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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Alemanha em detalhes: uma visita detalhada aos mercados de Natal, os tradicionais Weihnachtsmarkt


Há quem diga que mercado de Natal é assim: quem viu um, viu todos. É evidente que há muitas coisas em comum entre eles: são 4,5 mil mercados espalhados por toda a Alemanha e que recebem anualmente 180 milhões de pessoas, movimentando cerca de 1,9 bilhões de Euros. Um baita negócio!

Cada mercado tem suas peculiaridades, claro. O primeiro teria sido o de Dresdem, que completa 580 anos de atividades em 2014. Alguns mercados – ou parte deles – tentam manter costumes medievais: serve bebidas em canecas de barro e seus vendedores se vestem com roupas tradicionais. 

Mas alguns itens são obrigatórios em todos os Weihnachtsmarkt da Alemanha: vinho quente, amêndoas caramelas, Lebkuchen e barracas de artesanato ou produtos decorativos. Montados em uma praça com uma grande árvore de Natal ao centro, alguns mercados são mais charmosos que os outros, mas em todos é preciso beber algo quente para escapar do frio. 

Quer saber o que se encontra de Norte a Sul, de Berlim às pequenas cidades? É só conferir as imagens abaixo, feitas em diferentes cidades da Alemanha. É mais ou menos como visitar todos os mercados em quatro fotos e sem nem gelar as mãos!


Uma visão geral:


Barraquinhas de enfeites:


As bebidas quentes:


Doces do advento:


E pra quem ficou querendo mais, basta acessar a página do blog no Facebook. Por lá você encontra links para albuns de fotos com muito mais detalhes dessa época maravilhosa do ano. É só curtir!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Inverno na Alemanha: sete dicas para turistas ou quem está chegando para enfrentar o frio pela primeira vez


Dias curtos, calçadas lamacentas com neve derretendo e areia grossa usada para evitar escorregões. Vento, termômetros abaixo de zero e nariz vermelho. O inverno na Alemanha pode não ser a época do ano mais convidativa, mas com roupas adequadas é possível aproveitar muito. Já falei um pouco da importância de usar as roupas certas para o frio alemão, já reclamei da neve e também escrevi especialmente para turistas que planejam conhecer a Alemanha no inverno. Mas as dicas que vem agora valem para todos: visitantes ou para quem está chegando para morar aqui. Não basta apenas um bom casaco para encarar o frio. É preciso tomar alguns cuidados para não transformar a temporada de neve em um pesadelo para o corpo.

Tome banhos curtos e não muito quentes – A tentação de deixar a água bem quente correr a vontade pelo corpo é grande. Diferente dos dias gelados do Sul do Brasil, onde os chuveiros elétricos transformam a hora do banho em um tormento, por aqui a água corre quente e em abundância no banheiro aquecido. Mas a água da Alemanha é “pesada”, contém uma quantidade de minerais muito grande – especialmente calcário – e resseca a pele rapidamente. No terceiro ou quarto banho por aqui já começam a aparecer descamações e pequenas rachaduras até. Por isso, quanto mais rápido for o banho e menos quente, menos a pele é agredida. Prefira sabonetes líquidos que ressecam menos.

Use hidratante oleoso pelo corpo todo – Mesmo quem tem a pele oleosa vai notar rapidamente a diferença e precisa se proteger. Uso aqui na Alemanha cremes que sequer vendem no Brasil, tamanha a oleosidade da sua fórmula e só assim para evitar maiores problemas. Dois ou três dias de banho quente sem usar hidratante depois podem ser bem danosos: erupções cutâneas como brotoejas podem aparecer, coceiras e ardor também. É importante tomar cuidado.

Invista em uma boa luva – As luvas de lã que são vendidas no Brasil ou que se encontra em qualquer lojinha de 1 Euro, pouco ou nada adiantam. Vale a pena investir em uma luva de couro ou mesmo em uma de esqui, forrada e impermeável. Aliás, se não tiver uma assim, tentar fazer um boneco de neve pode ser uma brincadeira bem dolorosa. A neve queima os dedos e as luvas vão ficar molhadas, piorando ainda mais a situação. Na hora de comprar um casaco, observe ainda se os bolsos são forrados, o que vai ser bem útil durante as caminhadas para ver a cidade.

Compre palminhas de lã – Calçados de sola fina deixam o frio subir e pés gelados trazem muito desconforto. Por isso, quando for comprar botas, prefira aquelas com solado de borracha grosso, com boas travas para não escorregar na neve. Além disso, compre um número que não fique tão justo e acrescente uma palmilha de lã (custam 1 ou 2 euros em lojas de produtos Made in China ou lojas de cosméticos com o Rossmann ou a DM). Elas geralmente são de tamanho único e vem com marcas para recortar conforme o tamanho do pé. Não esqueça que os sapatos na Alemanha têm uma numeração diferente: quem calça 36 no Brasil, vai usar 38 aqui. Isso vale para mulheres e homens.

Carregue uma meia seca na bolsa – Mesmo sapatos impermeáveis não garantem pés secos o dia todo. O próprio suor do corpo pode se condensar no sapato, especialmente nas pontas e deixar os dedos bem gelados. Por isso, carregue sempre um par de meias secas na bolsa e, se os pés gelarem, pare em um lugar quente e, quando tiver a oportunidade, coloque meias secas. Além da sensação desagradável, os pés frios podem ser um convite para um resfriado.

Não desespere se o nariz sangrar – O aquecimento resseca o ar dos ambientes e uma boa dica é manter umidificadores no quarto. Nem sempre os hotéis têm isso e é normal as pessoas terem pequenos sangramentos nasais nessa época do ano. Isso porque o ar seco provoca pequenas rachaduras dentro do nariz, que sangram. Para evitar – e aliviar! – essa situação a medida é bem simples. Passe em uma loja de cosméticos como Rossmann, DM, Müller e outras do tipo e, na estante dos medicamentos, junto aos sprays para o nariz, compre um tubinho de Nasen Heilsalbe. É uma pomada que vem em um tubo pequeno, a base de dexpanthenol, que protege a cavidade nasal do ressecamento.

Não tente ser o valentão e aguentar o frio – Sempre que sentir frio, busque abrigo. Lojas, mercados, cafés e mesmo o transporte público são aquecidos. Faça uma pausa a cada hora ou mesmo em intervalos menores: se aqueça e beba algo quente para só então retomar a aventura. Não tente ser “forte” em um dia gelado e insistir em andar na rua se não estiver agasalhado apropriadamente. Um dia de “coragem” pode significar o fim das férias, com vários dias de cama e de molho para se recuperar.



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Alemanha de A a Z: um guia prático para entender a terra dos castelos, da batata e da cerveja


Um guia prático para entender esse país cheio de regras, peculiaridades e consoantes. Uma coleção de verbetes com experiências, muito achismo e nenhum rigor científico: experiências somadas no cotidiano de um país com uma aura tão indigesta quanto repolho azedo com joelho de porco cozido, mas que se revela um local seguro, prático e até divertido de se viver.

Atenção: a reprodução desse texto ou suas imagens em qualquer outro veículo midiático – incluindo blogs ou sites só é permitida a partir de consulta prévia. Caso queira compartilhar, publique o parágrafo acima e inclua um link para o post original.



Alemanha – O país coleciona ódios e amores na mesma proporção. Bom, não exatamente. A liderança econômica da Alemanha na união europeia coloca o país – e em especial a chanceler Angela Merkel – no centro das críticas pela crise econômica. Não raro a governante é retratada como nazista, embora dentro do país goze de prestígio (demonstrado nas urnas nas últimas eleições). Más línguas dizem que a Alemanha conquistou com a economia e com a criação da EU aquilo que o Nazismo almejava e fracassou. Críticas à parte, é o país de um povo ordeiro e que tenta superar as marcas do passado. Uma economia de índices fortes apesar da crise e um lugar onde se vive com estabilidade e segurança.



Berlin – É capital alemã desde a reunificação, em 1991 (antes era a capital da Alemanha comunista – a DDR e Bonn era da Alemanha “Ocidental”, a BRD) e uma das cidades mais cosmopolitas da Europa. Apesar dos seus 4,4 milhões de habitantes, é um lugar relativamente tranquilo e seguro. O sistema de transporte de Berlin é certamente um dos mais eficientes do mundo – embora quem viva lá não se conforme com os 10 minutos de atraso dos trens que cruzam a região metropolitana. Tem lugares lindos mas, como um todo, não é exatamente o modelo europeu de beleza. Berlin encanta por ser história viva: a guerra, o muro, a divisão das Alemanhas transformam a capital germânica na cidade mais rica em história de todo o país. Imperdível.



Cerveja – A Alemanha pode até não ser o maior consumidor mundial de cerveja (com 143 litros por pessoa a cada ano, tchecos ocupam essa posição, seguidos dos austríacos, com 108). Os alemães estão em terceiro, com a média de 107 litros por pessoa por ano. No Brasil, que ocupa a 17ª posição, são 62. Mas as cervejas produzidas na Alemanha garantem a fama internacional. Existem incontáveis marcas produzidas por 1274 cervejarias registradas. Fora quem faz em casa. Os tipos variam muito, mas para serem chamadas de cerveja, todas devem seguir a lei de pureza na fabricação, a Reinheitsgebot. Somente água, malte, lúpulo e fermento podem ser usados no fabrico. Comparando as cervejas alemãs do tipo Pils com as brasileiras – que são quase sempre dessa categoria – fica fácil diferenciar: as cervejas alemãs são mais “fortes”. Tem um sabor mais marcante de malte e uma variação grande na lupulagem. São servidas um pouco menos geladas que no Brasil para que se possa apreciar o sabor em todas as suas notas.



Domingo – Todo sábado parece que o país está às vésperas de uma guerra, especialmente nos supermercados. No domingo – com raríssimas e recentes exceções nas cidades maiores – NADA abre no país. Não tem mercado, não tem loja, não tem shopping aberto. Padarias fazem plantão em sistema de rodízio, como as farmácias. Cada final de semana é uma que “faz o favor” de abrir em um determinado horário para vender. Mas as portas abertas são por pouco tempo. É melhor planejar o domingo com antecedência, fazer a lista de compras bem completa para não faltar nada.



Educação – O sistema de educação alemão causa estranhamento em quem chega. No final do que seria a quarta série no Brasil, os professores dividem os alunos em três grupos: os mais inteligentes, estudiosos e com boas notas; os intermediários, e os mais “fracos”. Cada grupo segue para uma escola diferente. Os “espertos” vão para o Gymnasium, onde serão preparados para entrar na universidade. Os do meio, passam a frequentar a Real Schule, que acaba mais cedo e conduz, geralmente, a um curso técnico ou a um curso superior do tipo tecnólogo. Já os “burrinhos” são encaminhados para a Hauptschule, onde recebem um ensino elementar e são encaminhados cedo para cursos profissionalizantes em áreas de ocupações menos especializadas: jardineiros, zeladores, padeiros, condutores de ônibus e afins. Isso porquê, na Alemanha, até para assentar tijolos em uma obra é preciso um curso técnico. Geralmente são três anos de preparação para qualquer atividade.



Feiras de Natal – As celebrações de Natal na Alemanha são pura magia. Em todas as cidades são organizados mercados que vendem comidas típicas do inverno e o tradicional vinho quente temperado com especiarias, o Glühwein. O cheiro da bebida se soma com as amêndoas carameladas, a neve e todos os cantos parecem cenário de filme. Sem exagero. É lindo demais. Já o réveillon, Silvester, como se diz aqui, é o oposto disso. Algumas cidades fazem queima de fogos, mas no geral, são apenas as pessoas que levam seus fogos para a beira de um rio, se houver. Alias, os espaços tradicionais são verdadeiras praças de guerra: o cenário é apavorante, com bombas e rojões explodindo por todos os lados. Isso porquê os fogos são proibidos no país o ano inteiro e só podem ser comprados e usados nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. Ou seja: são 48 horas para dar vazão a todo o fetiche bélico de um país inteiro. Além disso, o frio espanta qualquer ânimo. Pode ser divertido passar na rua, mas é preciso ter um programa para depois, porque meia hora depois da virada a multidão já estourou seus fogos, deixou toneladas de lixo para trás e se dispersou. Abaixo de zero, só mesmo com um bar quentinho pra comemorar!



Geração de energia – A Alemanha vive de energia termoelétrica (do carvão) e nuclear, mas está trabalhando duro em um plano ambicioso: mudar sua matriz até 2020. Muito tem sido feito e já se pode escolher comprar energia de fontes renováveis. Placas solares e turbinas eólicas estão espalhadas no país inteiro e isso não sai barato. No entanto, quem vive aqui aceitou pagar o preço de cuidar do meio ambiente. Além da energia, alemães consideram a separação do lixo quase uma religião. Veja o verbete Lixo.



Hauptbahnhof – Cada cidade tem a sua estação central de trem, que interliga os mais distantes recantos do país. A malha ferroviária alemã é de dar inveja. As conexões são geralmente precisas: é normal ter-se apenas três ou quatro minutos para trocar de um trem para o outro. Por isso qualquer atraso é catastrófico. Mas tem pra quem se queixar e as queixas são ouvidas. Mais de 60 minutos de atraso significa receber dinheiro de volta. Quem vive aqui reclamaconstantemente da Deutsche Bahn, mas quem vem de fora geralmente elogia: os serviços são bastante organizados em comparação a outros países, mas se paga bem mais caro por isso. Um cálculo bom (mas não preciso!) é saber que cada hora de trem custa aproximadamente 10 euros quando os tickets são comprados com antecedência. Se comprar na hora, pode ser o dobro disso. Existem muitas formasde economizar e encontrar tickets mais baratos.



Imigrantes – Estatísticas de 2011 apontam que 19,5% da população total alemã (81,75 milhões de pessoas) é imigrante ou descendente de imigrantes.  Mas em muitas cidades a sensação é de que esses números são bem mais altos. Turcos são a larga maioria. Oficialmente, 1,575 milhão no final de 2012. Mas é preciso levar em conta que as novas gerações – filhos e netos dos turcos que imigraram no pós-guerra para trabalhar na reconstrução do país - já são nascidas na Alemanha e, portanto, alemães. Poloneses aparecem em segundo na lista: 532 mil. São seguidos dos italianos (529 mil), gregos (298 mil), croatas (224 mil) e romenos (205 mil). Brasileiros são muito menos, mas ainda assim 34.945 estão registrados no país. Essa mistura cultural pode ser vista no rosto das pessoas, na lojas de todas as nacionalidades, nos bairros de imigrantes. Mas nem tudo são flores e, mesmo com um passaporte alemão na mão, estrangeiro será para sempre estrangeiro.



Joaninha – Elas são símbolos de boa sorte aqui na Alemanha. Mas se você morar perto de um parque ou tiver um jardim grande, podem bem ser um azar! No final da primavera e começo do verão elas surgem aos milhões e não raro você passeia por um jardim e escuta um barulho “crocante” sob os pés... das joaninhas que vai amassando involuntariamente pelo caminho.



Kirche ou Kirsche – Igreja ou cereja? Alemão é mesmo um idioma complicado. Complicadíssimo. Mark Twain já dizia que "A vida é muito curta para aprender alemão", mas aprender o idioma é a principal chave para a integração. Costumo brincar que a universidade pode ser em inglês, mas a vida real segue sendo em alemão mesmo. Fora isso – e de volta a cereja! – a frutinha toma conta dos mercados no verão e faz o inverno todo ter valido a pena.



Lixo – Separar o lixo é o verdadeiro esporte nacional da Alemanha. E é bom fazer isso direito antes que um vizinho carrancudo apareça na porta pra dizer que você separou isso ou aquilo errado. Existem toneis de coleta de lixo reciclado nas casas ou em algum local próximo. Sempre. Então, o negócio é memorizar a cor dos contêineres: azul é para papel; amarelo para embalagens pequenas e metais; marrom é para lixo orgânico e o preto para o que não se pode reciclar. Vidro é separado por cor: há um contêiner para o transparente, outro para o marrom e outro para o verde. Até hoje não sei o que fazer com garrafas azuis e, por via das dúvidas, deixo de decoração em casa.



Mau humor – Eu não diria que os alemães são necessariamente mau humorados. Prefiro dizer que tem um senso de humor peculiar, diferente do brasileiro. É uma questão de costume. Tem gente que acha que sinceridade é grosseria e por isso acha que todo mundo na Alemanha é mal educado. Eu acho a vida mais simples. Se você recebe um convite e não pode ir, diz que não e pronto. Não promete e depois falta. Essa sinceridade quase em excesso é parte da personalidade do país e ajuda a construir a má fama. Claro que tem momentos em que a paciência some, especialmente naquelas temporadas de chuva, quando para sair na rua é obrigatório vestir uma cara azeda. Mas ai vem o sol... ah, o sol. E o humor muda e a vida segue.



Nazismo – Esse é um tema proibido. Nunca, jamais faça qualquer piada sobre o assunto. Não fale sobre a guerra em uma festa. Os alemães carregam até hoje uma culpa e uma vergonha muito grande pelo Nacional Socialismo e o assunto sempre transforma os humores. A questão é tão tabu que beira a paranoia. Por aqui, ter uma bandeira da Alemanha é algo mal visto: só pode na Copa. Ter orgulho do país ou de ser alemão também são valores que remetem ao fascismo. Os neonazistas só contribuem para entornar ainda mais o caldo.



Ordnung – Esta é a palavra que melhor resume a Alemanha. Para tudo existe uma regra, uma norma, uma lei. Para cada coisa que se queira fazer há um uniforme específico e um manual. Para a vida funcionar é preciso seguir todas as regras. Isso mantém o Ordnung, a ordem, traz estabilidade e faz a vida de todo mundo mais fácil. Bom, esse é o pensamento alemão. Nesses anos de Alemanha acabei aprendendo que o Ordung é, na verdade, o antônimo do jeitinho: se no Brasil sempre se acha uma maneira de contornar a situação e levar vantagem dela, aqui a mesma regra vale para todos e não adianta espernear.



Pontualidade – Chegar atrasado é um crime. E deveria ser no mundo todo! Marcar com alguém e fazer a pessoa esperar é o mesmo que determinar que o seu tempo vale mais do que o tempo da outra pessoa. Tirando a empresa de trens, que já foi muito pontual em outros tempos, todas as coisas seguem o ponteiro à risca. Se for se atrasar mais do cinco minutos, é bom mandar uma mensagem ou ligar avisando. Isso vale para o trabalho, para o compromisso com os amigos, para a universidade. Um amigo disse uma vez que a precisão é tão importante para os alemães que deve ser por isso que eles dizem os números de forma invertida: primeiro a unidade e depois a dezena! Só pode!



Qualidade – Se o orgulho de ser alemão é algo negativo para as pessoas, a relação com os produtos é inversa. Regras de controle de qualidade rígidas e consumidores exigentes deixam poucas queixas em relação a qualquer coisa feita no país. Isso vale até mesmo para os supermercados mais baratos – os discounter, tipo Lidl, Netto, Aldi, Norma. Até os produtos de marca branca, vendidos com exclusividade por determinada rede, tem boa qualidade e podem ser comprados sem medo. São muito mais baratos e não decepcionam em geral. Se tiver dúvida, consulte as etiquetas dos testes de qualidade, que são exibidas com orgulho pelas marca. Gut ou Sehr Gut estampados no fundo branco com o nome dos institutos são a certeza de levar pra casa coisas boas e, na maioria das vezes, sem ter que pagar mais caro por isso.



Religião – Dizem que a antiga Alemanha comunista é o lugar mais sem Deus do mundo. Isso por conta dos índices elevados de ateísmo nos estados que antes formavam a DDR. Mas esse fenômeno, que se repete em menor escala na “outra” Alemanha, tem um componente econômico importante: o imposto descontado direto na folha de pagamento para quem professa uma religião. Os valores variam conforme a renda, em uma conta que não sei definir como é feita. Mas chegam perto dos 100 Euros por mês pra quem ganha entre mil e dois mil. Por isso muita gente que pede benção pra avó se declara ateia na Alemanha. Quem paga justifica que o valor é usado para a conservação das igrejas que são verdadeiros museus e que financia muitas ações de caridade e mesmo bolsas estudantis oferecidas pelas organizações religiosas. Quem declarou e se arrepende depois da chegada do primeiro contracheque precisa ir a prefeitura e fazer uma papelada enorme em que “renuncia a fé”.



Salsicha – Existem estimados mil e quinhentos tipos de salsichas na Alemanha e, claro, eu devo conhecer uns 40, chutando alto. Cada cidade tem sua especialidade, seu jeito de preparar, sua receita secreta. Basicamente é assim: tira a tripa de dentro do porco e coloca o porco moído e temperado dentro da tripa. Duas salsichas, no entanto, são facilmente encontradas no país todo. A Bratwurst da Turíngia, que tem entre 30 e 40 cm, uns 3cm de diâmetro e é servida assada em um pão minúsculo com mostarda. A outra é a Currywurst, o prato típico de Berlin. A tenda do Curry 36, que fica na capital, é considerada por muitos a melhor, mas é possível achar boas opções na Alemanha inteira. Lembra (bem de longe!) a salsicha de cachorro-quente do Brasil, assada na grelha, cortada em rodelas e servida com um catchup temperado e curry em pó no topo. A descrição pode não ser convidativa, mas uma visita ao país não está completa sem provar a iguaria.



Teimosia – A minha cidade, Blumenau, em Santa Catarina, foi fundada por alemães e ainda abriga muitos descendentes. Por lá a gente usa um ditado mais ou menos assim: “Alemão não é teimoso. Teimoso é quem tenta discutir com alemão”. Bom, de algum lugar isso saiu. Eu já cai na besteira de discutir ou tentar argumentar algumas vezes por aqui e, depois de alguns anos de sofrimento, fica a dica: nem comece.



Universidade – A Alemanha tem internacionalizado suas universidades cada vez mais. Depois do tratado de Bolonha, especialmente. Com o fim dos cursos superiores chamados de Diplom (mais extensos que um bacharelado no Brasil e já com a equivalência do título de mestrado), passaram a pipocar mestrados internacionais no país. Ou seja: cursos em inglês gratuitos em todas as áreas, embora os bacharelados sejam em alemão (com raríssimas exceções). O ensino superior na Alemnha é gratuito. São poucas as faculdades privadas e é possível escapar delas com boas opções públicas. O que se paga por aqui é uma taxa de matrícula semestral – entre 150 e 300 euros, conforme a cidade – que já inclui o ticket para o transporte local. Então, para quem planeja arriscar um voo solo no exterior para uma especialização, a Alemanha é o caminho mais fácil, já que não é preciso entrar na briga por bolsas de estudo.



Verão – Dias que amanhecem as 3h30 e anoitecem depois das 22h. O mês mais aguardado do ano, sem dúvidas. Sim, o mês: porque o verão por aqui não é exatamente uma estação inteira. Sair de casa com os braços de fora e nem pensar em levar um casaquinho (mesmo que leve) é raridade. E nesses dias de “raridade”, os 30 graus parecem ser 40. As casas, as cidades, os transportes: nada épreparado para o calor. Em alguns Estados, quando os termômetros passam dos 30 graus as aulas são canceladas. Mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Para quem trabalha, o jeito é driblar a massa quente com ventiladores e esperar. A única certeza é que o calor dura muito pouco.



Xenofobia – Esse é um assunto sério no país. A xenofobia existe sim e é um problema grave. E não é apenas contra um grupo étnico distinto: é contra todo mundo que não é alemão. Antes que eu seja execrada, quero dizer que sim, existe uma grande maioria de alemães que convive perfeitamente com um país internacionalizado. Mas se você é estrangeiro, mesmo que fale a língua e seja loiro e de olhos azuis vai enfrentar problemas (em maior ou menor escala) em algum momento. Isso vale para empregos, para amigos, para a simpatia no atendimento, para resolver os problemas. Mas vale muito na hora de alugar casa: como estrangeiro, mesmo tendo emprego, grana e afins, é sempre mais difícil conseguir um apartamento. Uma vez que os imóveis aqui não são de quem chega primeiro – ocorre sempre um tipo de entrevista e todo mundo vai arrumado ver casa – os alemães acabam sempre tendo a preferência.



Zelador – O zelador do prédio será o seu melhor amigo aqui na Alemanha. É quem arruma a torneira com vazamento, o chuveiro que tem cal (sim, porque a água é muito alcalina e vai entupindo tudo com o tempo). Se você morar em um condomínio estudantil, esses serviços costumam estar incluídos. Se não, leia com atenção o contrato. Tive um problema sério com isso. Apareceu uma mancha de mofo na minha parede na época em que vivia em Berlin em um apartamento térreo – e isso é uma coisa séria e que precisa ser resolvida o quanto antes – e a administradora do prédio disse que o zelador passaria lá para resolver. Eu disse que não precisava, que eu mesma faria. Já tinha aprendido com o zelador do prédio anterior que a única coisa que resolve esse problema é um spray anti mofo que vende nas lojas de material de construção, para uso profissional. Os do mercado não valem nada. Enfim: o homem foi lá, jogou o spray, esperou três minutos, secou com um pano e foi embora em menos de dez minutos. Veio a conta: 65 euros.



... – Essa é a primeira “amostra grátis” do Alemanha de A a Z. A ideia é continuar escrevendo sobre os mais diferentes aspectos do país. Por isso, se gostou, comente. Se não gostou, comente também. Sugestões de novos verbetes são sempre bem vindas. É só deixar um recado.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dicas de inverno: como se preparar e como enfrentar o frio na Alemanha


Não existe tempo ruim: o importante é usar a roupa certa

As temperaturas costumam chegar aos -20 graus em algumas regiões da Alemanha durante o inverno. Isso inclui Berlin. Mas ondas de frio tão intenso duram poucos dias, por sorte. Em média – sem contar os alpes e montanhas – os dias ficam entre -5° e + 5 por seis longos meses. Então, pra quem chegou agora, ou vai chegar no meio desse período, algumas dicas podem ser úteis e ajudam a evitar maiores complicações. Já fiz um post para quem planeja fazer turismo no inverno, mas esse aqui é um pouco mais completo.

A primeira das dicas é simples: é frio e você vai ter que se acostumar com isso, de qualquer maneira. Por isso, quanto antes, melhor. E a melhor coisa é entender que é inverno e não adianta querer transformar a casa em uma filial dos trópicos que a coisa não vai funcionar. Por isso, compre um termômetro e regule o aquecimento de forma a criar conforto térmico, mas sem tornar as suas saídas de casa um tormento. A temperatura ideal para o ambiente em que se passa a maior parte do tempo é entre 18 e 21 graus. Mais que isso é puro exagero. Para dormir, entre 17 e 19 graus. Além de ajudar na saúde, esse cuidado ajuda no bolso! Apesar do aquecimento ser pago mensalmente, junto com o aluguel, no final de cada ano é feito um ajuste: o estado verifica se você consumiu mais do que pagou ao longo de um período e é preciso quitar o excedente (raramente se recebe de volta). E as contas costumam ser bem salgadas. Já vi gente recebendo 2 mil euros extras para pagar, de uma vez só, em um apartamento de três pessoas.

Pé quente

Para não sentir frio dentro de casa, aposte em roupas confortáveis: se tiver os pés sempre gelados, sapatos forrados de pelinhos resolvem. Pode até ser um Croc muito feio, com pelúcia por dentro, desde que ninguém veja (nas lojas de quinquilharias – tipo Teddy ou McGeiz, vende por uns 5 euros). Ou mesmo uma bota forrada de pelo: eu tenho uma dessas só pra usar em casa, assim não fico arrastando sujeira da rua. Paguei 7 euros na Kik: é feia de doer, mas é a coisa mais quentinha que já usei na vida. Para os menos friorentos, chinelinhos de pano também resolvem ou um tênis confortável. Havaianas só se for com meia: pés de fora é coisa para o verão. Não dá para manter aqui os mesmos hábitos do Brasil. E não ande descalço, claro.

Falando em pés gelados, uma dica pra quem não consegue se esquentar são as bolsas de água quente. Também podem ser encontradas mas lojas de bugigangas. Existem um capas apeluciadas para elas, bem fofas, e ficam com mais cara de travesseirinho do que aquelas bolsas de antigamente. Eu tenho uma linda demais que ganhei de uma amiga e acho uma delícia colocar nos pés nas noites mais geladas.

Existem ainda umas bolsinhas de gel com a mesma função das bolsas de água quente: mas para os bolsos! Uma delícia. Você coloca na água quente antes de sair de casa, seca, enfia nos bolsos e pronto: mãos quentinhas em todo o trajeto. E luvas, claro: luvas de lã não são muito eficazes, já que os furinhos deixam o vento passar. As de couro são caras, mas boas. Um meio termo são as de fleece: mais fechadas que as de lã e bem mais baratas que as de couro. Se o frio for muito mesmo, vale apelar para as luvas de ski, fofinhas e acolchoadas. Tudo isso baratinho na Kik ou lojinhas de Bahnhof.

Na hora de sair

Aliás, sair de casa exige um preparo. De nada servem muitas camadas se a roupa estiver errada. Primeiro é preciso dizer que você vai precisar de um bom casaco. Sugiro comprar aqui: os brasileiros são caros demais, finos demais e decotados demais. É preciso ter algo que realmente bloqueie o vento, que seja de preferência impermeável – ou ao menos uma lã grossa o bastante para não absorver a água e deixar você molhado – e bem fechado no pescoço. O ideal são casacos na altura do joelho ou um pouco abaixo, já que protegem melhor as pernas. Se puder, compre um com regulagem nos punhos, para deixar fechadinho e evitar que entre frio pelos braços. Existem modelos e preços variados: em lojas bem baratas, como a Kik e a Primark, dá para achar um que sobreviva um inverno. Na C&A já são um pouco mais resistentes. Outra dica é pesquisar nos brechós da cidade: sempre se acha alguma coisa bacana e exclusiva! Mercados das pulgas (Flohmarkt) também tem roupas: nesse caso a regra é pechinchar e você pode sair de lá com uma peça bacana por menos de 10 euros.

Palmilhas: lã ajuda a separar os pés do chão congelado

A mesma regra dos casacos vale para os sapatos. É preciso encontrar uma bota forrada, com sola grossa e de borracha, preferivelmente com garras para não escorregar na neve. Se for comprar um sapato ainda no Brasil, evite os que tem sola de couro: são muito escorregadios. Também deixe os saltos para a volta: eles não combinam com gelo. No entanto, sapatos menos “preparados” podem servir com algumas adaptações. Uma boa opção são as palmilhas de lã de ovelha, que se acha nas lojas de quinquilharias ou mesmo nas de cosméticos (tipo Rossmann ou dm). Custam entre 1 e 3 euros e realmente funcionam: elas não deixam passar tanto frio pela sola do pé. Não use sapatos apertados: botas justas dificultam a circulação e com isso o pé fica ainda mais gelado. Na hora de comprar, se planeja usar meias grossas, prefira um número maior. Aliás, falando em meias, embora as de lã sejam bem quentes, as de algodão deixam o pé respirar melhor! E meia é uma coisa muito barata aqui na Alemanha: com 5 euros se compra meia dúzia. Mas nunca compre meias brancas: é um fiasco por essas bandas!

Mas se mesmo nos mercados de pulga as botas de inverno estiverem além do orçamento, é possível transformar sapatos de sola lisa em uma opção mais segura. Existem uns grampos que podem ser presos em qualquer modelo. Encomendar pela internet é a forma mais barata. Custam cerca de 5 euros pelo ebay.de.

Bom, pés quentes e casaco. Chegou a hora de falar sobre as calças: primeiro de tudo, mantenha as bainhas bem feitas ou prefira modelos mais estreitos na perna: arrastar a barra pelo chão em dias de neve é garantir pernas geladas pelo dia todo. E isso não é nada bom! Além disso, quando está muito frio ou quando vai se passar várias horas nas ruas, é preciso usar uma segunda camada. Os supermercados populares (Aldi, Lidl, etc) ou as lojas simples (Kik, por exemplo) costumam vender essas roupas de usar por baixo: são calças justas, de um tecido térmico, criadas para praticar esportes de inverno, mas muito úteis para visitar os mercados de Natal! Para as mulheres, as opções são mais divertidas: existem meias-calças com um revestimento interno apeluciado (e outras ainda com o mesmo material das masculinas) que esquentam bastante. Custam geralmente 5 euros, nas mesmas lojinhas já citadas e valem muito, muito a pena. Eu gosto mesmo é de usar vestido no inverno: com uma meia dessas e uma legging bem grossa, não corro o risco de ficar arrastando neve com a barra da calça por ai.

Nada de calças "baixas"

Sobre as calças, vale dizer ainda que é hora de dar adeus as calças de cintura baixa. Compre umas “santropeito” mesmo e seja feliz. Conheci muitas brasileiras que, por conta do hábito de deixar a barriga ou as costas de fora, ficaram com cistite na primeira semana de frio. O negócio aqui é colocar uma das blusas por dentro da calça mesmo e prender bem para não sair: assim evita qualquer chance de deixar as costas ou o ventre expostos ao frio.

Bom, faltou falar da parte de cima. É preciso proteger a cabeça e, especialmente, os ouvidos! As tocas que existem no sul do Brasil não servem para muita coisa aqui. O ideal são toucas duplas, com uma camada interna apeluciada. O primeiro contato com elas é de repulsa: são feias, geralmente. Mas uma boa garimpada permite achar coisas interessantes! Se for comprar um chapéu, não esqueça que o importante é cobrir as orelhas: se não, serve só de enfeite. Existem protetores de orelha que funcionam bem até uma certa temperatura. Depois disso é preciso cobrir a cabeça mesmo.

Outra coisa para usar sempre: cachecol. Alemães usam até mesmo no verão: lenços, echarpes e afins. Proteger a garganta é regra por aqui e, se todo mundo faz, deve ter seus motivos! Para o outono, cachecóis tipo pashminas são ok, mas o frio pede coisas mais encorpadas, de lã. Use duplo, bem fechado e, se a temperatura estiver além dos -10, vale colocar por cima da boca e nariz para não respirar o ar tão gelado. Ah, aqueles cachecóis que as mães e vós costumam fazer no Brasil só servem se forem feitos com lã grossa e agulhas finas: ou seja, sem muitos furinhos. Um cachecol de pontos bem apertadinhos faz toda a diferença.

Cuidados com a pele

A pele também precisa de cuidados especiais no frio. A água na Alemanha é muito calcária e, quanto mais quente, mais pesada. Isso resseca muito a pele e pode provocar descamações ou mesmo rachaduras nos cotovelos, joelhos e tornozelos em pouco tempo. Por isso, mesmo que no Brasil a pele tendesse a ser oleosa, por aqui ela vai precisar de muito hidratante. E isso vale para os homens também.  Os hidratantes brasileiros dificilmente ajudam, já que não são oleosos o bastante. Melhor mesmo é apostar em um leite hidratante. Marcas como Nivea, Dove e Bebe tem várias opções, mas mesmo os produtos das marcas mais baratas dos supermercados são eficientes.

Os lábios geralmente são os primeiros a dar sinal de ressecamento e, por conta do batom, as mulheres podem sentir menos que os homens. Mas como nem todos os dias sobra paciência para maquiagem, o negócio é ter um bastão hidratante sempre à mão. São baratinhos: 1 euro ou menos no Rossmann, dm e afins. Mas se o aviso chegou tarde demais, o ideal mesmo é passar em uma farmácia e comprar um hidratante labial a base de Bepantol, que cicatriza as rachaduras e evita novas.

Falando em farmácia, inverno também é época de depressão. Não pelo frio, mas pelas longas horas de escuridão. Até os alemães sofrem com isso. Para amenizar, duas dicas: a primeira é comprar comprimidos de Johanniskräuter nas lojas de cosméticos ou supermercados. São drágeas de uma planta conhecida no Brasil como Erva de SãoJoão e ajudam mesmo a combater a depressão típica dessa época. Não precisa de receita e custam cerca de 4 euros a caixa com 60 comprimidos. A segunda dica é buscar sol. Se uma viagem para o Sul da Europa tá fora do orçamento, dá pra “remendar” com uma ida ao solarium (Sonnestudio). Mas nada de ficar laranja: são três minutos (não mais!), na máquina mais fraca que o estúdio tiver, com a regulagem mais baixa. A ideia é só ter luz o bastante para processar vitamina D e voltar a ser feliz! Enfim, o inverno tem seus segredinhos, mas dá pra sobreviver a ele.

Camadas certas de roupa

Em um resumão para fechar o post, na hora de planejar a roupa pra sair de casa, pense sempre em camadas e lembre-se que dentro de todos os ambientes (mesmo ônibus e trens) é quente. Em alguns, como lojas de departamentos, exageradamente quente. Então o ideal é usar peças que permitam abrir e deixar um ar entrar pra não sufocar! Uma boa dica, que funciona muito bem entre -5 e -15 é a seguinte sequência: uma camiseta de algodão, manga longa, bem justa junto ao corpo. Um pulôver de lã justinho. Um casaco de fleece, aberto na frente, bem justo também: de preferência de gola alta (vende na Kik a partir de 5 euros e na C&A por 9). Por cima de tudo, o casaco grosso, cachecol, touca, luvas. Na parte de baixo, meia-calça apeluciada de fio 600, calça jeans (ou outro material quente, como veludo) grossa e de cintura mais alta. Meia de algodão grossa e sapatos de inverno com palmilhas de lã. Hidratante no rosto e mãos, protetor labial e boa sorte!

E como dizem os alemães: „Es gibt kein schlechtes Wetter, sondern nur ungeeignete Kleidung“. Não existe tempo ruim, existe apenas roupa inapropriada!

Se depois de fazer tudo isso o frio ainda for demais, aproveite o clima natalino e pare na primeira barraquinha que encontrar e peça um vinho quente, o tradicionalíssimo Glüwein. Sugiro pagar o extra e pedir uma dose de licor de amêndoas junto: esquenta o corpo, a alma e deixa o inverno muito mais colorido!


Lá fora: é frio sim, mas o inverno é cheio de encantos

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Turismo na Alemanha em pleno inverno: É bom estar preparado para o frio europeu


Claro que todo mundo sabe que no verão faz calor e que deve gelar no inverno, e que isso não deveria ser assunto pra um comentário. Mas a vida funciona assim: o que seria do papo do ponto de ônibus se não fosse a previsão do tempo?

Berlin: -15 no café da manhã, mas a sensação era de mais frio ainda, -22
(Screenshot de um dos poucos sites que realmente acertam a temperatura e a previsão do tempo aqui na Alemanha: pode colocar o www.wetter.de nos favoritos!)

Este ano o inverno deu uma de sacana. Demorou pacas pra chegar, mas depois chegou “chegando”, por assim dizer. Em uma semana estava +3 para, dois dias depois a coisa começar a congelar e chegar a -15 hoje de manhã aqui em Berlin, com sensação térmica de -22. Isso é frio, muito frio e ainda pode piorar. Só não teve muita neve ainda: caíram uns floquinhos esta semana, mas foi coisa pouca. Ainda da pra ver um resto de gelo nas ruas, já que a temperatura não foi além de zero em momento algum.

]Por aqui o tal papo é mais raro, mas ainda assim saber da previsão faz parte do dia a dia de forma mais intensa até, eu diria. Porque é preciso saber como se vestir, já que até se morre de calor, mas é muito mais fácil morrer de frio, literalmente. Este ano, dezenas de pessoas já morreram na Europa por conta da falta de proteção: com mais ênfase no Leste europeu, onde as condições de vida são piores. Mas a Alemanha não está isenta de mazelas: a prefeitura de Berlin estava fazendo uma campanha pela TV pedindo doações para ajudar a manter abrigos aquecidos para a população de rua (sim, aqui tem mendigo também). Além disso, se a marmota estiver certa, o anúncio é de mais seis semanas de inverno intenso.

O fato é que essa friaca toda requer alguns cuidados especiais, especialmente pra quem vai encarar o inverno alemão pela primeira vez. Claro que alguém já teve ter avisado que janeiro não é a melhor época para fazer turismo na Alemanha, mas se você decidiu encarar o desafio, é bom estar prevenido para não congelar ou adoecer.  A primeira dica é: não gaste seu rico dinheirinho em casacos antes de sair do Brasil. Claro que você precisa de um para a chegada, mas invista em roupas compradas aqui mesmo na Europa. Primeiro, por que elas são muito mais baratas e segundo, por que são modeladas e preparadas para quem precisa enfrentar as temperaturas bem abaixo de zero. 

Quer um exemplo: os sobretudos de lã que vendem no Brasil geralmente têm cortes lindos... e decotados. Tudo o que você não quer é deixar seu colo exposto às rajadas de vento que fazem o frio chegar aos ossos. E por aqui tem casacos fechadinhos pra todos os bolsos... dos 8 euros aos 8 mil (tem uma avenida, a Kurfürstendamm, onde estão as lojas das marcas mais caras do mundo). Algumas dicas estão aqui, se você esta mais para o time dos 8 euros. Calça de cintura baixa é outro desaforo: deixe a piriguete que existe em você no Brasil e suba a cintura do vestuário. Não precisa voltar aos anos 80: mas qualquer coisa que não cubra as costas e a barriga de forma adequada é um convite a uma cistite que pode estragar as férias. E por ai vai.

Quanto ao frio, é preciso saber que qualquer temperatura abaixo de -5 provoca desconforto na hora de respirar: o ar entra gelado e chega a doer. Não há muito o que fazer quanto a isso. Evite passeios de muitas horas seguidas ao ar livre: alterne monumentos ao ar livre com museus e outras opções em locais fechados. Se desloque de ônibus ou trem entre um ponto e outro sempre que possível e pare para beber um café ou chocolate quente. Mantenha os pés secos: invista em uma boa bota impermeável e com forro de lã (não esqueça de levar um par de meias secas na bolsa: não pesa nada e pode quebrar um galho!).  O nariz também congela, as bochechas formigam e depois perdem a sensibilidade: assim é a vida. A parte boa é que tudo tem calefação: as casas, os mercados, o trem, o ônibus.

E essa também é a parte ruim, de certa forma. Você está lá na rua congelando... entra em uma loja e em dois minutos ta quentinha... para então começar a se sentir desesperada de calor e quer arrancar uma a uma as várias camadas de roupa que está usando. O mesmo acontece no trem: mas ai precisa colocar todas essas camadas novamente antes de descer pra não congelar.  Claro que os alemães não fazem isso: de alguma maneira eles desenvolveram uma capacidade pecilotérmica. Ficam lá, paradinhos, de nariz vermelho, como se não estivessem sentindo calor algum... Vá entender.

Antes da roupa toda, anota ai outra dica: hidratante. Parece uma coisa meio óbvia... mas depois de três banhos com a água super calcária aqui da Alemanha você começa a descascar e mesmo a ter rachaduras nos tornozelos, cotovelos e canelas, especialmente. Abuse dos hidratantes:  deixe pra comprar isso aqui também, já que são excelentes e bem mais baratos que no Brasil. O mesmo vale para aqueles sticks para os lábios, tipo manteiga de cacau: é bom ter sempre um ao alcance.  Ah... e por fim, já vá se acostumando: nunca esqueça de levar lencinhos de papel no bolso. Nesse troca-troca de temperatura,  o nariz vira uma goteira e nada pode ser pior do que ficar fungando pra todos os lados.  :) Ah... pra fechar, lembrei de um post bem nonsense que escrevi faz um tempinho com considerações genéricas sobre a neve.  Espero que ajude... enquanto o termômetro não volta a ser positivo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

E tudo ficou branco, mais uma vez...



Eu sei que falo muito sobre o tempo. E também que falo muito em primeira pessoa. Mas como ninguém está cortando árvores para imprimir meus devaneios, a infinita sequência de “zero-e-uns” me conforta. Eu já expliquei porque gosto de previsão do tempo, então, vou só escrever, falar sobre isso e deu. Aliás, falar sobre o tempo e em primeira pessoa é uma negação interessante à teoria de um amigo que ouvi faz uns anos. Ele dizia que as pessoas falam sobre o tempo porque querem manter a superficialidade de não falar sobre elas mesmas...

Bom, o fato é que está nevando agora. Nesse minuto. Muito. O outro fato é que eu saí de casa hoje, no final da manhã, de óculos de sol e uma única camada de casaco. O terceiro fato é que os patos, que migram pra cá na primavera, já chegaram e os qua-qua-quás talvez comecem a sair roucos. Chegaaaaaaaaaaaaaaa... A o frio já perdeu a graça: já fiz guerra de neve, já caí, já tirei todas as fotos que podia. Neve já é piada velha: ninguém mais ri disso.

A única coisa engraçada nisso tudo é que lembrei de um texto bem antiguinho que rolava pela internet na época em que as pessoas mandavam menos lixo umas para as outras e ainda se aproveitava alguma coisa. Nesse texto ai, o nome do autor ficou perdido no meio da sequência infinda de Fw:fw:fW:fw:FW... Mas se alguém souber o nome do cidadão que descreveu tão bem o como me senti hoje quando começou a nevar de novo, por favor, me avisa porque ele merece todo o crédito do mundo. Ah... e se leu esse post até aqui, leia o textinho abaixo até o final... Ele mora (morava!?!?!?) na Pennsylvania, mas se fosse em Bremen, não mudaria nada...


Diário de um brasileiro no exterior


12 de Agosto

Ah! Hoje me mudei para minha nova casa no estado da Pennsylvania. Que paz! Tudo aqui é tão bonito. As montanhas são tão majestosas. Quase que não posso esperar para vê-las cobertas de neve. Que bom ter deixado para trás o calor, a umidade, o tráfego, a poluição, a violência e aqueles brasileiros mal-educados de São Paulo! Isso sim que é vida!!

14 de Outubro

Pennsylvania é o lugar mais bonito que já vi em minha vida! As folhas passaram por todos os tons de cor entre vermelho e o laranja. Que bom ter as 4 estações! Saímos para passear no bosque e, pela primeira vez, vi um cervo... são tão ágeis, tão elegantes, é um dos animais mais vistosos que jamais vi. Isto deve ser o paraíso! Espero que neve logo... isso sim que é vida!!

11 de Novembro

Logo começara a temporada de caça aos servos. Não posso imaginar como alguém pode matar uma dessas criaturas de Deus. Já chegou o inverno. Espero que neve logo! Isso sim que é vida!!

2 de Dezembro

Ontem à noite nevou! Despertei e encontrei tudo coberto por uma linda camada branca. Parece um cartão postal... uma foto!!Sai para tirar a neve dos degraus e passar a pá na entrada. Rolei nela e logo tive uma batalha de bola de neves com meus vizinhos (eu ganhei!!!) e, quando a niveladora de neve passou, tive que voltar a passar a pá. Que bonita a neve! Parecem bolas de algodão espalhadas por todos os lados. Que lugar bonito é esse...
Pennsylvania, isso sim que é vida!!

12 de Dezembro

Ontem a noite nevou outra vez. Não pude limpar a entrada por completo, porque antes que acabasse, já havia passado a niveladora... assim hoje, não pude ir trabalhar. Estou cansado de passar a pá nessa neve.
Droga de niveladora! Mas... que vida!

22 de Dezembro

Ontem a noite voltou a cair neve, ou melhor dito.... merda branca! Tenho as mãos cheias de calos por causa da pá. Creio que a niveladora me vigia desde a esquina e espera que eu acabe de tirar a neve com a pá para passar... Vá a puta que pariu!


25 de Dezembro


Feliz Natal! ....branco.... mas branco de verdade, sim, porque está cheio dessa merda branca. Viado! Se eu pego o filho da puta que dirige esta niveladora, juro que mato. Não entendo porque não usam mais sal nas ruas para que se derreta mais rápido este gelo de merda...

28 de Dezembro

O idiota do noticiário se equivocou outra vez. Não foram 10 polegadas de neve... caíram 34 polegadas a mais dessa merda! Vai tomar no cú! Seguindo assim, a neve não vai se derreter nem no verão. Agora resulta que a niveladora quebrou perto daqui, e o filho da puta do motorista veio me pedir a pá... que descarado! Disse-lhe que já tinha quebrado 6 pás limpando a merda que ele me havia deixado diariamente. Assim... quebrei a pá na cabeça daquele lazarento. Que bosta! Que saco, caraaalho!!

4 de Janeiro

Ao fim, hoje pude sair de casa. Fui buscar comida e um cervo de merda se meteu diante do carro e o atropelei. Caralho!! O conserto do carro vai me sair uns 3 mil dólares. Estes animais de merda deveriam ser envenenados. Oxalá os caçadores tivessem acabado com eles no ano passado. A temporada de caça deveria durar o ano inteiro.

15 de Março

Escorreguei no gelo que ainda há nesta puta cidade e quebrei uma perna. Ontem a noite sonhei estar sob uma palmeira.


3 de Maio


Quando me tiraram o gesso, levei o carro ao mecânico. Ele disse que o assoalho estava todo enferrujado por baixo, por culpa do sal de merda que jogaram nas ruas! Será que esses cornos não tem outra maneira de derreter essa bosta de gelo?

10 de Maio

Mudei-me outra vez para São Paulo!!! Isto sim que é vida! Que delícia!!! Calor, umidade, tráfego, violência, poluição e falta de educação! A verdade é que qualquer um que imagine morar nessa Pennsylvania de merda, tão solitária e fria, é um retardado... ou deve estar louco!! Isto sim que é vida!”
de volta à nave mãe - desde 2008 © Ivana Ebel