de volta à nave mãe: home
Home Home by Ivana Ebel Facebook Twitter E-Mail

menu

Estudar fora Sobre a Alemanha Viagens & turismo
Nonsense Receitas Jornalismo

domingo, 9 de outubro de 2011

Conexão Alemanha - Coluna 2

Sigo aqui com a publicação da coluna que estou escrevendo para o suplemento Oktoberzeitung, publicado durante a Oktoberfest de Blumenau, no Jornal de Santa Catarina. Esta é a segunda, que foi publicada originalmente aqui:

Puxando a alegria

Engenhocas, carroças, charretes e carros alegóricos à parte, os desfiles da Oktoberfest de Blumenau também contam com a presença de outro veículo: o Bollerwagen. O pequeno carrinho de madeira é geralmente usado para puxar crianças, flores e, por que não, cerveja! Mas esse discreto elemento da festa é também uma das mais fortes conexões com a cultura germânica. Na Alemanha, além do uso no campo ou nas escolas – para levar grupos de crianças para passeios na vizinhança – o Bollerwagen está no centro de festejos tão diversos quanto o Dia dos Pais, o Carnaval ou o Passeio da Couve.

Um dia para os homens

Dia dos Pais na Alemanha é feriado, mas não por causa deles. A data é celebrada 40 dias após a Páscoa, junto com as comemorações da Ascenção do Senhor (em alemão, Christi Himmelfahrt). Neste dia, filhos e esposas ficam em casa, enquanto os homens enchem o Bollerwagen de cerveja, licores e um destilado à base de centeio chamado Korn. Em grupo, partem para um passeio pelos parques. A bebedeira neste dia é certa: a polícia alemã registra, anualmente, um número elevado de ocorrências como acidentes e brigas.

30 anos

Completar 30 anos é um momento marcante para os alemães, especialmente para aqueles que ainda não casaram. Homens e mulheres celebram cada um com seu grupo de amigos, em torno do Bollerwagen. As mulheres organizam fantasias e pintam a dona da festa para um desfile pelas ruas da cidade e estações de trem. Já os homens têm a missão de conseguir um beijo de uma virgem que o liberte do castigo.

Chucrute X Couve amarga

Chucrute (Sauerkraut, na grafia original alemã) é quase uma exclusividade da culinária do Sul do país e a rivalidade entre os dois extremos do país é grande. Para saborear a iguaria, grupos de amigos organizam a Grünkohlfahrt – algo como O Passeio da Couve – e aí o Bollerwagen entra na história mais uma vez. Decorado com balões e folhas de couve, carrega bebidas fortes para aquecer o grupo durante a caminhada – geralmente sobre a neve – até um restaurante. E o passeio segue seus rituais: todos os anos o grupo escolhe o rei e a rainha da couve, que são os responsáveis pelo passeio no ano seguinte.

Carnaval

Oktoberfest é o carnaval alemão de Blumenau. Mas na Alemanha o carnaval também tem samba. Bom, ao menos o que por lá é considerado samba. Colônia oferece a festa mais famosa do país, com direito a desfile de alegorias. Em outras cidades, os foliões fazem o próprio desfile. Precisa dizer como? Lá vem o Bollerwagen outra vez, cheio de bebidas, ajudando a manter a temperatura nos gélidos dias de festa.

Créu alemão

Vale dizer que alemão gosta de música brasileira, mas tem uma, em especial, que toca em 10 entre 10 rádios praticamente todos os dias há mais de 20 anos. É Chorando se Foi, também conhecida como Lambada, gravada em 1989 pelo grupo francês Kaoma, da vocalista Loalwa Braz. Mas a coisa fica ainda mais complicada. Não se espante se ligar o rádio e ouvir Créu e tenha uma resposta pronta para explicar para as fãs alemãs quem é a Mulher Melancia. Sim: a Mulher Melancia tem fãs na Alemanha...

Diz o ditado:

Betrunkene und Kinder sagen die Wahrheit.
Bêbados e crianças dizem a verdade.

Para ilustrar, o prato de Grühnkol, que eu mesma preparei :)

Conexão Alemanha - Coluna 1

Como falei, estou escrevendo uma coluna para o suplemento Oktoberzeitung, publicado durante a Oktoberfest de Blumenau, no Jornal de Santa Catarina. Vou publicar as colunas por aqui. Esta é a primeira. O texto original esta aqui e você também pode espiar a edição impressa (a coluna está na página 7) em um aplicativo flash aqui.


Ai vai:

Herzlich willkommen!

Blumenau é a cidade mais alemã do mundo, costumo dizer, em tom de brincadeira, para os amigos com quem convivo na Alemanha há três anos. A cidade é uma espécie de releitura do que existe no Velho Mundo. O enxaimel raras vezes é autêntico, as salsichas “alemãs” são exclusividade regional e as tiaras de flores uma interpretação bem própria do que se encontra na Alemanha: e isso faz de Blumenau e de todo o Vale um lugar tão especial. E esse espaço vai falar exatamente sobre essas “germanidades” – preservadas, copiadas ou criadas e um pouco do que existe por lá, onde Blumenau teve suas origens, e onde vivo agora.
Essa coluna nasce de uma combinação feliz: uma escapada das terras alemãs agendada cuidadosamente para outubro, a oportunidade de voltar à redação do Santa, onde escrevi as primeiras linhas como jornalista há 17 anos a vontade de falar um pouco mais dessa relação entre Blumenau e da Alemanha, minhas duas casas, e dividir isso por aqui.

Combustível da festa

A palavra chope, embora tenha ares de importada, só existe no Brasil. Na Alemanha, a Oktoberfest é movida a cerveja e tem até uma receita especial. Trata-se de um tipo de Lager chamado Märzenbier, em uma referência ao mês de março, época em que os últimos blocos de gelo estavam disponíveis para assegurar o tradicional processo de fabricação da bebida. A cerveja era estocada em cavernas, junto com blocos de gelo, para completar seu processo de fermentação. Trata-se de um tipo de cerveja tradicionalmente produzido na região da Francônia, na Bavária e até mesmo na Áustria. Oficialmente, porém, apenas a bebida produzida nos arredores de Munique pode levar o título de Oktoberfestbier.

Ein Prosit
Para os alemães, brindar é quase tão importante quanto a qualidade da cerveja. E na hora do brinde, não vale apenas tocar os copos: é preciso percorrer e cruzar o olhar com cada membro do grupo. O costume é antigo e remonta a diferentes culturas. Inicialmente, representava uma saudação aos deuses como gratidão pela bebida. Já na conflituosa Idade Média, onde envenenamentos eram artifício de conspirações, o brinde assegurava que o líquido de um copo entrasse em contato com o outro, em um gesto que traduzia confiança. Embora a razão do brinde tenha mudado, os canecos reforçados usados na Alemanha não fazem feio na hora do tim-tim: de vidro reforçado, sobrevivem às saudações mais entusiasmadas…

Cerveja quente

E tem o mito de que alemão toma cerveja quente. “Jein”, por assim dizer: Ja (sim) e Nein (não). É verdade que em boa parte do ano os termômetros não passam mesmo dos 5°C, especialmente à noite. Só isso já justificaria beber em temperatura ambiente! Mas de um modo geral, as cervejas são servidas entre zero e 6°C, dependendo do tipo, como forma de acentuar seu sabor. Ainda assim, não vai ser difícil encontrar jovens empolgados saindo do supermercado com uma caixa de cerveja e abrindo a primeira logo ainda na porta.

Água no chope

Água não, mas refrigerante sim! Na Alemanha não é raro ver alguém bebendo uma mistura de cerveja e refrigerante de limão. No norte do país, o drink é chamado de Alster ou Alsterwasser – água do Alster, literalmente, em uma referência ao rio que corta a cidade de Hamburgo. Em direção ao sul, o drink muda de nome, mas não de composição: Radler. Várias marcas já vendem a bebida pronta, engarrafada e a popularidade é grande entre as mulheres. Mas é fácil fazer em casa: basta misturar 60% de cerveja com 40% de refrigerante.

Quem pode beber?

Maioridade na Alemanha é só aos 18, mas com 16 já se pode comprar e beber cervejas. Para os vinhos e destilados – e pasme, isso inclui bombons de licor! – só apresentando a identidade para comprovar que já passou dos 18.


Diz o ditado:

“Wasser trinkt der Vierbeiner, der Mensch, der findet Bier feiner!”
Os quadrúpedes bebem água, pessoas preferem cerveja!

sábado, 8 de outubro de 2011

A estranha sensação de não pertencer a lugar algum

O Blog parece largado às traças, mas em pensamento, tenho produzido muita coisa pra cá. Só faltou tempo pra escrever. Estou de férias, no Brasil, desde o começo de setembro. O primeiro mês foi em Florianópolis, com a família do maridão. Agora que ele voltou pra Alemanha, to em Blumenau, na casa da minha mãe... Além disso, fechamos nosso apartamento em Bremen, encaixotamos a vida, jogamos os móveis fora (não dava pra levar...) e vamos começar uma nova etapa em Berlin.

Devia estar me sentindo em casa aqui – e é claro que me sinto à vontade na casa da minha mãe -, mas o sentimento não é tão simples assim. Estou experimentando uma sensação de deslocamento e de não pertencer a lugar algum. Nunca morei nesta casa (apesar de o endereço ser o mesmo, minha mãe se mudou para uma casa nova e melhor nestes anos que estive fora): não sei onde ficam as coisas, não sei bem as regras, não lembro onde ascender as luzes.

Por outro lado, estou perto dela, de primos que amo tanto como se fossem meus irmãos, de tias que sinto falta, amigos e vizinhos. Fiz coisas que há anos não fazia e me senti feliz demais por isso: acompanhei uma visita do governador (mesmo que o dono da faixa tenha mudado!), comi jabuticaba do pé, vi o sol se por na praia, enjoei de tanto comer ostras, tenho a minha velha gata Cleópatra para esmagar na hora do café. Mas estou longe do meu marido e isso deixa tudo meio incompleto. De certa forma, estou vivendo um “parênteses” na minha vida: um tempo em que não pertenço a lugar algum, que não tenho uma casa pra chamar de minha...

Mas entenda isso como tristeza. Na verdade, os parênteses tem sido muito produtivos! Voltei a trabalhar no jornal, o Santa, onde comecei minha carreira de jornalista em 1994... O clima de redação, horários de fechamento, separar fotos, escrever, escrever... ai! Me apaixonei pelo jornalismo outra vez como há muito não acontecia. E isso tem sido muito bom! Ganhei – pela primeira vez na vida – uma coluna só minha! Se chama Conexão Alemanha e sai no suplemento Oktoberzeitung, que fala das festas de outubro no Vale do Itajaí.

Vou colocar as colunas aqui no blog, afinal, elas seguem um pouco a linha do que escrevo por aqui... e assim divido com mais gente esse trabalho que está me deixando tão feliz!

E para ilustrar o post, fica uma foto da abertura da Oktoberfest de Blumenau, com a cerimônia de sangria do primeiro barril de chope feita pelo Governador Raimundo Colombo e pelo prefeito João Paulo Kleinubing. Vale dizer que ganhei o caneco do vice-prefeito Rufinus Seibt (que aparece bem na esquerda da foto), amigo querido e de longa data ;) e bebi do primeiro chope servido na festa :)

de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel