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sábado, 28 de janeiro de 2012

Sülze: queijo de porco com gosto de infância

Eu cresci em uma casa que, para os dias de hoje, podia bem ser chamada de sítio ou fazenda. Tínhamos uma grande horta, uma roça com mandioca, batata-doce e milho. No quintal, vacas, porcos e muitas galinhas mantinham a subsistência. E foi assim que cresci vendo um monte de coisas que, só quando cheguei a Alemanha, descobri de onde elas vinham. Tínhamos sempre nabo branco (Kohlrabi) pra sopa. Fazíamos nosso chucrute (Sauerkraut) e, volta e meia,  a função era dar conta de limpar e processar um porco inteiro: torresmo, toucinho e morcilhas (Blüttwurst) saiam da cozinha. E saia também uma geléia salgada e meio azeda que,  por aqui, achei aos borbotões no mercado: sim, nós preparávamos Sülze em casa. A Sülze também tem outro nome por aqui: Presskopf (algo do tipo cabeça prensada), que remete aos ingredientes do seu preparo.

Acho que eu tinha entre sete ou oito anos nessa época e não lembro exatamente da receita. Sei que as cartilagens, a cabeça, e carnes menos nobres do porco eram cozidas e depois temperadas com muito cheiro verde. Colocadas em uma forma para esfriar, a água ficava gelatinosa e bem temperada. Depois era só desenformar e cortar em fatias para servir. Eu gostava de comer a tal da Sülze no pão caseiro, feito no forno à lenha, que sempre tinha na mesa lá de casa. Quando cheguei na Alemanha e encontrei a tal da geleia, comprei um vidro pra provar e fiquei decepcionada. Apesar da receita ser aparentemente a mesma, não tinha o gostinho daquela que minha Oma preparava. 
  
Alemã: Sülze ou Presskopf traz carnes da cabeça do porco em uma espécie de gelatina*

Mas eis que hoje bateu um momento daqueles fome+curiosidade no maridão na hora de fazer as compras e eles se depara com o insólito desejo de comer Sülzekotelett. Já explico: não tem nada de bacon, cabeça ou qualquer outra parte esquisita. É uma costeleta de porco defumada e sem osso (ou seja, Kassler, pra simplificar!), mergulhada nessa geleia e com uns pedacinhos de ovo, cenoura e pepino por cima. A aparência não é convidativa, mas o que se pode dizer à fome nessas horas? Ele veio todo faceiro com a tal iguaria na mão e provamos aqui em casa. Não é tão boa quanto a da minha Oma – alguém pesou a mão no vinagre que chega a repuxar o canto da boca – mas foi a primeira vez que, bem faceira, achei uma Sülze alemã em que eu pudesse sentir o gostinho de infância.

Espia ai a cara to Sülzekotelett no pacote original (vende no Lidl) e no prato, onde fica mais fácil observar a geleia que envolve a carne:



Ta ai mais uma prova: quando eu falo que Blumenau é a cidade mais alemã do mundo, não to mentindo! :)

* A foto da fatia de Sülze, é de Rainer Zenz, publicada originalmente aqui, licenciada de acordo com as normas do Creative Commons

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Brasileiros em Berlin: Dicas e histórias

A Band está passando uma série bem bacana sobre o mundo no ponto de vista dos brasileiros. Ou seja, eles encontram brasileiros em lugares diversos e fazem um documentário mostrando aspectos turísticos e também um pouco da vida dessas pessoas. Uma amiga minha de infância, a Janiane, acompanhou um dos episódios sobre Berlin e deu a dica. Assisti e gostei: um jeito bacana de ver a cidade.
O programa sobre Berlin está dividido em seis partes e os links abaixo são a sequencia pra ver cada um dos blocos, direto no site da Band. É só dar o play e curtir a cidade!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Alemanha em detalhes: hora de ir ao banheiro! (Sim, tem regras pra isso também!)


Algumas coisas os guias de viagem e reportagens de turismo não falam, mas é interessante que  você deve tenha em mente se vier visitar a Alemanha –mesmo que de passagem. Já falei das regras de convivência e do jeito alemão nesse post aqui, mas essa série “Alemanha em detalhes”, que este post inaugura, é uma versão mais resumida de tudo, de coisas bem básicas pra você não fazer feio. Cada post vai ser sobre um tema e vai misturar curiosidades e impressões.

O post de estreia é sobre banheiros. Isso mesmo! Então, anota tudo ai.

- Os banheiros das casas, hotéis e qualquer outro lugar tem um cestinho de lixo, mas não se joga papel higiênico nele. O papel vai na privada. O cesto é para absorventes. Aliás, é comum encontrar uns saquinhos plásticos ou de papel no banheiro. Neles você coloca o absorvente antes de jogar no lixo.

- A descarga do banheiro tem, normalmente,  dois botões. Um deles é para um fluxo de água menor (se você fez o número um) e ou outro para a descarga completa, em caso de número dois. A intenção é poupar água: colabore usando a opção certa. Algumas descargas tem uma placa só. Você aciona ela apertando na parte de baixo e, quando tudo foi embora, interrompe a descarga apertando novamente em cima e assim só usa a água necessária, sem deixar correr mais do que precisa.

- Em alguns lugares você vai encontrar algo semelhante a um suporte de sabão liquido na parede, dentro do próprio cubículo onde fica a privada. Trata-se de um gel antibacteriano à base de álcool que você aplica em um pedaço de papel higiênico e limpa e esteriliza o assento do vaso antes de usar. Bem prático e útil!

- Homens alemães fazem xixi  sentados. Isso mesmo. As mães ensinam seus filhos desde cedo a sentar para evitar gotas e respingos pela privada, já que elas mesmas terão que limpar! (Aqui as pessoas limpam suas próprias casas e empregadas são artigos de luxo que poucos podem ou costumam bancar). Se você perguntar a um alemão se ele senta pra fazer xixi, espere duas coisas: primeiro, a resposta direta (Claro que eu sento!) e depois a expressão de quem não entendeu (leia-se: Por que você está me perguntando isso? Você, por um acaso, não senta?). Então, meninos, em lugares públicos podem pular essa regrinha, mas se estiverem visitando alguém, a expectativa é que sentem para fazer xixi. E não se assustem se encontrarem avisos nos banheiros lembrando dessa gentileza.

Igual as meninas: "Homens de nível sentam na privada"

- É comum encontrar, especialmente em prédios mais antigos, a privada com uma espécie de plataforma. A primeira vez que você usa é meio assustador: fica o “serviço” todo lá, esperando para ser conferido. E a intenção era exatamente essa. Em épocas de guerras ou doenças, verificar a presença de sangue – ou mesmo vermes – nas fezes era uma forma importante de controlar a própria saúde e por isso as privadas foram desenhadas  de forma  a permitir esse tipo de “autoexame”. Muita gente costuma colocar alguns pedaços pequenos de papel higiênico na tal plataforma antes de usar o banheiro e assim evita que resíduos fiquem presos nessa parte plana. Achei um vídeo que ilustra bem tudo isso. O banheiro em questão não está lá essas coisas... mas vale é ver o conceito.






- Aliás, todo e qualquer banheiro alemão tem uma escovinha. Todos, em qualquer lugar. A ideia é que você deixe o banheiro limpo para o próximo que for usar.  Vale para locais públicos, em menor intensidade, mas vale sobretudo se dividir casa com outras pessoas ou se compartilhar banheiros em hostel ou hotel, por exemplo: passe uma escovinha antes de sair pra ter certeza que tudo ficou de acordo.

- Na hora de alugar um quarto de hotel, preste atenção nos detalhes da descrição. Se o quarto tiver banheiro privativo, isso vai estar claramente descrito. É comum em hotéis de categoria turística existirem quartos em que o banheiro é compartilhado com outros quartos do mesmo andar. Nesse caso, geralmente existe apenas uma pia no quarto ou nem isso.

- É muito raro encontrar banheiro gratuito na Alemanha. Mesmo nos shoppings: tem sempre uma senhorinha cuidando e cobrando. O preço médio é de 50 centavos, mas se o esquema não for de cobrança (e sim de contribuição, apenas), ninguém vai correr atrás de você para cobrar o que faltou.

- Aliás, leve sempre moedinhas de 50 centavos quando sair de casa para passear. As cidades têm vários banheiros públicos e, para abrir a porta e usar, você precisa colocar a moedinha. Geralmente essas caixinhas de cobrança automáticas não dão troco. Ah, esses banheiros são autolimpantes e se trancam para uma autolavagem entre um usuário e outro.

- Nas estações de trem os banheiros costumam ser mais caros: 1 Euro e o ticket do banheiro da direito a algum desconto em compras nas lojas da própria estação. Uma baita sacanagem! Esses banheiros são, nas cidades maiores, super modernos! A descarga é automática e o assento da privada gira para ser lavado e seco para o próximo usuário. Espia ai a tecnologia! eheheh 







- Não se assuste se chegar a um banheiro e ele tiver luz negra ou azulada dentro. Acostume os olhos e faça o que tem que fazer! Em alguns locais – especialmente shoppings em cidades maiores e bairros mais alternativos, digamos assim – essa foi a tática adotada para evitar que viciados fizessem uso de drogas injetáveis nos banheiros. Com a luz azulada é impossível enxergar qualquer veia do corpo... É bizarro e nos lugares que vi essas soluções nem creio que se fazia necessárias, mas se a administração do local optou por elas, deve ter suas razões.

- Os meninos podem encontrar coisas bem divertidas em banheiros públicos. Para estimular o uso correto dos mictórios – leia-se “acertar o alvo”, alguns bares e afins colocam brinquedinhos no local. Nunca vi, mas já ouvi falar e achei um vídeo para ilustrar. Uns modelos tem um gol e a ideia é acertar a bolinha para marcar. Outros tem um adesivo em forma de mosca que motiva a pontaria dos usuários. Espia ai a hora do gol!








- Torneiras e chuveiros podem ter um único manípulo e, mesmo que isso pareça meio óbvio, fica a dica: ele funciona ainda como misturador. Mais quente para um lado, mais frio para o outro: mais ou menos água para cima ou para baixo.

- Água na Alemanha é algo caro. Muito caro. Por isso, se estiver hospedado na casa de alguém, colabore com o seu anfitrião e economize: banhos rápidos e não deixar a torneira aberta para escovar os dentes são um bom começo.

- Aliás, se estiver na casa de algum amigo, outra dica: tome um banho só por dia, pelos mesmos motivos anteriores. Alemão toma muito menos banho do que isso (pular um –uns –dia é algo bem normal aqui).

- Se vier para a Alemanha, esqueça o conceito de suíte. Mesmo em casas mais requintadas, raramente você vai encontrar um banheiro no quarto. Alemães estão acostumados a dividir banheiro com outras pessoas da casa e não enxergam necessidade alguma em cada um ter uma instalação sanitária particular.

- Ainda sobre o banho – e pra fechar esse post escatológico -, a água na Alemanha é bastante calcária e sua pele pode sentir isso em poucos dias, especialmente se for inverno. A pele começa a descamar e podem aparecer rachaduras nos cotovelos, tornozelos e joelhos. Nesse caso, um hidratante bem cremoso resolve. Para as mulheres, a dica é usar sabonete íntimo com PH neutro: faz realmente diferença e evita probleminhas que podem estragar o conforto da sua viagem!
de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel