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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Hummus: E viva a influência internacional na Alemanha

Doner Kebap é uma das comidas mais populares da Alemanha (falei sobre isso aqui), mas eu preciso confessar que me apaixonei por outra coisa. Eu já tinha comido hummus antes, mas não dei muita bola pra coisa. Vale dizer que hummus é uma pasta de grão-de-bico bem temperadinha que combina com um montão de coisas.

Então, eis que a Luiza e o Pedro, recém-chegados da Turquia, passaram uns dias aqui e resolveram trazer pra casa uma entradinha de hummus com pão sírio. Ai lascou. Virei cliente fiel do mercadinho que fica na porta do meu prédio e vende o tal do hummus e acabei ficando amiga do dono. Ai o cara - que até hoje eu não sei o nome e que fala um alemão ainda pior que o meu – é uma simpatia em pessoa e disse que bom mesmo era fazer a receita em casa.



O vizinho do mercado me explicou como fazia o treco todo... mas por via das dúvidas dei uma espiada nas receitas da internet e acabei escolhendo essa aqui. A função toda começa no dia anterior. Você precisa colocar o grão de bico de molho, como a gente faz com feijão, para cozinhar no dia seguinte.
A receita é mais ou menos essa:

Ingredientes:
1 xícara de grão de bico cozido (ou uma lata pequena, sem o líquido)
2 colheres sopa de Tahini (pasta de gergelim)
2 dentes médios de alho ou um grande picado bem pequeno
Sal, pimenta, páprica doce, cominho, suco de limão e salsinha a gosto
Azeite de oliva

Preparo:

Depois de ter deixado o grão de bico de molho na noite anterior, cozinhe as bolinhas por um hora ou até ficarem macias. Os grãos tem uma casquinha: aviso pra quem, como eu, nunca tinha preparado em casa. Você pode tirar todas elas (eu fiz isso!!!) ou não. Para quem vai usar o grão-de-bico em lata, é só escorrer. Depois de ter os grãos cozidos e macios, o preparo é bem simples. Basta colocar tudo no processador – ou no liquidificador – e ir temperando de acordo como gosto de cada um. Se a pasta ficar muito dura de bater, pode acrescentar um pouco de água (algumas colheres) ou ainda iogurte natural, como é tradição em alguns países do Oriente Médio, para chegar a uma textura de patê. Depois de pronto, acrescente a salsinha bem picada. Há quem prefira bater a salsinha junto, mas eu acho o efeito das folhinhas picadas mais bonito.

Fiz o meu bem durinho. Espia ai como ficou bonito:


Eu gosto de comer o hummus com pão sírio, aquele bem chatinho, fino, que parece uma tortilha. Mas fica bom até com pãozinho francês.

Ah, e só pra lembrar de uma passagem engraçada... no filme You don´t mess with the Zohan, uma das cenas finais (não chega a ser um spoiler! Eheeh), o personagem do Adam Sandler usa Humus pra apagar um incêndio e selar a paz entre palestinos e judeus.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sobre comida de passarinho e costumes: alguém já pensou isso antes



Quando a gente muda de país, o choque cultural é inevitável e leva um tempo até entender como tudo funciona. Se você for pra Portugal, vai sentir o choque, mesmo que a língua seja a mesma e que os costumes, muitas vezes, sejam similares ao Brasil: vai se dar conta, em um primeiro momento, das diferenças, para depois perceber as semelhanças e descobrir que por lá também se vende coxinha em qualquer padaria da esquina. Na Alemanha essa sensação de desassossego é maior, mais intensa eu diria e, mesmo pra quem come chucrute desde criancinha, o choque cultural é grande. E o que todo esse bla-bla-blá tem a ver com comida de passarinho? Eu já explico.

Quando vim pra cá com o meu marido (que na época era namorado), ele já havia morado por três anos na Alemanha e me veio com uma frase de efeito: “Aqui na Alemanha, você não precisa pensar. Alguém já pensou por você.” Na hora eu achei uma bobagem, mas descobri em pouco tempo que ele tinha toda a razão. O país inteiro é organizado de um jeito para que você não precise pensar em como fazer ou qual a melhor maneira. É só ler o manual, seguir a risca e tudo vai dar certo. Como prepara a salsicha X, Y ou Z: faz como manda a embalagem. Pão pré-cozido, deixa quanto tempo no forno? Faz exatamente igual a figurinha que funciona. E isso serve pra tudo: pra transporte, plano de saúde, pra burocracias da prefeitura, pra conta no banco, pra comida de passarinho. Viu? Cheguei ao ponto!

Eu não sou bióloga – e menos ainda “passarinhóloga” – mas não é difícil perceber que, no outono, as aves escapam da Alemanha em debandada em busca de lugares mais quentes. Como eu não posso fazer isso todos os anos, me contento com os poucos passarinhos corajosos que sobram por aqui e é costume alemão alimentar os tais bichinhos. Acho que a coisa toda é um mea-culpa! “Derrubamos as suas árvores, colhemos as suas frutas, mas agora oferecemos comidinha”. Isso é especulação minha: no geral, a Alemanha é um país bem verde!!!

Meisenknödel: comida pronta para pássaros selvagens

Assim, nessa época do ano, os supermercados ficam abarrotados de comidinhas prontas para passarinhos selvagens. Como essas bolotas feias ai da foto de cima, que se chamam Meisenknödel. O rótulo diz: Alimento complementar para pássaros selvagens: aveia, trigo, cereais, girassol, gordura e óleo de soja. A maçaroca é dura e vem dentro dessas redinhas plásticas que permitem que os passarinhos comam por entre os espaços. Uma caixinha com seis bolotas custa entre 70 centavos e 1 euro. Baratinho mesmo! Não é raro encontrar essas redinhas penduradas pelas árvores pela cidade. Além disso, é costume dar restos de pão (desde que tenha mais de uma semana, para que o fermento não esteja mais ativo). E este ano eu resolvi entrar na modinha.

Alimento para pássaros: seis bolinhas por um euro ou menos

Estamos morando agora em Berlin, já contei isso por aqui. O apartamento é no térreo e tem um terracinho particular. As paredes da casa que dão para o jardim são todas de vidro: janelões imensos, que servem também como porta para o terraço. E é por lá que eu ponho a comidinha. Improvisei um galho para pendurar as bolotas e jogo o pãozinho no chão mesmo. Assim, bye-bye solidão (o marido passa quase o dia todo fora de casa!): tenho a visita constante dos passarinhos, que ficam de estripulia no terraço. Brincam, comem e me fazem companhia. Tudo isso por 75 centavos!

Ps.: Esse post vai especialmente pra Luciane Bemfica, amiga de muitos anos, especial e amada... Afinal, "a gente se paga", pra sempre :)

sábado, 19 de novembro de 2011

Berlin tem gosto de Döner Kebab, Currywurst e macarrão chinês

Paixão berlinense: O urso, símbolo da cidade, segura uma currywurst. Quer mais típico que isso?

Se eu precisasse definir comida alemã em apenas um prato, eu diria, sem pestanejar, que o país inteiro come porco com batata. Pode ser batata cozida, frita, assada, em forma de bolinho, croquete ou do jeito que a imaginação mandar. E porco também: bife, bisteca, moído, em forma de hambúrguer ou mesmo como recheio de salsicha. Mas como no Brasil, onde feijão com arroz aparece no prato de Norte a Sul, por aqui também existem variações regionais. E neste caso, Berlin é um capítulo a parte.

A capital da Alemanha é a mais internacional de suas cidades. É também um estado: Berlin, Bremen e Hamburg são as três cidade-estados alemãs. Por aqui, tudo funciona de um jeito um pouco diferente: em uma dinâmica mais efervescente por assim dizer. E isso se reflete na comida. Passear pelas ruas de Berlin é um convite aos aromas: dos que excitam o apetite e dos que reviram o estômago.

Mas é preciso dizer que três tipos de restaurantes – em vários níveis de sofisticação e preço – estão em cada esquina. E não se trata de uma expressão: literalmente em cada quadra das zonas comerciais da cidade é possível encontrar um turco vendendo Döner Kebab, uma lojinha de salsichas cortadas em rodelas e servidas com catchup e curry (o patrimônio gastronômico de Berlin!) e algum comerciante de olhos puxados servindo macarrão frito com legumes e todas as suas variações. Nessa ordem, mesmo. Depois de quase um mês por aqui posso garantir que se vende (e se come!) mais Döner do que Currywurst em Berlin.

Currywurst: o patrimônio gastronômico de Berlin (foto de Reiner Senz, tirada daqui)

Bom, vale explicar um pouco mais sobre o tal do Döner. Trata-se do tal de churrasquinho grego, que já existe para vender em algumas cidades do Brasil. Um rolo de carne (de ovelha ou de frango) assado na vertical e fatiado finamente em lascas. A carne é servida de diversas maneiras: em um prato com arroz, cuscuz e salada; em uma caixinha com batatas fritas; em um pão sírio (aquele bem chatinho) enrolada com saladas e molhos; ou do jeito mais tradicional, em um pão redondo e meio chato (salgado como o pãozinho francês, mas geralmente com formato de pão de hambúrguer), com molho de iogurte, molho de pimenta, salada de alface, pepino, tomate, repolho branco e roxo. É tão (ou mais) tradicional que o X-salada no Brasil. E muito melhor, na minha opinião!

Döner Kebab: carne de ovelha ou frango e muita salada. Bom demais!(foto de Jonathan Groß, tirada daqui)

Em Berlin, além dos sabores tradicionais, já vi restaurantes vendendo Döner de frango com legumes: o legume é colocado entremeando a carne na hora de formar o rolo. E a forma de preparar o tal do churrascão é assunto sério por aqui. Tem até lei que regulamenta o percentual de carne moída aceito na formulação da receita. Eu ri quando encontrei isso. Mas ao menos todo mundo sabe que vai comer, no máximo, 60% de carne moída no seu sanduíche.

Döner Kebap: tem um em cada esquina, até mesmo no subterrâneo. Este ai fica em uma estação de metrô aqui perto de casa

Legislação à parte, encontramos por aqui um restaurante (bom e barato - para o padrão comida de rua!) que parece surreal: um chinês turco ou um turco chinês, se preferir (se chama Yuppis e fica aqui). Você entra e o balcão tem duas metades. Em uma ponta, um staff com traços turcos serve Döner de todas as maneiras possíveis. Na outra metade, um quarteto de asiáticos comanda os Woks. Tudo em harmonia. A única heresia está no cardápio, mas não tive coragem de pedir nem pra fazer a foto. Por 4,50 euros é possível provar um prato bem servido de macarrão chinês com legumes acompanhado de carne de Döner. É o que eu chamo de fim dos tempos gastronômico. Ou globalização. Só falta um puxadinho no lugar pra vender currywurst.
de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel