on-line. Observe sempre que para doutorado tem que ser uma Universität (e não uma Hoschule ou Fachhoschulle, que são técnicas!) e obviamente o professor tem que ser doutor (há professores que não são por aqui).

Depois dessa busca, selecionei doze professores que poderiam me orientar e enviei a eles um email me apresentando, falando da minha ideia de pesquisa (dois parágrafos, não mais! Para ter certeza de que leriam!) e dizendo que não estava procurando bolsa, já que poderia contar com financiamento de bolsa do Brasil. Dos 12, um disse que tava se aposentando, outro sugeriu um colega mais na área e DEZ disseram que aceitariam me orientar e pediram para mandar mais detalhes de projeto, curriculo, minhas notas, etc.

Na sequência, dei uma melhor selecionada pela universidade, pela região que queria morar e então agradeci os demais e escolhi um. Esse professor te da uma carta de aceite: nela ele diz que, caso você consiga a bolsa, ele aceita ser o teu orientador. Isso basta para se inscrever nos editais. Ai é torcer para que o projeto esteja bem feito e que seja aprovado pelo comitê de seleção das bolsas no Brasil.

Já com a bolsa, a matrícula na universidade

O segundo passo é dentro da universidade alemã: o professor vai sugerir ajustes no projeto (ou não!) e vai encaminhar ao PhD comitê da universidade. Esse comitê se reúne três ou quatro vezes ao ano, não mais. Esse comitê avalia o projeto e diz se o aluno pode ou não se matricular, se terá ou não que cursar disciplinas como formação complementar.

Caso seja negado, nada de desespero: é preciso refazer ou ajustar o projeto para a próxima reunião. Isso não é um problema para a bolsa: uma carta do seu professor dizendo que você já está trabalhando é o bastante para que os pagamentos sejam efetuados. Depois da aprovação do comitê, você é autorizado a se matricular como PhD Candidate na universidade (algumas faculdades têm uma modalidade especial de matrícula que é de Perspective PhD Candidate: isso permite a matrícula de quem ainda está fazendo os ajustes no projeto, por exemplo, mas garante benefícios de estudante e visto enquanto ainda está aguardando a aprovação do comitê).

A forma como se vai trabalhar - se o aluno vai ter uma sala na universidade, se vai usar a biblioteca, se vai trabalhar de casa - é definida entre aluno e professor, bem como a periodicidade dos encontros. As regras podem variar um pouco em cada universidade, assim como a lista de documentos exigidos para a matrícula, prazos e afins. Mas em um resumo bem geral é assim que funciona o processo.

Outras bolsas de estudo para brasileiros

Mas as bolsas para doutorado não se resumem a Capes/Cnpq/Daad e CsF. Brasileiros podem se candidatar a uma série de outros financiamentos oferecidos por instituições alemãs e internacionais. Mas ai, nada como usar o bom e velho Google, né! :)



sábado, 8 de fevereiro de 2014

Dicas de convivência: franqueza alemã pode parecer grosseria, mas torna a vida mais fácil

Falso pudor: no Brasil, perguntar o salário desqualifica o candidato ao emprego

Já ouvi muita gente dizendo que alemão é mal humorado, grosso e carrancudo. Pode até ser algumas vezes, mas no geral, o que acontece é um choque cultural e a franqueza acaba sendo interpretada como rispidez. Vou simplificar a história. Escrevo esse post do Brasil, onde estou a trabalho, e confesso que já estava um tanto desacostumada a “malemolência” daqui e por isso o estranhamento começou cedo: já no café da manhã, lendo o jornal fresquinho.

Passei os olhos pelas páginas de classificados de emprego e veio o primeiro choque – fruto de muitos anos longe do Brasil: nenhum dos anúncios dizia de quanto era o salário. Isso me lembrou da hipocrisia local: é um pecado sem tamanho estar mais interessado no salário do que no trabalho a ser feito! Como assim? Eu gosto da minha profissão – amo ser jornalista, na verdade! – mas não teria o menor pudor em passar meus dias organizando e programando minha próxima viagem a um destino paradisíaco se dinheiro desse em árvore.

Eu trabalho pura e simplesmente porque preciso de dinheiro pra viver e mesmo assim, no Brasil, parece um crime querer saber a perspectiva salarial antes de decidir se me candidato ou não para uma vaga. Na Alemanha, se o salário – em valor anual bruto – não estiver especificado, virá um código de referência (especialmente em cargos do serviço público), dizendo quanto se vai ganhar: 70% do valor de referência XYWSX ou salário referência JKDCFKL. A renda líquida vai depender se a pessoa é solteira ou casada (quem casa paga menos!), em que categoria de imposto está incluída, quanto decidiu contribuir para a previdência, o tipo de plano de saúde (caro e obrigatório!) e por ai vai. Para não ser surpreendido, o ideal é calcular em média entre 30%  e 40% de desconto sobre o valor bruto.

Há ainda empresas que oferecem vagas em uma categoria salarial chamada 400 Euros Basis, em que quase não há descontos e o que varia é o valor da hora. Assim, a pessoa sabe o quanto vai ganhar e negocia o valor que receberá por hora: ou seja, o quanto ela vai trabalhar para ganhar os 400 euros por mês. Como esse tipo de emprego costuma ser bem maleável – pode-se fazer algumas horas na segunda de manhã, outras três na terça à tarde, folga na quarta e trabalha depois mais duas na quinta, por exemplo – é uma opção bem comum entre os estudantes, já que pode ser adequada ao calendário de aulas. Tudo com muita clareza.

A impossível arte de dizer não

Dizer não é outro tabu no Brasil. Tanto que muitas vezes deixo de perguntar o que quero só pra não constranger meu interlocutor. Um diálogo absolutamente normal na Alemanha: “Podes me dar uma carona? – Não, tenho um outro compromisso hoje”. Tudo normal, direto, sem culpas ou rodeios. No Brasil, eu jamais pediria: a pessoa vai ficar sem graça de dizer que não, talvez desvie o caminho para me dar a tal da carona e depois comente em casa o quão folgada fui em fazer o pedido.

A questão da negativa também vale para qualquer convite. Vim fazer uma série de reportagens no Brasil, todas previamente definidas e marcadas, com uma agenda apertada. As pessoas me ligaram oferecendo outras histórias – muitas vezes igualmente interessantes, mas fora do meu escopo e agenda. Agradeci e disse que não poderia: que ofensa! Brasileiros preferem ouvir que vou tentar ver se encaixo o compromisso na agenda, mesmo sabendo que isso não vai acontecer. O não ofende.

No entanto, o que me ofende muito mais é o inverso de dizer não. Já convidei amigos para um café, que me responderam sorridentes que sim, mas que não apareceram. Na Alemanha, a ofensa de “dar o cano” é incalculável, já a negativa é honesta, prática, evita falsas expectativas e facilita a vida de todo mundo.

Mas afinal de contas, tenho uma “grosseria” preferida. Para dizer não no Brasil, é preciso ter um arsenal de desculpas: todas tão mirabolantes que no fim sempre penso em escrever um livro sobre a aventura da pessoa. E entre os “sisudos”, é tão mais simples: obrigada, mas já tenho um outro compromisso nesse dia. E mesmo na hora de ir: Tchau, tenho um compromisso agora. Assim, sem qualquer adendo, sem qualquer informação adicional.

Creio que a franqueza gera confiança e a certeza de que um não é tão honesto quanto um sim. Por isso, quando conhecer um alemão, nunca se despeça dizendo: “A gente se vê! Eu te ligo! Vamos marcar um churrasquinho uma hora dessas”. Ele certamente vai pegar a agenda para anotar seu telefone, avisar quando vai ligar e verificar se estará livre para essa noite de carnes e cervejas. E pode ter certeza: mesmo que ela seja daqui a um mês, a pessoa vai estar lá e vai chegar na hora certa. Isso se chama respeito e não grosseria.

sexta-feira, 19 de março de 2010

FairPlay x falta de educação

Eu gosto de viver na Alemanha e de um modo geral, vejo muito mais coisas positivas do que negativas aqui. Mas às vezes, algumas coisas irritam profundamente e nessa hora sinto falta de não saber todos os palavrões possíveis nessa língua tão cheia de consoantes. Pra ser justa, então, divido o post em duas partes e conto a história toda.

FairPlay


Nesta quinta-feira fui ao Weserstadion, a trabalho, acompanhar o jogo Werder x Valencia – segunda rodada das oitavas-de-final da UEFA Europa League. Havia uns 40 torcedores espanhóis por lá, cercados por uns 80 seguranças o que ficou cômico e obviamente, desnecessário. Mas o tal do FairPlay – por parte dos alemães, diga-se bem! – começou cedo.

Recebi, na terça-feira, um e-mail da assessoria do Werder com o convite da festa que a torcida organizada do Werder estava preparando para os espanhóis. Isso mesmo! Não errei os nomes. Os alemães organizaram uma recepção (leia-se “esquenta”, no Brasil) para os torcedores visitantes. Confesso que tal grau de civilidade me deixou boquiaberta. E feliz por morar em um país que sabe se comportar assim.

No jogo – apesar do Valencia não ter retribuído a elegância do FairPlay em campo –, os alemães voltaram a mostrar que sua paixão é pelo bom futebol. O Werder – que tinha empatado o primeiro jogo, lá, em 1 a 1 –, acabou empatando, em casa, por 4 a 4. O resultado – pela regra de gols marcados fora de casa – deu a vaga nas quartas-de-final aos espanhóis e fez os alemães, que na temporada passada chegaram à final, despedirem-se mais cedo da competição.

Como a torcida reagiu ao fim do jogo??!?!?! Aplaudindo o time, de pé, pelo grande espetáculo que assistiu. Foi um jogão de bola e o torcedor soube reconhecer isso. Bateu palmas na saída dos jogadores, cantou o hino do time ‘derrotado’ e foi, civilizadamente, embora. Eu fiquei até mais tarde gravando uma entrevista (que ta aí ilustrando esse post) com o Hugo Almeida – atacante português que marcou um golaço e, sem protecionismo, foi o melhor em campo pelo Werder. Quando saí, ainda vi uns espanhóis bebendo pela rua e os alemães – que amam passar férias em Mallorca – enrolando a língua pra bater um papo. 100% FairPlay.

Falta de educação

Mas nesta mesma Alemanha, as pessoas não fumam: elas comem cigarro. É impressionante o número de tabagistas por aqui e a falta de educação deles. E a falta de leis e regras para disciplinar o consumo de cigarro em ambientes coletivos. O país gira em torno de quem fuma e quem não fuma – e ODEIA cigarro, como eu – que se dane. Foi assim durante o jogo. A tribuna de imprensa não fica separada da torcida: prova de civilidade. Mas tem sempre um cidadão que se acha no direito de passar a partida inteira dando baforadas de um insuportável charuto (um após o outro, na verdade) na cara de quem está por perto. No caso, a minha.

Com todo o português que me cabe: filho da puta, desgraçado, mal educado. Que pegue a merda do charuto e enfie no cu. É o mínimo que ele mereceria ouvir se eu soubesse tudo isso em alemão. E o mesmo vale para todos os fumantes (amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos): não fumem perto de mim. Eu odeio cigarro e o cheiro maldito que ele deixa em toda e qualquer pessoa.

Ufa. Desabafei.

Por outro lado, ontem, fomos a um pub irlandês festejar o St Patrick’s Day... e TODOS os fumantes usavam ou a área reservada ou fumavam na rua. Voltei para casa sem um cheirinho de fumaça... Louvável. Vai ver é porque quase ninguém no pub falava alemão...

Mas hoje, a falta de educação compensou e me fez esquecer o “bom comportamento” do dia anterior. Não bastasse o fumacê do jogo, na volta pra casa, esperando o trem, sentei no banco vazio da parada. Eis que chega um cidadão, de posse de seu fedorento charuto, falando ao celular e, sem o menor vestígio de estar se preocupando, senta-se do meu lado e passa a baforar na minha direção. Outro grandessíssimo filho da puta. Levantei, saí, jurando que vou aprender todos os xingamentos do mundo para essas situações. Por hora, só tenho um desejo: que todos os malditos apreciadores de charuto apodreçam seus pulmões e morram asfixiados na própria fumaça da forma mais horripilante possível. No mínimo.
de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel